quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com o olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Obra Poética




terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CONCERTO

O arco
do violinista
aparece de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...

E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de Carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
do acorde perfeito
final

Bravo! Bravo! Bis!

José Gomes Ferreira, Poesia IV

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa


Para os leitores do blogue
votos de um feliz Natal!

Arminda Fernandes

domingo, 20 de dezembro de 2015

EM CRETA, COM O MINOTAURO

Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

Jorge de Sena

Creta

domingo, 13 de dezembro de 2015

OS MEUS CADERNOS DE VIAGEM

   Uma das obsessões da minha adolescência era pôr em papel tudo o que me rodeava e interessava, para criar uma espécie de enciclopédia pessoal. (...) Usava agendas antigas e livros de contabilidade e comecei a desenhar e a colar fotografias de revistas, etiquetas e autocolantes, apenas com um critério cronológico.
   Na minha primeira viagem com o livro às costas, dei-me conta de que estava muito mais recetivo porque tudo me surpreendia e estava particularmente sensível (...). No final era muito mais produtivo e era capaz de encher um destes livros numa só viagem. Isto fez-me ligar os cadernos às viagens, dando-lhes um sentido especial. Os cadernos de viagem ajudam-me a observar os lugares e também a relacionar-me com as pessoas que neles aparecem. Algo especial que não acontece com as fotografias.
   É curioso ver as pessoas sorrirem ao reconhecerem as suas paisagens, as suas cidades, e pequenos detalhes como invólucros de caramelos ou de pastéis, maços de tabaco, caixas de fósforos ou bilhetes de autocarro. Às vezes elas também desenham e aí fica tudo. Frases que se ouvem, gestos, pequenos detalhes nas relações, formas de comer e de dormir, formas de cumprimentar, sinais, rótulos, costumes...  até conseguir um pequeno documentário para trazer para casa, como aquela enciclopédia pessoal «visual», semelhante às que em pequeno se vendiam com textos rodeando as imagens, com desenhos coloridos para não ter de ler e pelo prazer de passar as páginas.
   Agora procuro ver a vida como uma viagem e levo sempre um livro em branco que vou enchendo pouco a pouco como um escritor que se vê obrigado a escrever. Às vezes penso que o que não está nos meus cadernos não existiu e, quem sabe, eles podem mesmo ter acabado com a minha minúscula memória. Depois de tudo, quando duvidamos, existem eles, ali, fisicamente, esperando que abra as suas portas para entrar, esquecendo o mundo, como num cinema.

José Maria Sanchéz, in Diários de Viagens - Desenhos do Quotidiano,
Eduardo Salavisa, Quimera Ed.

Uma página feita pelo autor quando visitou Lisboa

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

CARTA AO MAR

Ó ondas fugitivas...
Camões

Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lírico, choroso,
E terno visionário, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vai ter contigo,
- Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, - vasto e húmido jazigo!

Nada é mais triste, trágico e profundo!
Ninguém te vence ou te venceu no mundo!...
Mas também, quem te pôde consolar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excelência! -
E, contudo, ouve-o aqui, em confidência:
- A Música é mais triste inda que o Mar!

Gomes Leal, Antologia Poética: entre a diferença e o excesso

Resultado de imagem para mar

segunda-feira, 30 de novembro de 2015


           DESTINO
   
          Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Floresce!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer. 


Almeida Garrett, in Folhas Caídas



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O POLVO

O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo dessa aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas as cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; se está em alguma pedra, como ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador,  que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. (…)


                                                              Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA de PADRE ANTÓNIO VIEIRA

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva.
(…)Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova.
(…) Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir subtilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.
Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.


Padre António Vieira, in Sermão da Sexagésima

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

JUNTO AO CANAL

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Penso isto percorrendo
sábado de manhã a avenida Nevsky
e não me é estranho o claro cinzento
de setembro, os lugares não
mudam nem sequer
os transeuntes, Gogol passa
no passeio que
começa a encher-se de gente
e detém-se na ponte sobre o largo canal
Moika; a cidade mais bela assim a ela
se referiu há muito o Abelaira
ao regressar à obscura
Lisboa luminosa; olhando as caras claras
olho o mundo
à sua etapa última chegado,
mas não são últimas todas as etapas?
Não é pensável o poema, e o mundo
como que para, nos seus tempos diversos
se movendo, escrevo a andar, vejo 
a manhã russa e as cores das fachadas
verdes e amarelas ocre e rosa envolvendo-me,
volto ao canal onde a aragem fria
a água agita e aparentemente a faz
correr, não estou aqui
talvez, lugar e
tempo anulam o meu ser

Gastão Cruz, A Moeda do Tempo,
Assírio & Alvim, 2006

São Petersburgo

sábado, 14 de novembro de 2015

O VIAJANTE CLANDESTINO

Onde os trigais amadurecem, está
tua saudade da cena familiar
- pais, irmãos, campos, casa, noiva. Lá,
falam de ti, serenos, sem chorar.

Recordam, com orgulho natural,
teu rosto, agora anónimo em viagem.
E leem, ao serão, o teu jornal,
como se fosses tu, a tua imagem.

E imaginam que escreves "pai, querida 
mãe", que mandas novas tuas, de onde quer
que estejas transformando a própria vida.

E resistem. Procuram merecer
tua certeza, dádiva colhida
na rubra sebe em flor, ao amanhecer.

Daniel Filipe, Pátria Lugar de Exílio

quinta-feira, 12 de novembro de 2015


A POMBA

   Apercebeu-se de que a sua contínua referência aos estatutos do prédio era um tanto ridícula. E também não lhe interessava minimamente a forma como a pomba havia entrado. Não queria de forma alguma continuar a falar em detalhe sobre a pomba; este horrível problema só a ele dizia respeito. Pretendia apenas exteriorizar a sua indignação pelos olhares perscrutadores de Madame Rocard, mais nada, e isso concluíra-se com as primeiras frases. Agora a irritação tinha-se desvanecido. Agora, ignorava como prosseguir.
   - Tem que se enxotar a pomba e fechar a janela - redarguiu Madame Rocard, que se expressava como se isto fosse a coisa mais simples deste mundo e como se tudo pudesse voltar a entrar na ordem mediante essa atitude.
   Jonathan mantinha-se calado. Perdera-se no fundo castanho dos olhos da porteira e corria o risco de ali se afundar como num pântano mole e castanho; viu-se obrigado a fechar os olhos pelo espaço de um segundo, a fim de se recompor, após o que tossicou e recuperou a voz.
   - Mas é que... - começou e tossicou de novo - ... é que já há grandes poios por todo o lado. Grandes e verdes. E penas também. A pomba sujou o corredor todo. É esse o problema principal.

Patrick Süskind, A Pomba,
 Círculo de Leitores

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Os «Banhos»

   - Ora mal sabem vocês quem vai casar? - pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
   E o povo parecia perguntar, escutando:
   - Quem será? Quem será?
   - ... e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
   Eram, já se vê, os proclames de  António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o Sr. Reitor: - «todos desta freguesia!» Riam, os santinhos! - «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
   - Pois vão bem! Pois vão muito bem!
   E o Sr. Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
   - Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
   Ora, ora! Pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todo levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: - os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... e do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta pra baixo, que na boda não desse à perna - trup-trup! trup-trup! - nesse lindo dia de sol...

Fialho de Almeida, Os Meus Amores


Imagem relacionada

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A ARTE DE AMAR
(século I a.C.)

   Cede, se a tua amiga te contradisser; cedendo, sairás vencedor da luta. Limita-te a desempenhar o papel que te atribuir. Se ela censurar, censura; aprova tudo o que ela aprove, afirma o que afirmar e nega o que negar. Se ri, ri-te com ela; se chora, acompanha o seu pranto. Que a expressão do teu rosto se afine pela sua [...] Apressa-te a chegar-lhe o escabelo para a cama alta; tira-lhe as sandálias dos delicados pés ou calça-lhas. Também, ainda que estejas morto de frio, ser-te-á muitas vezes necessário aquecer no peito as mãos geladas da tua amiga. E não julgues vergonhoso (e, mesmo que o fosse, deverá agradar-te) seres tu, homem livre, quem lhe segure o espelho para que se mire [...]
   Mas, se te interessa conservar o amor da tua amiga, procede de modo que te julgue maravilhado com a sua beleza. [...] Diz-lhe que, a teus olhos, ela vale mais que o ouro. Se escolheu um vestido pesado, aprova a sua escolha. Se vem ao teu encontro vestida com uma simples túnica, exclama: "Incendeias-me." Mas, timidamente, pede-lhe que se resguarde do frio. Traz nos cabelos uma fita singela? Elogia esse penteado. Frisou os cabelos? Como gostas dos cabelos frisados! Admira os seus braços quando baile, a sua voz quando cante; quando acabar, lamenta que não continue. Poderás enaltecer os seus abraços e aquilo que te faz feliz, as secretas volúpias que se saboreiam pela noite adiante. Ainda que seja mais esquiva que a assustadora Medusa, tornar-se-ia doce e amorável para ti, que a desejas ardentemente.

Ovídio, A Arte de Amar, Europa-América

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PEDRA FILOSOFAL

   Eles não sabem que o sonho
   é uma constante da vida
   tão concreta e definida
   como outra coisa qualquer,
   como esta pedra cinzenta
   em que me sento e descanso,
   como este ribeiro manso
   em serenos sobressaltos,
   como estes pinheiros altos
   que em verde e oiro se agitam,
   como estas aves que gritam
   em bebedeiras de azul.

   Eles não sabem que o sonho
   é vinho, é espuma, é fermento,
   bichinho álacre e sedento,
   de focinho pontiagudo,
   que fossa através de tudo
   num perpétuo movimento.

   Eles não sabem que o sonho
   é tela, é cor, é pincel,
   base, fuste, capitel,
   arco em ogiva, vitral,
   pináculo de catedral,
   contraponto, sinfonia,
   máscara grega, magia,
   que é retorta de alquimista,
   mapa do mundo distante,
   rosa-dos-ventos, Infante,
   caravela quinhentista,
   que é Cabo da Boa Esperança,
   ouro, canela, marfim,
   florete de espadachim,
   bastidor, passo de dança,
   Colombina e Arlequim,
   passarola voadora,
   pára-raios, locomotiva,
   barco de proa festiva,
   alto-forno, geradora,
   cisão do átomo, radar,
   ultra-som, televisão,
   desembarque em foguetão
   na superfície lunar.

   Eles não sabem, nem sonham,
   que o sonho comanda a vida.
   Que sempre que um homem sonha
   o mundo pula e avança
   como bola colorida
   entre as mãos de uma criança.

António Gedeão, Movimento Perpétuo (1956)

ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1999)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho, nasceu em Lisboa e foi professor de Físico-Química do Liceu Pedro Nunes. A sua formação científica fez-se notar nos livros escolares e de divulgação científica que publicou e também em muita da sua poesia.
Algumas obras: Movimento Perpétuo, Máquina de Fogo, Poema para Galileu, títulos reunidos em Poesias Completas.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

SÓ EU SEI QUANTO ME DÓI A SEPARAÇÃO

Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena, no papel, escrever não é dado
Sem que a lágrimas trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu grande orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite; orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.

Al-Mu' Tamid

É um dos maiores poetas do Islão e o mais notável dos poetas hispano-árabes da segunda metade do século XI. nasceu em Beja em 1040, governou Silves, mais tarde governou Sevilha, em 1069. Morreu em 1095.


Al-Mu' Tamid

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NAMORAR RENTE À JANELA

   O rapaz que trazia um banquinho para namorar, à tarde, rente à janela da casa na parte larga da Rua da Boavista, era um desses apaixonados que se encontram de cem em cem anos e que são pessoas a quem a sociedade fica a dever muito no campo das ciências humanas. Tinha namoros em quatro ou cinco ruas da cidade e, o que era mais extraordinário, é que eram todas suas noivas. A todas contemplava com um sentimento terno e inabalável. A psicanálise ainda não se divulgara como método de cultivar doenças que, provavelmente, não eram outra coisa senão a paixão em estado indestrutível que é a crença na felicidade. Não se ama para conseguir qualquer espécie de soberania, mas para ter felicidade, essa felicidade ociosa do Paraíso em que nada nos faltava e nada era objeto de desejo.
   Se, na parte larga da Rua da Boavista, onde se levanta o edifício do Hospital Militar, os passeios são amplos e permitiam o namoro na cadeirinha, o mesmo não acontecia noutros bairros do Porto. Então era o namoro de janela, feito por sinais e olhares, na meia folha duma cortina de croché. A jovem saía só para comprar miudezas e para ir à modista, e não trabalhava fora de casa. Havia na Rua da Torrinha uma rapariga duma beleza incrível, dessas que o Porto produzia dentro das suas paredes de reboco escalavrado, e que se sustentava de chá e de sonhos fantásticos que incluíam um ator de cinema. Algo de inacessível, que é o que os sonhos têm de mais empolgante. Também essa menina, Florinda, constava na agenda do nosso namorador e ele seguia-a na rua, fazia com ela, mas não a par, a Volta dos Tristes que era o caminho entre Santa Catarina e Sá da Bandeira. Santo António, depois crismada de 31 de Janeiro, era onde começava o comércio de luxo; as sapatarias e as primeiras boutiques de alto preço estavam lá, assim como uma ourivesaria famosa. Uma das ambições das mulheres mais bonitas da cidade, sendo novas, era servir ao balcão dessas casas frequentadas pelas pessoas mais importantes pelo dinheiro e pela elegância. [...]

Agustina Bessa-Luís, "Casamento e Fuga", in Porto Ficção,
Edições Asa

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o laço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Ó pescador!

Almeida Garrett, Folhas Caídas





O êxito é aprender a ir de fracasso em fracasso
 sem se desesperar.

Winston Churchill

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

NAS PRAIAS

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois que por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.

Sophia de Mello Breyner, Coral

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


A transitar num verbo transitivo
declino, perifrástica de charme
o advérbio de modo a conjugar-me
pronome possessivo ao teu ouvido.

Plural, superlativa e multiforme
morfológica sim lógica não
concordo consoante mas conforme.
Complemento indireto sempre à mão.

Conjugando um pretérito imperfeito
com um condicional que está sujeito
a outros predicados do destino

consigo a conjugação definitiva
por posição às vezes relativa
por nome pessoal e feminino.

Rosa Lobato de Faria, Memória do Corpo,
Lisboa: Textual, 1992


sábado, 24 de outubro de 2015

AR DE INVERNO

Aves do mar que em ronda lenta
giram no ar, à ventania,
gritam na tarde macilenta
a sua bárbara alegria.

Incha lá fora a vaga escura,
uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
este ar de Inverno, este ar doente?

Alma que vogas a gemer
na tarde anémica, de vento,
como se infiltra no meu ser
o teu esparso sofrimento!

Que viuvez desamparada
chora no ar, no vento frio,
por esta tarde macerada
em que a esp'rança se esvaiu!...

Roberto de Mesquita, Almas Cativas





quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PARTIDA DE VASCO DA GAMA

   Postos os navios em Restelo,  lugar de ancoragem antiga, um dia antes da sua partida foi ter a vigília com os outros capitães à casa de Nossa Senhora da Vocação de Belém, situada neste lugar de Restelo. A qual naquele tempo era uma ermida que o infante dom Henrique mandou fundar, onde estavam alguns freires, do convento de Tomar para administrarem os sacramentos aos mareantes.
   Ao seguinte dia que era sábado, oito de Julho, por ser dedicado a Nossa Senhora e a casa de muita romagem, assim por esta devoção, como por se irem despedir dos que iam n'armada, concorreu grande número de gente a ela.
   E, quando foi ao embarcar de Vasco da Gama, os freires da casa com alguns sacerdotes que da cidade lá eram idos dizer missa, ordenaram uma devota procissão com que o levaram ante si nesta ordem: ela e os seus círios nas mãos e toda a gente da cidade ficava detrás respondendo a uma ladainha que os sacerdotes diante iam cantando, até os porem junto dos batéis em que se haviam de recolher. Onde, feito silêncio, e todos postos em joelhos, o vigairo da casa fez em voz alta uma confissão geral, e no fim dela os absolveu na forma das bulas que o infante dom Henrique tinha havido para aqueles que neste descobrimento e conquista falecessem (como atrás dissemos). No qual auto foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse de muitas que nela se derramam na partida das armadas, que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir, donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm.
   E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes, segundo seu uso deram aquele alegre princípio de caminho, dizendo: "Boa viagem!", todos estavam prontos na vista deles, com uma piadosa humanidade dobraram estas lágrimas, e começaram de os encomendar a Deus, e lançar juízos segundo o que cada um sentia daquela partida.
   Os navegantes, dado que com o fervor da obra e alvoroço daquela empresa embarcaram contentes, também passado o termo de desferir das velas, vendo ficar em terra seus parentes e amigos, e lembrando-lhe que sua viagem estava posta em esperança, e não em tempo certo nem lugar sabido, assim os acompanhavam em lágrimas como em pensamento das cousas que em tão novos casos se representam na memória dos homens: Assim que uns olhando para a terra e outros para o mar, juntamente todos ocupados em lágrimas e pensamentos daquela incerta viagem, tanto estiveram prontos nisso, até que os navios se alongaram do porto.

João de Barros, Ásia, Década I, livro IV, cap. II

Partida de Vasco da Gama em 1497

terça-feira, 20 de outubro de 2015


Bailemos nós biliões de canalhas
sob os morteiros destas verdes faias!

Bailemos nós biliões de aflitos
sob as granadas destes eucaliptos!

Bailemos nós biliões de formigas
sob os ramos nucleares destas ogivas!

Bailemos nós biliões de carneiros
sob as flores de fogo destes bombardeiros.

Natália Correia, Cantares dos trovadores galego-portugueses,
Editorial Estampa

1923-1993
Intelectual, poetisa e ativista social açoriana (portuguesa).
Foi também deputada da Assembleia da República.

domingo, 18 de outubro de 2015

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem
 
 
Infante D. Henrique

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

FOGO e RITMO

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo das unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto, Sagrada Esperança,
Lisboa: Ed. Sá da Costa, 1974

Médico e poeta angolano.
Foi o primeiro presidente de Angola, até 1979.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

DE QUE ME SERVE FUGIR

Mote

De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou  meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís de Camões


Luís de Camões

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

POÉTICO

Chega uma hora em que a poesia
não basta em si,
chega uma hora em que a posia
não basta em ti.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em mim.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em nada.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Não basta porque a poesia
não basta.
Como se desnecessária
chega uma hora em que a poesia
não basta em.
Não basta aquém,
não basta além.
Chega uma hora em que a poesia
não é.
Não é poesia,
se assim fosse, seria.
Chega uma hora em que a poesia
não basta, não chega.
Chega uma hora em que a poesia
se mata em si,
dentro dela,
no próprio avesso,
no cofre de sua palavra
o que não se alcança.
Chega uma hora em que a poesia
não dá.
Chega uma hora em que a poesia
não.

Álvaro Alves de Faria, Antologia de Poesia Contemporânea Brasileira,
Coimbra, Alma Azul

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

LEZÍRIA

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.

Miguel Torga, Diário I

Resultado de imagem para lezíria

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A TROMBA DO ELEFANTE WAN-BO



   Há muito, muito tempo - talvez na época em que o Céu se separou da Terra -, o Mundo estava povoado de monstros fabulosos: dragões alados que cuspiam fogo; lagartos gigantescos; serpentes vorazes com várias cabeças...
   Estas incríveis criaturas aterrorizavam os outros animais da criação. Os herbívoros e carnívoros só conseguiam salvar a vida graças às suas manhas e agilidade. Alguns, como a família de Sanu, o macaco, escapavam a esses monstros porque a imensa floresta tropical tinha esconderijos maravilhosos.
   Não era esse o caso de Wan-Bo, o elefante. O infeliz Wan-Bo tinha dificuldade em se esconder atrás do capim gigante ou dos arbustos, quando um desses monstros o avistava. É certo que as suas poderosas presas obrigavam o inimigo a recuar... Mas, nesse tempo, Wan-Bo não tinha tromba! Não, Wan-Bo não tinha nada pendurado do nariz...
   Ora vamos saber como, um belo dia, obteve essa terrível arma que hoje todos lhe invejam.
   Estava-se na estação seca. Faltava a água. A caça rareava. As criaturas monstruosas chegavam a devorar-se umas às outras. Por uma noite quente, junto da lagoa seca, houve uma luta mortal entre uma gigantesca serpente e um dragão. O fragor do combate atingiu o coração da grande floresta. Durante três dias e três noites, com inaudita violência, afrontaram-se os dois colossos. Ao fim do terceiro dia,  o dragão, cujo corpo era uma enorme boca - ou melhor, uma autêntica caverna! - armada de milhares de dentes, cortou o corpo do adversário em vários pedaços, que devorou avidamente.
   Depois disso, dirigiu-se para a sua gruta, a fim de limpar os ferimentos envenenados que recebera durante a batalha.
   Mas, ao afastar-se, tinha-se esquecido de um pedaço da monstruosa serpente, o mais pequeno. Era a extremidade da cauda, com mais de dois metros, cinzenta como um ramo morto de uma árvore e onde a parte cortada tinha a aparência de uma almofada de carne rósea. E esse pedaço de carne torcia-se no meio da erva como se procurasse à sua volta os restos do corpo a que pertencera uns momentos antes. Um espetáculo tão triste como ridículo e que fazia rir Sanu, o macaco, instalado num ramo de imbondeiro.
   Foi então que apareceu Wan-Bo. Pastava, há horas e horas, o capim gigante, cobiçando as tenras ervinhas que verdejavam junto do chão mas que não podia alcançar por ser demasiado alto.
   E, de repente, quando uma das suas patas se preparava para esmagar o pedaço da serpente que se retorcia na erva, este estendeu-se de súbito e o lado cortado foi prender-se no nariz de Wan-Bo!
   O elefante, surpreendido, recuou, pensando ter sido atacado. Depois sacudiu-se e, com o auxílio das enormes orelhas, esfregou aquela "coisa" contra as hastes de bambu para se livrar dela. Em vão! A cauda da serpente prendera-se com muita força e nada a conseguiria afastar do nariz do elefante.
   Mas, com grande espanto de Wan-Bo, começou a falar. É verdade, começou a falar!
   - Oh, Wan-Bo - gemeu -, não te quero mal algum. Acredita em mim. Não sou mais do que uma cauda, um pequeno pedaço de cauda infeliz e perdida. O dragão-cabeça venceu-me e devorou-me! Vê lá o que resta de mim! E como eu gostaria de continuar a viver...
   Wan-Bo respirou, mais descontraído. Esta criatura merecia-lhe alguma consideração.
   - Falas verdade? Combateste o dragão-cabeça? És muito corajosa! Mas agora estás a perturbar-me. Vai-te embora, por favor!
   A cauda agitou-se freneticamente no nariz de Wan-Bo.
   - Ouve-me, ouve-me, grande Wan-Bo - suplicou, torcendo-se desesperada. - Tive agora uma ideia assombrosa! Ainda não estás habituado à minha presença, mas posso ajudar-te de muitas maneiras e...
   - Nem penses nisso! Já te disse que me incomodas... Vamos lá, ou sais a bem ou esmago-te contra o tronco deste imbondeiro.
   - Não, não, por favor! Ouve: serei tua escrava!
   - Escrava? Escrava?... Mas eu não preciso de ti para nada... - disse Wan-Bo, rindo-se. - Não passas de um miserável pedaço de cauda de serpente! A cauda torcia-se e retorcia-se. O seu espírito funcionava com mais lentidão desde que não tinha cabeça, pois não estava acostumada a pensar sozinha. Mas, de repente, soube o que responder e como convencer o grande elefante.
   - Repara! - exclamou. - Repara, Wan-Bo, como posso ajudar-te...
   E estendeu-se, estendeu-se até ao solo. Aí, tateou um pouco às cegas até encontrar o que procurava: um tufo de ervas bem frescas...
   A cauda enroscou-se e foi levar à boca do elefante a erva rasteira com que ele sempre sonhara. Ah, como era maravilhosa!
   - É tenrinha? É fresca? Queres mais? - perguntava a cauda, enquanto o elefante ia saboreando o apetitoso alimento.
   - Hum, hum... Mais um pouco, por favor!
   A cauda voltou a desenrolar-se uma, duas, três vezes... até que Wan-Bo, satisfeito e saciado, começou a sentir esse torpor infinitamente agradável que precede as longas digestões.
   Mas, de repente, sentiu o estômago novamente vazio. Os pequenos olhos de Wan-Bo tinham acabado de poisar numa mangueira... Oh, essas mangueiras cujos frutos doirados e sumarentos se escondiam no meio da folhagem! Há quanto tempo sonhava com eles!
   - E... e... talvez me possas ajudar a colher aqueles belos frutos doirados... - perguntou, um tanto perturbado por ter de confessar a sua insaciável gulodice.
   - Basta que mos indiques, ó meu senhor!
   Wan-Bo trotou até junto da árvore, e a cauda da serpente gigante ergueu-se no ar.
   - Sou cega, meu senhor. Orienta-me!
   - É aquele... Sim, mais à direita! Que bom! E o outro ao lado! - murmurava Wan-Bo, que nunca tinha comido nada tão saboroso em toda a sua vida.
   - E, assim, dirigida em volta do fruto apetecido, a cauda da serpente arrancava-o cuidadosamente para não o esmigalhar, e levava-o à boca de Wan-Bo. Este pensava que nunca mais teria medo de envelhecer. A sua cauda - mas seria na verdade "uma cauda"? - cuidaria dele, alimentá-lo-ia...
   Ao cair do dia, Wan-Bo e a cauda da serpente já se haviam tornado os melhores amigos do mundo. E a sua aliança ainda perdura...
   No entanto, houve um dia em que Wan-Bo esteve quase, quase, a perder... a tromba. Foi no dia em que Aroon, o leão, com uma valentíssima sapatada, cortou a extremidade da cauda! Não foi muito grave. Nem demasiado grande nem demasiado pequena, a tromba tornou-se um instrumento tão útil que todos os animais do mato passaram a invejar Wan-Bo.
   Mas um conselho vos dou: se encontrarem o elefante, não façam alusões à sua tromba. Não se divirtam a dizer-lhe que essa espécie de nariz não passa de uma simples cauda de serpente! Em primeiro lugar, porque Wan-Bo pode não gostar da brincadeira... e, depois, porque talvez a tromba ainda conserve parte do lendário rancor das serpentes...
   Nunca se sabe!



Contos Africanos, Ed. Verbo


Imagem relacionada
Imagem de imbondeiro






domingo, 4 de outubro de 2015


A FLOR



   Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe um papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
   Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tantas força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
   Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
   Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas.: Uma flor!
   As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
   Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!




Almada Negreiros, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa




José de Almada Negreiros (1893-1970)
Nasceu em S. Tomé, na roça Saudade, mas veio para Portugal em criança. Fez os seus estudos em Lisboa e Coimbra. Em Paris, aprofundou os seus conhecimentos de pintura. Viveu em Espanha, de 1927 a 1932. Artista talentoso, foi pintor, muralista, poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, deixando-nos uma obra de elevado valor.
Alguns títulos da sua produção literária: A Engomadeira (1917), Manifesto Anti-Dantas e por Extenso (1921), A Invenção do Dia Claro (1921) (romance) e Nome de Guerra (1938).



Pintura de Almada Negreiros


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa, Cancioneiro


quinta-feira, 1 de outubro de 2015


AUTO-RETRATO

   Magro, de olhos azuis, carão moreno,
   Bem servido de pés, meão na altura,
   Triste de facha, o mesmo de figura,
   Nariz alto no meio, e não pequeno;

   Incapaz de assistir num só terreno,
   Mais propenso ao furor do que à ternura
   Bebendo em níveas mãos por taça escura;
   De zelos infernais letal veneno;

   Devoto incensador de mil deidades
   (Digo, de moças mil) num só momento,
   E somente no altar amando os frades,

   Eis Bocage, em quem luz algum talento;
   Saíram dele mesmo estas verdades,
   Num dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage, Sonetos



Manuel Maria Barbosa du BOCAGE (1765-1805)
Nasceu em Setúbal no seio de uma família culta, desde muito cedo revelou interesse pela poesia, tinha o dom da improvisação.
Teve uma vida agitada, boémia, literariamente produtiva e variada.







terça-feira, 29 de setembro de 2015

CARTAS DE AMOR


   Todas as cartas de amor são
   Ridículas.
   Não seriam cartas de amor se não fossem
   Ridículas.

   Também escrevi em meu tempo catas de amor,
   Como as outras,
   Ridículas.

   As cartas de amor, se há amor,
   Têm de ser
   Ridículas.

   Mas, afinal,
   Só as criaturas que nunca escreveram
   Cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   Quem me dera no tempo em que escrevis
   Sem dar por isso
   Cartas de amor
   Ridículas.

   A verdade é que hoje
   As minhas memórias
   Dessas cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   (Todas as palavras esdrúxulas,
   Como os sentimentos esdrúxulos,
   São naturalmente
   Ridículas.)

Álvaro de Campos, Poesias,
 RBA Editores
  

Álvaro de Campos é um heterónimo de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (13/6/1888 - 30/11/1935)




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O teatro de Gil Vicente

   Entre 1502 e 1536, Gil Vicente escreveu, interpretou e pôs em cena (pois, como Ruzzante, Shakespeare ou Molière, coincidiam nele o autor, o ator e o encenador) cerca de cinquenta autos, de que a maior parte foi reunida por seus filhos Luís e Paula Vicente numa Compilação editada em 1562 e reeditada vinte e quatro anos depois, com graves mutilações impostas pela censura inquisitorial. Dividiram aqueles a obra paterna em quatro secções - obras de devoção, comédias, tragicomédias e farsas -, mas esta distinção peca por evidente arbítrio, na medida em que aglutina obras dissemelhantes e separa obras afins. Mais curial, sem dúvida, é a classificação tripartida (comédias, farsas e moralidades) alvitrada pelo próprio Gil Vicente na carta que, na respetiva 2ª edição, antecede o Dom Duardos, e que engloba nos dois primeiros grupos os autos de tema e inspiração seculares e no último os autos religiosos.

Luiz Francisco Rebello, Breve História do Teatro Português,
 Publicações Europa-América

domingo, 27 de setembro de 2015

JUSTAS CAUSAS

abril,22
   Na quarta-feira, à entrada da aula, veio ter comigo o contínuo de serviço e queixou-se-me do Fosco. O Fosco fizera barulho, pulara, cantara, dançara ou lá o que foi antes de chegar... Assumi um ar de seriedade digno de um grande ator, e disse ao homenzinho - «Já trato do assunto», e ao Fosco, para que o homem ouvisse «Vamos ajustar contas». Depois fechei a porta; esperei, escutando, que se afastasse o empregado; e quando os seus passos se não ouviam já, anunciei que no próximo dia seria julgado o Fosco. Ele que escolhesse o seu advogado de defesa, um deles que propusesse advogado da acusação.
   Fixe bem todo o professor que tem de cumprir o que promete ao aluno. Caso contrário, «há concluído», como, em tradução,  diria o Radice. É que eles não esquecem - ou só esquecem o que os não interessa. E nós temos de ser exemplo de tudo - a começar, temos de dar o exemplo de bem cumprir. Mal entrei, vi logo na secretária o Poeta e o Gabriel; o Fosco estava entretido a despejar o cesto dos papéis, para uma improvisação feliz de banco de réu. E o debate começou, seguido com interesse e relativa seriedade da parte do público. O ataque não foi brilhante. Mas o Poeta - com que brilho, com que imaginação, com que correção de vocabulário e riqueza de argumentos não defendeu o seu constituinte!
   Eu ia sempre «puxando» por cada um (o réu também falou, porque tinha «alguma coisa a alegar em sua defesa») e assim aquela aula, levada a brincar, teve o mérito de pôr os moços a falar sem o constrangimento com que recontam um trecho acabado de ler.
   Prestou-se a coisa, também, a aquisição de vocabulário: juiz, juízo, julgar e outras palavras relacionadas com a audiência foram tratadas antes dela.
   E surgiu então uma ideia, aplaudida por todos, e que vem ao encontro da Semana do Animal: passaremos a fazer, de vez em quando, julgamentos de animais de fábulas: O Lobo, de «O Lobo e o Cordeiro», a Cigarra, a Formiga, a Raposa, de «Le Corbeau et le Renard», virão ao tribunal.
Sebastião da Gama, Diário, Edições Ática
Sebastião da Gama (10/4/1924-1952)
Poeta e professor português.
Obras: Serra Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951). Póstumas: Pelo Sonho é Que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967), O Segredo é Amar (1969) e  Cartas (1994).
Resultado de imagem para sebastião da gama serra da arrábida
Serra d'Arrábida, sempre presenta na obra de Sebastião da Gama