sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

IMBECILIDADE NACIONAL

   Afonso, no entanto, perguntava também ao Ega pela comédia. O quê! Já abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados incompletos de obras-primas. Ega queixou-se do país, da sua indiferença pela arte. Que espírito original não esmoreceria, vendo em torno de si esta espessa massa de burgueses, amodorrada e crassa, desdenhando a inteligência, incapaz de se interessar por uma ideia nobre, por uma frase bem feita?
   - Não vale a pena, sr. Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
   - Pois então - acudiu o velho - planta os teus legumes. É um serviço à alimentação pública. Mas tu nem isso fazes.
   Carlos, muito sério, apoiava o Ega.
   - A única coisa a fazer em Portugal - dizia ele - é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo. E se se vir então que não encerra nada, demitamo-nos logo voluntariamente da nossa posição de país para que não temos elementos, passemos a ser uma fértil e estúpida província espanhola, e plantemos mais legumes!
   O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia. Terminou por dizer:
   - Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!
   - O Carlos já não faz pouco - exclamou Ega, rindo. - Passeia a sua pessoa, a sua toilette e o seu faetonte, e por esse facto educa o gosto!

Eça de Queirós, Os Maias, capítulo XII

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

GREEN GOD

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.

Eugénio de Andrade


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O AMOR É

Ferida que não dói,
a palavra que não precisa de ser dita,
um olhar suspenso dos teus olhos,
respirar o ar em que respiras,
dizer o teu nome
e ouvir nele a tua voz,
esperar-te em cada instante
em que sei que me esperas,
dar-te a alegria que me dás,
ver-te chegar num eco de ave,
e deixar que me prendas
com o teu gesto mais suave,
sentir-te, só, ao pé de mim,
e sentir-me tão só longe de ti,
saber que existes em mim
como sei que existo em ti,
a flor de fogo do teu corpo,
e beijar essa flor.


Nuno Júdice, 2005, Geometria Variável,
Lisboa, Dom Quixote

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA
de Eça de Queirós
1ª parte


   Começou por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário...   Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retidão - por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo - saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em setembro; já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates.
   Vinha de travessar a serra e os seus aspetos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e chata, sobre o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da eletricidade que enchia as alturas, o facto é que eu - que sou naturalmente positivo e realista - tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de nós, é certo -  tão friamente educados que sejamos - um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar - para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais matemático, ou o mais crítico, tão triste, tão visionário, tão idealista - como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho, fora o aspeto do Mosteiro do Rostelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo - eu pus-me, elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a "Imitação", e ouvindo os rouxinóis nos loureirais ter saudades do Céu. - Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta de espírito - a sensação - que me fez a história daquele homem dos canhões de veludilho.
   A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio - e a criada, uma gorda cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava defronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos - se ele era de Vila Real.
   - Vivo lá. Há muitos anos - disse-me ele.
   - Terra de mulheres bonitas, segundo me consta - disse eu.
   O homem calou-se.
   - Hem? - tornei.
   O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.
   Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. havia decerto no destino daquele velho uma "mulher". Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na ideia de que o "facto", o "caso" daquele homem, devera ser grotesco, e exalar escárnio.
   De sorte que lhe disse:
   - A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se veem os cabelos claros cor de trigo.
   O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.
   - Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante - e para tudo isto Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.
   - O Peixoto, sim - disse-me ele, olhando gravemente para mim.
   - Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia - questão de arranjar a fina-flor da perfeição. - À sua saúde.
   Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro. E saiu.
   Quando eu pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candeeiro de latão lustroso e antigo e disse:
   - O senhor está com outro. É o nº 3.
   Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente.
   - Vá - disse eu.
   O nº 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os passageiros tinham posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador, botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua borla de retrós; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das portas, o nº 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mor caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. defronte do nº 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça um lenço de seda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.
   - O senhor não repare - disse ele.
   - À vontade. - E para estabelecer intimidade tirei o casaco.
   Não direi os motivos por que ele daí a pouco, já deitado, me disse a sua história. Há um provérbio eslavo na Galícia que diz: "O que não contas a tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem." Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível - mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa...
   Começou pois por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário.
   Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera, que tinha o apelido "Macário". E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu caráter uma ideia simpática, porque os Macários eram uma antiga família, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa sua velha tradição de honra e de escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazém de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu "guarda-livros".
   Disse-me ele que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos eram mais ingénuos, os sentimentos menos complicados.
   Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água das regas - chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários:  e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz - como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.
   Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha - como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia - "sentido Vénus".
   Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspeto desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar por cima do armazém, ao pé de uma varanda,  e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela do peitoril, a sacudir um vestido. Macário afirmou-se, e, sem mais intenção, dizia mentalmente que aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobrolho espesso, o lábio forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento ativo e imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sobre o pátio: era em julho e a atmosfera estava elétrica e amorosa: a rabeca de um vizinho gemia uma xácara mourisca, que então sensibilizava, e era um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério - e Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços que tinham a cor dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou morbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes - começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguém se chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado, pesado - e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilvas! E quando fechou a carteira sentiu defronte correr-se a vidraça: eram decerto os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez - fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da transparência das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha   antiga, e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado - pomba, arminho, neve e ouro.
   Macário disse consigo:
   - É filha.
   A outra vestia de luto, mas esta, a loura, tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, moço, fresco, flexível e tenro.

Continua...






 

domingo, 10 de janeiro de 2016


QUEM CASA...


  
"Então que é?"
   - É que a minha filha não pode assim viver contente.
   "Agora não! ela não se queixa: a senhora é que toma as dores por ela."
   - Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma santa. O pior será quando ela se queixar... Isto assim vai mal, Sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de ofender a sua dignidade.
   "Não duvido; mas estou melhor assim, e ela também não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam à pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda ali com a cara ao pé da dela. Nada de bailes, Srª D. Angélica. Minha mulher, se quer passear, tem aí uma carruagem, e eu estou pronto a acompanhá-la para toda a parte."
   - Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações de nossa casa. Ludovina tem amigas, que estranham muito a vida encarcerada que ela passa. Porque não há de sua mulher visitar, e receber as visitas das suas amigas?
   "E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem coisa boa. O melhor é cada um em sua casa."
   - Que razão essa tão... tão singular!
   "Afinal de contas, Srª D. Angélica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em aparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por aí. Não quero que minha mulher ande nas bocas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde apareceu o tal namorado que ela teve, não tínhamos todos a zanga com que saímos de lá. Em casa, em casa é que se está melhor."
   - Eu não me responsabilizo pelas consequências, Sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ela desconfiar que V. Sª a encerra em casa, pode suspeitar da lealdade dela, teremos grandes desordens, e não terei poder para acomodá-las.
   "Eu não desconfio de minha mulher; se eu não vou aos bailes, é porque não quero que outros desconfiem, e acabou-se."


Camilo Castelo Branco, O Que Fazem Mulheres



Cartoon de QUINO



sábado, 9 de janeiro de 2016


DIFÍCIL DECISÃO



Apesar disso, ele olhava-a com meiguice, de um modo singular.
- É por te ires embora? - continuou ele -, por deixares os teus amigos, a tua vida? Ah!, compreendo... Mas eu não tenho nada neste mundo! Tu és tudo para mim. Serei também tudo para ti, serei a tua família, a tua pátria, tratarei de ti, amar-te-ei.
- És encantadora! - disse ele, tomando-a nos braços.
- Verdade? - respondeu ela com um risinho de volúpia. - Amas-me? Então jura!
- Se te amo? Se te amo! Mas adoro-te, meu amor!
A Lua, bem redonda e cor de púrpura, erguia-se a rasar o horizonte, ao fundo da pradaria. Subia rápida entre os ramos dos ulmeiros, que de vez em quando a escondiam, como uma cortina preta com buracos. Depois ela apareceu, resplendente de brancura, no céu limpo que iluminava; e então, afrouxando a sua marcha, deixou cair sobre o rio uma grande mancha, que produziu uma infinidade de estrelas; aquele clarão de prata parecia retorcer-se ali até ao fundo, à maneira duma serpente sem cabeça, coberta de escamas luminosas. Assemelhava-se também a um monstruoso candelabro, ao longo do qual corriam gotas de diamante em fusão. A noite meiga, estendia-se em redor deles; toalhas de sombra cobriam a folhagem. Emma, de olhos semicerrados, aspirava com grandes suspiros o vento fresco que soprava. Não falavam um ao outro, perdidos como estavam na invasão dos seus devaneios. A ternura dos dias passados voltava a inundar-lhes o coração, abundante e silenciosa como o rio que corria, com tanta indolência quanta se exalava do perfume das silindras, projetando-lhes na memória sombras mais vastas e mais melancólicas do que aquelas que os salgueiros imóveis estendiam no chão. De vez em quando, um animal noturno, ouriço ou doninha, saindo à caça, fazia deslocar as folhas, ou então ouvia-se por instantes um pêssego maduro cair sozinho da latada.
- Oh!, que noite maravilhosa! - disse Rodolphe.
- Vamos ter outras noites maravilhosas! - respondeu Emma.
E, como se falasse consigo mesma:
- Sim, vai ser bom viajar... Porque terei então, apesar de tudo, o coração triste? Será a apreensão do desconhecido..., o efeito dos hábitos que se abandonam..., ou será...? Não, é o excesso de felicidade! Sou muito fraca, não sou? Perdoa-me!
- Ainda é tempo! - exclamou ele. - Pensa bem, que talvez te venhas a arrepender.
- Nunca! - respondeu ela impetuosamente.
E, aproximando-se mais dele:
- Que infelicidade me poderá então acontecer? Não há deserto, nem precipício, nem oceano que eu não seja capaz de atravessar contigo. À medida que formos vivendo juntos, será como um abraço cada vez mais apertado, mais completo! Não teremos nada que nos perturbe, nenhuma preocupação, nenhum obstáculo! Estaremos sós, entregues a nós mesmos, eternamente... Fala, responde-me.
Ele ia respondendo a intervalos regulares: " Sim... sim!..."
(...)
- Então, até amanhã! - disse Emma, com uma última carícia.
E ficou a vê-lo afastar-se.
Rodolphe não se voltou. Emma correu atrás dele e, debruçando-se à beira da água, entre os silvados:
- Até amanhã! - exclamou.
Ele estava já do outro lado do rio e caminhava rapidamente pela pradaria.
Passados alguns minutos, Rodolphe parou; e, quando a viu com o seu vestido branco desvanecer-se pouco a pouco na sombra como um fantasma, começou-lhe o coração a bater com tal intensidade, que teve de se encostar a uma árvore para não cair.
- Que imbecil que eu sou! - disse ele, praguejando espantosamente. - Não tem importância, era uma linda amante!
E, no mesmo instante, veio-lhe novamente ao espírito a beleza de Emma, com todos os prazeres daquele amor. Primeiro enterneceu-se, depois revoltou-se contra ela.
- Com franqueza - exclamou ele gesticulando -, não me posso expatriar, ficar com a responsabilidade duma criança.
Dizia coisas para reforçar a decisão tomada.
- E, além disso, as atrapalhações, a despesa... Ah! não, não, mil vezes não! Seria estúpido de mais.






Flaubert, Madame Bovary




Gustave Flaubert, nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu em Croisset, em 1880. A sua obra, que assinalou o fim do romantismo francês, está marcada por uma enorme busca da perfeição.
Obras do autor: Madame BovarySalammbô, L'Éducation Sentimentale, La Tentation de Saint Antoine, Trois Contes, Bouvard et Pécuchet (incompleto)




Pintura de Edouard Manet


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill, in Poesias Completas,
 Assírio & Alvim





terça-feira, 5 de janeiro de 2016

CAMÕES NA ÍNDIA

Penso nele sem acrimónia.
O mundo que o português criou
foi tão mau ou tão bom como o mundo
que o resto da Humanidade foi criando.

Sonharmo-nos Império?
Mas todos os grandes o fizeram: o Camões, o Vieira, o Pessoa,
até o Cesário, de um certo modo,
nas nossas ruas ao amanhecer...

Só o Pessanha viu ao certo o que finalmente fica de nós:
pedras, conchinhas, pedacinhos de osso...

Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia,
Lisboa: D. Quixote, 2011

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como m'estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pelo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana d'Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama;
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do azul e as andorinhas,
Eu hei de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos  as rainhas!

Cesário Verde

Pintura de Édouard Manet