segunda-feira, 17 de novembro de 2025



 Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Escritora portuguesa


sexta-feira, 7 de novembro de 2025


 INTRÓITO


Das tuas mãos de vidro, carregadas

De joias tilintantes e doentes,

Das palavras que trazes afogadas,

Das coisas que não dizes mas entendes.


Do teu olhar virado às madrugadas

De fantásticos e exóticos orientes, 

Do teu andar de tule, das estocadas

Dos gestos que não fazes mas que sentes.


Dos teus dedos sinistros, de tão brancos,

Dos teus cabelos lisos, de tão brandos,

Dos teus lábios azuis, de tanta cor,


É que vem a fúria de bater-te,

É que me vem a raiva de morder-te,

Meu amor! Meu amor! Meu amor!


José Carlos Ary dos Santos

Poeta português

segunda-feira, 7 de julho de 2025

VISITAÇÃO


Um anjo aqui desceu (terá descido?),

dizendo que o silêncio humano outrora

fazia agora parte do divino,

e o que o templo maior, rasgado o pano,

tinha passado a ser culto de nós. 


Do éter rarefeito veio a voz,

queixando-se das sombras na cidade:

que o mundo era só verde, e que o azul

só o azul do céu, com letra humana

gravada numa mesa de madeira.


Um anjo aqui desceu (há provas mais)

e aqui ficou, exausto das canseiras

de ser mediador entre dois mundos,

de ter em dois segundos que voar

e mergulhar depois em três segundos.


E aqui ficado, o anjo adormeceu,

sonhando com estações e com instantes,

aos poucos esquecendo tempos dantes

e a água densa do eterno mar.


E quando se rasgou o tempo outro

e ele acordou, refeito e bocejante, 

viu que era bom ter nome, e sede, e fome,

cinco dedos nas mãos - algum olhar.


Ana Luísa Amaral





sábado, 5 de abril de 2025

NEOLOGISMO


Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teadora.


Manuel Bandeira, 1948