segunda-feira, 29 de junho de 2015

PAIXÃO

Sempre
me dei aos teus braços
como um pássaro aprisionado.
O meu olhar
cintilava ao fremir das asas
do teu voo
e juntos voávamos mais.
Rasguem-me as penas
sadicamente uma por uma
e mesmo assim verão
que belo pássaro aprisionado
incansável esvoaça contigo
doido no amarelo da esperança
à nudez de cada manhã.

José Craveirinha, Poemas da Prisão,
 Texto Editora

Otto Mueller, Amantes

domingo, 28 de junho de 2015

CURIOSIDADES ESTÉTICAS

O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto, Canções e Outros Poemas,
 Quasi
Pintura de M. Scheier

sábado, 27 de junho de 2015

OS LIVROS

   Os livros são um amor pesado. Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com eles, de lugar para lugar. Os livros tornam-se conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, eles perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de capas rijas desafiando o nosso desejo de mobilidade. Revoltamo-nos: decidimos deixá-los para trás, oferecê-los, esquecê-los - mas eles não deixam.
   Porque quando passamos as mãos nas estantes, medindo forças com eles, há de tombar-nos aos pés um livro que no chão, aberto, tem alguma coisa para nos dizer, alguma coisa que esquecêramos ou que agora subitamente descobrimos. Alguma coisa tão nossa que não reparámos nela. Um verso sublinhado, uma imagem, uma página que nos acelera o bater do coração e o galope do cérebro. Quantas vezes utilizámos os livros como refúgios do cérebro contra as investidas do coração? Quantas vezes os usámos como trincheiras sentimentais contra as razões da vida? Quantas vezes vivemos dentro deles, por procuração? Quantos anos passámos escondidos nas esquinas daquelas páginas, à espera que delas saltasse a surpresa redentora que, de tanto esperarmos, se esfumou? Os livros são os guardiões das nossas culpas: da muda acusação inscrita nas lombadas velhas e virgens dos que nunca lemos ao grito silencioso dos que se desmoronaram nas nossas mãos, riscados, batidos, cheios de areia, manchas de café, marcas de lágrimas (...).

Inês Pedrosa, "Os Livros" in Única (Expresso) nº 1841 (adaptado)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

NIRVANA

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústia e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero de Quental, Sonetos

1842-1891


 



terça-feira, 23 de junho de 2015

A VIDA

A vida
órfã de sempre
dá-me em cada verso
uma veia esticada em mim
a retinir poesia.

Deus deu-me
esta arte mínima
de confessar as coisas
dizendo tudo a fingir.

E desta dádiva me sirvo
polígamo de nostalgia.

José Craveirinha, Poemas da Prisão,
 Texto Editora

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O RELÓGIO

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac, tic-tac, tic-tac...

Vinicius de Moraes, A Arca de Noé,
 São Paulo: Companhia das Letrinhas

Salvador Dalí, A Hora Triangular, 1933

domingo, 21 de junho de 2015

AS BILHAS DE GÁS E EU

   Mantenho com as bilhas de gás uma relação de amor adolescente. (...) Ao espreitar a janelinha do esquentador, vejo uma exaltante chama azul, direita, resoluta, alegre, decidida a durar eternidades. A água do duche é quente e permaneço séculos imerso naquele vapor que me aquece tanto que deito fumo por todo o corpo. De olhos fechados passeio o jato pela cabeça, o pescoço, os ombros, o peito, os braços e as pernas, disposto a ficar assim a vida inteira a ensaboar-me e a desensaboar-me, assobiando a passar as mãos lentas por uma pele feliz. Saio do chuveiro a contragosto.
   (a vida torna-se horrível longe da banheira, cheia de correntes de ar, desconforto e pessoas supérfluas)
   e regresso a ela na manhã seguinte numa voluptuosa expectativa. Este estado de graça dura quatro a cinco dias de prazer perfeito. Ao sexto dia mais ou menos a chama principia a enfraquecer, a perder firmeza e ímpeto, o azul raia-se de um amarelo outonal, é preciso acionar o isqueiro duas ou três vezes antes de a janelinha se iluminar, tenho de rodar a torneira de água fria para conseguir o que ao princípio era instantâneo e fácil, encontrar um compromisso progressivamente mais penoso no misturador porque é a altura em que a botija começa a ter caprichos incompreensíveis, hesitações, estranhas mudanças de humor em que ora me queima ora me gela (...)

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas,
 Dom Quixote


sábado, 20 de junho de 2015

DENTRO DA CABEÇA

   O homem tinha uma coisa dentro da cabeça e não sabia o que era. Andava na rua sem ver nada;  chegava a casa e não conseguia sair do que tinha dentro da cabeça. Às vezes pensava que podia ser alguma coisa grave; mas depois voltava a pensar e via que não lhe doía a cabeça, que andava normalmente, que não tinha febre, que a vida continuava a correr como sempre tinha corrido, com a diferença de que ele não sabia o que é que tinha dentro da cabeça.
   Um dia pôs-se a pensar na infância. Lembrava-se do fim do Verão e dos dias que começavam a encurtar. Começavam a aparecer nuvens que roubavam ao céu a sua pureza e os pássaros juntavam-se, logo de manhã, em enormes círculos que iam mudando de forma à medida que se afastavam, até finalmente desaparecerem sobre o mar, para sul, tirando aos campos a sua música. Mas não se lembrava de mais do que isto. Era como se a memória tivesse ido com esses bandos de pássaros e nenhuma Primavera a tivesse trazido de volta.
   O homem tinha sabido muitas histórias. Sentava-se numa mesa de café, esperava que o empregado lhe trouxesse o café, com o copo de aguardente, e começava a beber, enquanto a mesa se ia enchendo à sua volta. Contava as suas histórias, uma após outra, e via os homens que o rodeavam comentarem o que ele dizia, como se fosse um profeta. Mas não queria que acreditassem nele; não precisava de ter discípulos, nem seguidores, limitava-se a contar-lhes as histórias que lhe tinham contado e precisava que os outros tomassem nota delas para, um dia, se alguém precisasse de as ouvir, as poderem repetir.

Nuno Júdice, "O Caminho dos Pássaros", in O Prazer da Leitura,
 Teorema

 
  

quarta-feira, 17 de junho de 2015

TARDE

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
das ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
refletir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira, in Trabalho Poético,
 Livraria Sá da Costa Editora


terça-feira, 16 de junho de 2015

mais e menos

no amor, regras que contem,
há uma só que não é vã:
amar hoje mais do que ontem
mas bem menos que amanhã

e eu num fado que isto guarde
também acrescentaria
amo-te mais cada tarde
do que amei nascendo o dia

e cada vez muito mais
do que antes, mas tais requintes
são muito menos, ver vais,
do que nos dias seguintes

com resultados tão plenos
como somar dois e dois:
muito mais e muito menos
conforme "antes" e "depois"

no amor, regras que contem,
há uma só que não é vã:
amar hoje mais do que ontem
mas bem menos que amanhã

Vasco Graça Moura, 2006, Poesia 2001/2005,
 Círculo de Leitores

 

domingo, 14 de junho de 2015

TEORIA DAS CORES

   Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
   O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
   Ao meditar sobre as razões da mudança exatamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efetuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
   Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Herberto Helder, Os Passos em Volta,
 Lisboa,
 Assírio & Alvim, 1994

sábado, 13 de junho de 2015

MULHER MAIO

Bom dia minha amiga digo em Maio
és uma rosa à beira dum trator
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a Companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro
dentro de ti eu fui trabalhador.

Ary dos Santos, Vinte Anos de Poesia (1983)

 


sexta-feira, 12 de junho de 2015

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, Infinito Pessoal (1962)


quinta-feira, 11 de junho de 2015

A CIDADE DA SORNA*

   Era uma vez um velho turco, que tinha um único filho e a quem queria mais  do que à luz dos seus olhos. Todos sabem que para os Turcos o maior castigo que Deus deitou ao mundo é o trabalho; por isso quando o filho fez catorze anos, pensou pô-lo na escola, para aprender o melhor sistema de fazer sorna.
   No mesmo bairro do velho turco, morava um professor, de todos conhecido e por todos respeitado porque em toda a sua vida nunca fizera senão o que não podia deixar de fazer. O velho turco foi-lhe fazer uma visita, e encontrou-o no jardim, deitado à sombra de uma figueira, com uma almofada debaixo da cabeça, uma nos quadris, e uma debaixo do traseiro. O velho turco disse com os seus botões: "Antes de falar com ele vou ver como se comporta", e escondeu-se atrás de uma sebe a espreitá-lo. O professor estava quieto como um morto, de olhos fechados, e só quando ouvia:  "Tchach!", um figo maduro a cair-lhe mesmo à mão, estendia o braço devagar, e levava-o à boca e engolia-o. Depois, de novo quieto como um cepo, esperava que caísse outro.
   "Este é mesmo o professor que convém para o meu filho", disse para consigo o turco, e saindo do esconderijo, cumprimentou-o e perguntou-lhe se estava disposto a ensinar ao seu filho a ciência da sorna.
   - Homem - disse-lhe o professor com um fiozinho de voz -, não fales tanto, que eu canso-me só de te ouvir. Se queres educar o teu filho e fazer dele um verdadeiro turco, manda-o cá, e basta.
   O velho turco voltou para casa, pegou no filho pela mão, meteu-lhe debaixo do braço uma almofada de penas e levou-o para aquele jardim.
   - Não te esqueças - disse-lhe -, tens de fazer tudo o que vires fazer ao professor do dolce-far-niente.
   O rapaz, que para aquela ciência já tinha inclinação, deitou-se também debaixo da figueira, e viu que o professor de cada vez que caía um figo estendia um braço para o apanhar e comer. "Para quê aquela canseira de estender o braço?", disse para consigo, e pôs-se deitado de boca aberta. Caiu outro figo, um pouco para lá; ele não se mexeu, mas disse, muito devagarinho:
   - Porquê tão longe? Figo, cai-me na boca!
   O professor, vendo como era sabido o aluno, disse:
   - Volta para casa, que não tens nada a aprender, aliás, eu é que tenho alguma coisa a aprender contigo.
   O filho voltou para junto do pai, que agradeceu ao céu ter-lhe dado um filho de tanto engenho.

Italo Calvino, Fábulas e Contos, Volume I,
 Editorial Teorema

sorna - preguiça, inércia, indolência

Italo Calvino (1923-1985)
Jornalista e romancista, nasceu em Cuba, mas viveu desde criança em Itália. É o responsável por uma compilação muito completa de contos deste país.


Capadócia, Turquia 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Camões

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim
anda o mundo concertado.

Luís de Camões

 


O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem

Representação do Infante D. Henrique no Portugal dos Pequeninos
Dia 10 de junho

Hoje é feriado em Portugal, comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

terça-feira, 9 de junho de 2015

ROUBO-TE UM BEIJO

Eu hei de ir à tua casa
Para me dizeres como é
E beber do teu amor
Numa chávena de café

Vou rodar a tua saia
Ao dançarmos na varanda
Vou mostrar à vizinhança
Que não morre a minha esperança

Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu

Eu hei de ir à tua casa
E dizer tudo o que sinto
Vou dizer toda verdade
Desta vez juro não minto
Segredar no teu ouvido
O que tenho pra te dar
Envolver-te num abraço
Ver o dia madrugar

Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu

Todo o beijo que é roubado
Tem 1000 anos de perdão
Mas só se for guardado junto ao coração

Roubo-te um beijo
Depois de roubado é meu
Faço uma cena como vi lá no cinema
Nesse dia se tiver um beijo teu

André Sardet, in Pára, escuta e olha (2011)




segunda-feira, 8 de junho de 2015

A GARRAFA

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
- se foi a criança
ou o ladrão
ou o filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si e para os outros?

Que se destrua contra os recifes
ou role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos
que importa?

... se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino
da sua prisão?...

Manuel Ferreira, no reino de Caliban I,
Plátano Editora
Poeta nascido em Cabo Verde

domingo, 7 de junho de 2015

AS MÃOS

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são da terra.
Com mãos se faz a guerra - e são da paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, Obra Poética,
 Dom Quixote


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sábado, 6 de junho de 2015



Estamos sempre frente e escolhas,
e toda a escolha cobra um preço. 
As más escolhas normalmente cobram os preços mais altos
 e muitas vezes as "não escolhas" também.
Bom ter sempre presente que: 
"Você é livre para fazer suas escolhas,
mas é prisioneiro das consequências."

Pablo Neruda
PORTUGAL

O teu destino é nunca haver chegada
O teu destino é outra índia e outro mar
E a nova nau lusíada apontada
A um país que só há no verbo achar

Manuel Alegre, Chegar Aqui,
Ed. João Sá da Costa

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O PLANO

   Um plano - De facto, continuava a não dispor de um simples esboço quanto mais dum plano, mas agora começava a achar que era pernicioso não ter. O recente assalto das ideias mórbidas relacionadas com os ruídos intoleráveis resultava por certo da falta de previsão dos momentos próximos. Possivelmente estava a deixar-se conduzir pelas circunstâncias com a inocência dos jovens ou a lentidão das velhas donas, quando ele nem dispunha do tempo dos primeiros nem da desistência das segundas. E desse modo, porque esperava? Àquela hora - o Engenheiro observava o mostrador do relógio com precisão de ourives - se ele tivesse um plano já os dois poderiam estar pelo menos a olhar-se sem paredes e panos de permeio. Mas de facto não possuía um esboço sequer. Aliás, mesmo que desejasse naquele instante sair para o corredor e bater à porta, tampouco dispunha do pretexto que balbuciaria. A menos que fosse prevenir das imperfeições d'A Casa do Leborão. Isto é, poderia muito bem, como pessoa responsável que era, tomar um casaco, colocar uma gravata, bater à porta de Ana Palma, e calmamente dizer-lhe - "Estive a refletir, minha querida, e previno-a que podemos ter de abandonar esta albergaria que afinal não é de caçadores."
   Aliás, preveni-la não era um dever? Quem saberia se do outro lado ela mesma não se teria apercebido de qualquer vizinhança menos recomendável e não se encontrasse inibida? Quem poderia garantir que não estivesse a ser assaltada por dúvidas sobre a casa sem coragem para lhas transmitir? Quem saberia se não se encontrava agastada e a sofrer? E num ápice, o Engenheiro Geraldes abandonou a ideia de que deveria esperar disciplinadamente o primeiro sinal que ela lhe desse, para se arrepender de não o ter já feito. Sentia-se merecer reprimenda de si mesmo e tomava-se por culpado - O sobressalto que o atingia, contudo, não tinha qualquer fundamento, pois quando finalmente saiu para o corredor silencioso e bateu à porta exterior do quarto, Anita Starlet apareceu diante do mundo que assaltava o Engenheiro, como se acabada de chegar do Toque-de-Classe.

Lídia Jorge, A Última Dona,
Círculo de Leitores

Escritora Portuguesa


quinta-feira, 4 de junho de 2015

O VENDEDOR DE COMPRIMIDOS


   - Olá, bom dia! - disse o principezinho.
   - Olá, bom dia! - disse o vendedor.
   Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.
   - Porque é que andas a vender isso? - perguntou o principezinho.
   - Porque é uma grande economia de tempo - respondeu o vendedor. - Os cálculos foram feitos por peritos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
   - E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
   - Faz-se o que se quiser...
   "Eu", pensou o principezinho, "eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar muito de mansinho à procura de uma fonte..."


Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho,
 Caravela

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O MILAGRE DA VIDA




   Eis-te nos teus domínios, Tomás. Com uma ranchada de filhos. Como um belo patriarca.
   Ela olhava em volta também. Depois fitou-me, cerrando um pouco os olhos, como se me investigasse:
   Tu disseste que era diferente, que vermo-nos não era vermo-nos nos outros. Quando a gente sente a sério uma coisa, julga que ninguém mais a sente. Julga-o, porque é difícil exprimir isso que sente. Tu julgas que o velho Deus e a violência estúpida da morte e o milagre da vida nunca entraram nas minhas contas. Entraram. Mas agora são como animais familiares. Durmo bem no meio deles.
   Não é possível! Tu não viste nada! Tu não viste a pessoa do nosso pai, a realidade única que ele era, que o habitava. Tu não assististe ainda à aparição de ti a ti próprio. Tu nunca pensaste a sós contigo, no silêncio: “Estou vivo, eu sou, eu, esta vitalidade iluminada que se sente, se não pensa, se toca e é estranha e arrepia de medo e nos põe os cabelos em pé.” Tu vives adormecido nesta quietude da terra e no fundo não sabes que és mortal.
   Tomás abanou longamente a cabeça.
   - Pobre Alberto. Porque não vais tu à missa? É a tua última tarefa.
   - Não se soluciona uma vida como se soluciona uma doença. Toda a verdade para a vida é uma criação: ninguém a pode ensinar. E, se a ensina e aprendemos, não damos conta disso, é ainda uma criação.
   - Um pouco assim. Já to disse há pouco. Em todo o caso, os apóstolos existem.
   - Como as trelas dos cães. Ou como a luz num pequeno quarto escuro: o que estava no quarto não se emendou.
   - Talvez, talvez – condescendeu Tomás. – Eu sou um pobre lavrador. Não tenho um stock de ideias para estas ocasiões. Mas creio que estás enganado sobre a experiência de mim próprio. Na verdade, nada disseste ainda que eu ignorasse. Às vezes ponho-me a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um “milagre”, como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de mim há a vida e que a vida não morre. Sim, raras vezes vejo isso flagrantemente. Mas quando o vejo não fico cego. Abala-me um pouco, mas acabo por ficar calmo e aceitar. A morte então toma a velha imagem do sono – do sono que se apetece ao fim de um dia de trabalho.
   - Tomás! Alberto!
   - Lá vamos, lá vamos.
   O almoço foi um espetáculo tão extraordinário que jamais o esqueci. E agora que o relembro neste Inverno em que escrevo, sinto-o ainda com a resposta melhor do meu irmão Tomás a tudo quanto lhe disse.

Vergílio Ferreira, Aparição


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Paisagem do Douro

terça-feira, 2 de junho de 2015

TROVA DO EMIGRANTE

Parte de noite e não olha
os campos que vai deixar.
Todo por dentro a abanar
como a terra em Agadir
folha a folha se desfolha
seu coração ao partir.

Não tem sede de aventura
nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.

De sete avós segue os trilhos
de sete avós que partiram
e numa noite floriram
sete mulheres que murcharam
quando depois sete filhos
mais sete ausências deixaram.

Não julguem que vai contente.
Leva nos olhos o verde
dos campos onde se perde
gente que tudo lhes deu.
Parte mas fica presente,
em tudo o que não colheu.

Ficam mulheres a chorar
por aqueles que se foram.
(Ai lágrimas que se choram
não fazem qualquer mudança.)
Já foram donos do mar
vão para terras de França.

Manuel Alegre, Praça da Canção



segunda-feira, 1 de junho de 2015

A MINHA OLYMPIA

   Nem vale a pena falar de computadores e processadores de texto. Numa fase inicial, ainda me senti tentado a comprar uma dessas maravilhas para mim,  mas ouvi demasiadas histórias de terror em que uma pessoa carregava no botão errado e eliminava um dia de trabalho - ou um mês de trabalho - demasiados avisos sobre súbitas falhas de energia, capazes de apagar todo um manuscrito em menos de meio segundo. Eu nunca fui bom com máquinas e sabia que, se houvesse um botão errado para carregar, acabaria por carregar nele.
   De maneira que não mais larguei a minha velha máquina de escrever e os anos 80 passaram e deram lugar aos anos 90. Um a um, todos os meus amigos mudaram para Macs e IBMs. Comecei a parecer um inimigo do progresso, o último baluarte pagão num mundo de conversos digitais. Os meus amigos gozavam comigo por eu resistir às novas tecnologias. Quando não me chamavam sovina, diziam que eu era um reacionário e teimoso que nem um burro. Entrava-me por um ouvido, saía-me pelo outro. O que era bom para eles não era necessariamente bom para mim, dizia eu. Por que raio é que eu havia de mudar se, como estava, me sentia perfeitamente feliz?
   Até então, não me sentira especialmente ligado à minha Olympia. A máquina era apenas uma ferramenta que me permitia fazer o meu trabalho, mas, agora que se tornara uma espécie em perigo, um dos últimos artefactos sobreviventes do homo scriptorus do século XX, começava a desenvolver uma certa afeição por ela. Dei-me conta de que tínhamos o mesmo passado. Gostasse ou não, essa era a pura verdade. Com o passar do tempo, acabei por compreender que tínhamos também o mesmo futuro.

Paul Auster, A História da Minha Máquina de Escrever,
 Edições Asa