sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

POEMA COM h PEQUENO

Cantarei o homem criador crucificado
em suas máquinas. Caçador caçado
por suas armas. Tocador tocado
por suas harpas.
Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.
Cantarei o homem. esse mortal-imortal
meu amigo-inimigo. Meu irmão.

Cantarei o homem que transforma tudo
e tão dificilmente se transforma.
Ele que se escreve com h pequeno
em todas as coisas que são grandes.

Cantarei o homem no plural.
Ele que é tão singular
tão impossível de ser outro
senão ele próprio: o homem.

Cantarei o homem vezes homem até à massa.
Cantarei a massa vezes massa até ao homem.
Porque não sei doutra guerra. Não sei doutra paz.
Não sei doutro poema que não seja o homem.

Manuel Alegre, Obra Poética,
Dom Quixote


Albrecht Durer, Adão e Eva, 1504

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MANHÃ NA SERRA

   Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro. Levanta-se o sol pela hora velha, mas já os operários passaram para as fábricas da vila. Vão sempre apressados, homens e mulheres. A gente que fica também se move. Tem-se a impressão que durante o tempo quente, com os trabalhos sucessivos das regas e colheitas, ninguém aqui dorme.
   A manhã vai abrindo vagarosamente. Da cumeada, lá bem ao alto de uns cabeços felpudos, mais próximos, e de outros escalvados, pesados e maciços, mais remotos, rompe o sol empoeirado. O Cabril, escuro, ainda não tem delineamento. Porém, neste outubro estiado nem as manhãs são frias, nem as névoas demoradas, nem o vento sopra, e não chove.
   Até a lua, no crescente, é luminosa! Tão formoso tempo desgosta o povo.
   A chuva mostra-se (anda o céu enevoado) de vez em quando, mas logo foge...
   Tudo vai aquecendo mansamente e o fumo sobe direito.É tão leve a inclinação que casualmente toma que só olhando-o pertinazmente se vem a descobrir o lado do vento.
   Os milhos mais serôdios ainda não foram ceifados e também não bolem. Há uma calma perfeita, e lembrarmo-nos nós de que os vendavais encanados por todas estas vertentes tortuosas chegam a derrubar as mais grossas canas de milho! (...)
   Ouço a chocalhada de mais um rebanho. Desde muito cedo que eles passam. Os pastores levam-nos lentamente, paulada a este chibo, paulada àquela ovelha, paulada em vão, descansada, para que os animais aproveitem bem toda a verdura mais ou menos seca das bordas antes de assentarem no chão que vão rapar e estrumar durante um dia ou mais. (...)
   Uma cantoria arrastada e graciosa, bem soante, vem da esquerda. Têm bonita voz as serranas da Estrela! É mais uma descasca do milho. E à minha direita, para meu desgosto (um desgosto mental, supérfluo), na mata destroçada da rica Artensa luzem os pinheiros finos, tombados e descascados, vendidos à companhia dos telefones, salvo erro, para postes. Na aldeia, de muitos fogos, não há nem se espera tão cedo telégrafo ou telefone! Esta rica Artensa do povo de lá tem o marido na América. Com o dinheiro americano e o serrano vão ambos fazendo um casão. Bastou-lhes terem um filho. Trataram logo dos interesses. Ele do lado d'além do mar e ela do lado aquém, governam-se satisfatoriamente.
   Mas diz o Jaleca, por malandrice, e ainda outros mais, repetindo o que ouvem aos parentes americanos de torna-viagem:
   Ô! Ô! É o'a vergonha dos portugueses. Poipar, sim, mas daquele modo? Ele t'chegou a andar co'os sapatos sem solas! E prò quê? Também les há de soar a hora, com'òs oitros...
   Não tendo mais que apontar, de momento pelo menos, porque tudo isto sendo variado é constante, repetido, levanto a pena e fico-me a olhar para o espesso e melindroso Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.
Irene Lisboa, Crónicas da Serra,
 Editorial Presença
Rio Zêzere, barragem do Cabril



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

DESCALÇA VAI PARA A FONTE

Mote:

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa e não segura.

Voltas:

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões


sábado, 13 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O FIM DE UM VOO


   O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios de barriga para cima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.
   No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objeto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda.
   Era uma ave muito suja. Tinha todo o corpo impregnado de uma substância escura e mal cheirosa.
   Zorbas aproximou-se e a gaivota tentou pôr-se de pé arrastando as asas.
   - Não foi uma aterragem muito elegante - miou.
   - Desculpa. Não pude evitar - reconheceu a gaivota.
   - Olha lá, tens um aspeto desgraçado. Que é isso que tens no corpo? E que mal cheiras! - miou Zorbas.
   - Fui apanhada por uma maré negra. A peste negra. A maldição dos mares. Vou morrer - grasnou a gaivota num queixume.
   - Morrer? Não digas isso. Estás cansada e suja. Só isso. Porque é que não vais até ao jardim zoológico? Não é longe daqui e há lá veterinários que te poderão ajudar - miou Zorbas.
   - Não posso. Foi o meu voo final - grasnou a gaivota numa voz quase inaudível, e fechou os olhos.
   - Não morras! Descansa um pouco e verás que recuperas. Tens fome? Trago-te um pouco da minha comida, mas não morras - pediu Zorbas, aproximando-se da desfalecida gaivota.
   Vencendo a repugnância, o gato lambeu-lhe a cabeça. Aquela substância que a cobria, além do mais, sabia horrivelmente. Ao passar-lhe a língua pelo pescoço notou que a respiração da ave se tornava cada vez mais fraca.
   - Olha amiga, quero ajudar-te mas não sei como. Procura descansar enquanto eu vou pedir conselho sobre o que se deve fazer com uma gaivota doente - miou Zorbas, preparando-se para trepar ao telhado.
   Ia a afastar-se na direção do castanheiro quando ouviu a gaivota  a chamá-lo.
   - Queres que te deixe um pouco da minha comida? - sugeriu ele algo aliviado.
   - Vou pôr um ovo. Com as últimas forças que me restam vou pôr um ovo. Amigo gato, vê-se que és um animal bom e de nobres sentimentos. Por isso vou pedir-te que me faças três promessas. Fazes? - grasnou ela, sacudindo desajeitadamente as patas numa tentativa falhada de se pôr de pé.
   Zorbas pensou que a pobre gaivota estava a delirar e que com um pássaro em estado tão lastimoso ninguém podia deixar de ser generoso.
   - Prometo-te o que quiseres. Mas agora descansa - miou ele compassivo.
   - Não tenho tempo para descansar. promete-me que não comes o ovo - grasnou ela abrindo os olhos.
   - Prometo que não te como o ovo - repetiu Zorbas.
   - Promete-me que cuidas dele até que nasça a gaivotinha.
   - Prometo que cuido dele até nascer a gaivotinha.
   - E promete-me que a ensinas a voar - grasnou fitando o gato nos olhos.
   Então Zorbas achou que aquela infeliz gaivota não só estava a delirar, como estava completamente louca.  - Prometo ensiná-la a voar. E agora descansa, que vou em busca de auxílio - miou Zorbas trepando de um salto para o telhado.
   Kengah olhou para o céu, agradeceu a todos os bons ventos que a haviam acompanhado e, justamente ao exalar o último suspiro, um pequeno ovo branco com pintinhas azuis rolou junto do seu corpo impregnado de petróleo.

Luís SepúlvedaHistória de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar,
Porto Editora

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A NAU CATRINETA



   Lá vem a Nau Catrineta
   Que tem muito que contar!
   Ouvide, agora, senhores,
   Uma história de pasmar.

   Passava mais de ano e dia
   Que iam na volta do mar,
   Já não tinham que comer
   Já não tinham que manjar;

   Deitaram sola de molho
   Para o outro dia jantar;
   Mas a sola era tão rija,
   Que a não puderam tragar.

   Deitam sortes à ventura
   Qual se havia de matar;
   Logo foi cair a sorte
   No capitão general.

   - Sobe, sobe, marujinho,
   Àquele mastro real,
   Vê se vês terras de Espanha,
   As praias de Portugal.

   - Não vejo terras de Espanha,
   Nem praias de Portugal;
   Vejo sete espadas nuas
   Que estão para te matar.

   - Acima, acima, gajeiro,
   Acima ao tope real!
   Olha se enxergas Espanha,
   Areias de Portugal.

   - Alvíssaras, capitão,
   Meu capitão general! 
   Já vejo terras de Espanha,
   Areias de Portugal;

   Mais enxergo três meninas
   Debaixo de um laranjal:
   Uma sentada a coser,
   Outra na roca a fiar,

   A mais formosa de todas
   Está no meio a chorar.
   - Todas três são minhas filhas,
   Oh! Quem mas dera abraçar!

   A mais formosa de todas
   Contigo a hei de casar.
   - A vossa filha não quero,
   Que vos custou a criar.

   - Dar-te-ei tanto dinheiro,
   Que o não possas contar.
   - Não quero o vosso dinheiro,
   Pois vos custou a ganhar.

   - Dou-te o meu cavalo branco,
   Que nunca houve outro igual.
   - Guardai o vosso cavalo,
   Que vos custou a ensinar.

   - Dar-te-ei a Nau Catrineta,
   Para nela navegar.
   - Não quero a Nau Catrineta,
   Que a não sei governar.

   - Que queres tu, meu gajeiro?
   Que alvíssaras te hei de dar?
   - Capitão, quero a tua alma
   Para comigo a levar.

   - Renego de ti, Demónio,
   Que me estavas a atentar!
   A minha alma é só de Deus,
   O corpo dou eu ao mar.

   Tomou-o um anjo nos braços,
   Não o deixou afogar;
   Deu um estoiro o Demónio,
   Acalmaram vento e mar;

   E à noite a Nau Catrineta
   Estava em terra a varar.


Romance popular





  




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A CIDADE AO LONGO DOS SÉCULOS

   A cidade assume, desde sempre, um caráter religioso, uma função sagrada. A esta função sagrada, vieram porém, juntar-se outras, algumas das quais permaneceram até aos nossos dias, outras foram-se modificando ao longo dos tempos, outras ainda, substituídas.
   Cercada por muralhas, ela é desde o início um local de proteção, valor a que ainda hoje está associada sobretudo quando lhe é atribuído o sentido metafórico de "mãe", significado presente na designação presente de metrópole, metro (mãe) + polis. Esta função resulta também de constituir um espaço ordenado, um cosmos, opondo-se, portanto, à Natureza, o caos, o Mundo, povoado de forças tenebrosas, incontroláveis.
   A cidade tornou-se «ponto de encontro permanente», originando aquilo a que Mumford chama de «ampla hibridação biológica» e uma «mistura cultural», ultrapassando assim a «autossuficiência e o sonhador narcisismo da cultura de aldeia».
   Ao longo dos séculos, e porque não dos milénios?!,  a cidade tem funcionado, e funciona, como um armazém, onde se vêm reunindo e acumulando os diversos elementos que constituem a cultura, transmitidos de geração a geração, os quais vão sendo transformados, aumentando ou produzindo novas culturas.
   Funcionando como um «recipiente», e contrariamente à Natureza, onde as coisas estão dispersas e fatalmente se perdem, a cidade reúne, guarda e ordena tudo, pessoas e bens, costumes e tradições, preservando e modificando para o futuro.
   A cidade é, portanto, um lugar privilegiado de cultura e também de criatividade e é graças a ela que o ritmo do desenvolvimento humano se acelerou.

La Selete Loureiro, A Cidade em Autores do Primeiro Modernismo: 
Pessoa, Almada e Sá-Carneiro
Lisboa: Estampa, 1996

Cidade de Lisboa