segunda-feira, 31 de agosto de 2015

PAPALAGUI NUNCA TEM TEMPO



No princípio do século XX, Tuiavii, chefe de tribo de uma ilha da Polinésia, visitou a Europa. Espantado com os costumes do homem branco (a quem designa Papalagui), regressou à sua ilha, preocupado com o progresso que, em sua opinião, torna o homem cada vez mais infeliz. O texto transcrito é um excerto de um dos vários discursos de Tuiavii ao seu povo, mostrando-lhes os costumes do homem branco.



O Papalagui adora o metal redondo e o papel forte, gosta de encher a barriga com uma série de líquidos provenientes de frutos mortos, e com carne de porco, boi e outros horríveis animais, mas acima de tudo gosta de uma coisa que se não pode agarrar e que no entanto existe: o tempo. Leva-o muito a sério e conta toda a espécie de tolices acerca dele. Embora não possa haver mais tempo do que o que medeia do nascer ao pôr-do-sol, isso para o Papalagui nunca é o bastante.
O Papalagui nunca está contente com o tempo que lhe coube e censura ao Grande Espírito o não lhe ter dado mais. Chega mesmo a blasfemar contra Deus e a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo cada novo dia que nasce, segundo um plano bastante preciso. Corta-o como se cortaria em pedaços uma noz de coco mole com um cutelo. As várias partes têm todas elas um nome: segundo, minuto, hora. O segundo é mais pequeno que o minuto e este mais pequeno do que a hora. As horas são feitas de todos os segundos e minutos juntos, e é preciso ter sessenta minutos e muitos mais segundos para fazer uma hora.
É uma coisa muito confusa que eu na realidade nunca percebi, pois me indispõe refletir mais do que o devido sobre coisas tão pueris. O Papalagui, contudo,  faz disso toda uma ciência. Os homens, as mulheres e até mesmo as crianças que ainda mal se têm nas pernas trazem consigo, quer presa por grossas cadeias de metal que lhe pendem do pescoço, quer atada ao punho com a ajuda de uma correia de coiro, uma pequena máquina achatada e redonda onde podem ler o tempo, o que não é mesmo nada fácil. Ensinam isso às crianças encostando-lhes a máquina ao ouvido, para lhes despertar a curiosidade.
Pode-se facilmente pegar em tal máquina só com dois dedos; lá dentro tem umas máquinas parecidas com as que há no bojo dos grandes barcos que todos vós conheceis. Mas nas cabanas há outras máquinas do tempo, grandes e pesadas, e outras ainda suspensas no cimo das mais altas cabanas, para que se veja bem de longe. Quando decorreu um certo tempo, isso é-nos indicado por dois dedinhos postados na parte de fora da máquina; ao mesmo tempo que ela solta um grito e um espírito bate num ferro que há lá dentro, fazendo-o ressoar. Sim, há um barulho enorme, um formidável estrondo.
Ao ouvir o barulho da máquina do tempo, queixa-se o Papalagui assim: "Que pesado fardo! Mais uma hora que se passou!" E, ao dizê-lo, mostra geralmente um ar triste, como alguém condenado a uma grande tragédia. No entanto, logo a seguir principia uma nova hora!
Como nunca fui capaz de entender isto, julgo que se trata de uma doença grave. "O tempo escapa-se-me por entre os dedos!", "O tempo corre mais veloz do que um cavalo!", "Dá-me um pouco mais de tempo" - tais são os queixumes do homem branco.
Dizia eu que se deve tratar de uma espécie de doença... Suponhamos, com efeito, que um Branco tem vontade de fazer qualquer coisa e que o seu coração arde em desejo por isso: que, por exemplo, lhe apetece ir deitar-se ao sol, ou andar de canoa no rio, ou ir ver a sua bem-amada. Que faz ele então? Na maior parte das vezes estraga o prazer com esta ideia fixa: "não tenho tempo de ser feliz".
Pretendem alguns Papalaguis que nunca têm tempo. Correm desvairados de um lado para o outro como se estivessem possuídos pelo aitu(1) e causam terror e desgraça onde quer que cheguem, só porque perderam o seu tempo. Esse estado de frenesi e demência é uma coisa terrível, uma doença que nenhum homem de medicina pode curar, doença que atinge muitos homens e que os leva à desgraça.
Como vivem obcecados pelo medo de perderem o seu tempo, todos os Papalaguis -  sejam homens, mulheres ou crianças de tenra idade - sabem com exatidão quantas vezes nasceu o sol e a lua desde que viram pela primeira vez a luz do dia. Este acontecimento é considerado tão importante que o celebram, a intervalos de tempo fixos e regulares, com flores e grandes festas. Reparei, muitas vezes, que eles, no meu lugar, se sentiam envergonhados quando, ao perguntarem-me a idade que tinha, eu não era capaz de responder a tal pergunta, que só me dava vontade de rir! "Mas não podes deixar de saber a tua idade!" Eu calava-me, pensando para comigo: mais vale não saber.
Ter uma idade, quer dizer: ter vivido um determinado número de luas. Isto de se perguntar qual o número de luas apresenta grandes perigos, pois foi assim que se acabou por determinar quantas luas dura em geral a vida dos homens. Ora acontece que cada um, sempre muito atento a isso, passadas que foram já inúmeras luas, dirá: "Pronto! Não tarda muito que eu não morra!" Nada mais então lhe causa alegria e, de facto, acaba por morrer daí a pouco tempo.
Raros são os que, na Europa, dispõem realmente de tempo. Ou talvez nem sequer existam. É por isso que eles passam a vida a correr à velocidade de uma pedra lançada ao ar. A maior parte olha para o chão, quando caminha, e balança muito os braços para ir mais depressa. Quando os detêm, gritam indignados: "Que ideia a tua, de me vires perturbar! Não tenho tempo! E tu, trata de empregar bem o teu!" Tudo se passa como se o que anda depressa tivesse mais valor e bravura do que o que vai devagar.
O Papalagui emprega todas as suas forças, bem como a sua capacidade de raciocínio, em tentar ganhar tempo. Utiliza a água, o fogo, a tempestade e os relâmpagos para parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés e dá asas às palavras, só para ganhar tempo. E porquê tanta canseira? Como é que o Papalagui emprega o seu tempo? Nunca percebi muito bem, embora, pelos seus gestos e palavras, sempre me tivesse dado a impressão de alguém que o Grande Espírito tivesse convidado para um  fono (2).
A meu ver, é precisamente por o Papalagui tentar reter o tempo com as mãos, que ele se lhe escapa por entre os dedos, como uma serpente por mão molhada. O Papalagui nunca deixa que ele venha ao seu encontro. Corre sempre atrás dele de braços estendidos, não lhe concede o repouso necessário, não o deixa apanhar um pouco de sol. Tem que ter sempre o tempo ao pé de si, para lhe cantar ou contar qualquer coisa. Mas o tempo é calma, é paz e sossego, gosta de nos ver descansar, estendidos na nossa esteira. O Papalagui não se apercebeu ainda do que o tempo é, não o compreendeu. É por isso que o maltrata, com os seus modos rudes.
Oh! Meus queridos irmãos! Nós nunca nos queixámos do tempo, amámo-lo e acolhemo-lo tal como ele era, nunca corremos atrás dele, nunca tentámos amalgamá-lo ou cortá-lo em pedaços. Nunca ele nos deixou desesperados ou acabrunhados. Se algum de nós  há aí  a quem falte tempo, que diga! Todos nós  o possuímos em quantidade, não temos razões de queixa. Não precisamos de mais tempo do que o que temos, temos sempre tempo suficiente. Sabemos que atingiremos o nosso alvo a tempo, e que muito embora ignoremos quantas luas se passaram, o Grande Espírito nos chamará quando lhe aprouver. Devemos curar o Papalagui da sua loucura e desvario, para que volte a ter a noção do verdadeiro tempo que tem perdido. Devemos destruir as suas pequenas máquinas do tempo e levá-lo a confessar que há muito mais tempo do nascer ao pôr-do-sol do que ao homem lhe é dado gastar.




Tuiavii, Papalagui

(1) diabo
(2) reunião, festa noturna

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domingo, 30 de agosto de 2015

XXX

Encontraram-se dois traços
numa larga estrada de vento.
Amor súbito, beijos e abraços
um lindo cruzamento...

Pergunta de uma menina à professora:
"Porque é que o chá da minha avó é chá
e o da Pérsia é ?"

José Carlos de Vasconcelos, De Águia a Zebra, Tudo é Poema


sábado, 29 de agosto de 2015

PENICHE

Vento
vento

há tanto
há só vento no meu país

vento branco
verde vento negro

ardente

seca as lágrimas

corta a voz na raiz.

Eugénio de Andrade, Escrita da Terra

Vento e mar em Peniche

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NA BARBEARIA DE FIRIPE BERUBERU

   A barbearia do Filipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O teto era a sombra da maçaniqueira *1. Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes. Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: "cada cabeça 7$50". Com o creser da vida, Firipe emendou a inscrição: "cada cabeça 20$00."
   Na velha madeira balançava um espelho e, ao lado, amarelecia um cartaz de Elvis Presley. Sobre um caixote, junto ao banco das esperas, sacudia-se um rádio ao sabor do chimandjemandje *2.
   O Firipe capinava as cabeças em voz alta. Conversa de barbeiro, isto-aquilo. Contudo, ele não gostava que a bula-bula*3 amolecesse os fregueses. Quando alguém adormecia na cadeira, o Beruberu aplicava uma taxa no preço final. Até na tabuleta, em baixo dos escritos, acrescentou: "Cabeçada com dormida - mais 5 escudos."
   Mas na sombra generosa da maçaniqueira não havia zanga. O barbeiro distribuía boas disposições, dákámaus*4.  Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço, Firipe não demorava:
   - Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.
   Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
   - Boa propaganda, mesire Firipe.
   - Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
   - O quê? Não diga que um branco já chegou nesta barbaria...
   - Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei o cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
   - Explique lá, ó Firipe. Se o branco não chegou até aqui como é que lhe cortou?
   - É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nesta cadeira. Só mais nada.
   - Desculpa, mesire. Mas esse não era branco-mezungo. Era um xikaka*5.
   Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira.
   - Uáa! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade.

Mia Couto, Cada Homem é uma Raça,
Caminho

*1 Árvore da maçanica, fruto normalmente designado por maçã-da-Índia.
*2 Ritmo musical, dança.
*3 Conversa fiada.
*4 Apertos de mão.
*5 Colono, português de categoria social dita inferior.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

MONÓLOGO

Adivinho teu corpo dentro
da noite. Soltos os cabelos
cor de areia fina, delidos
os contornos no linho do lençol.
Dormes tranquilamente. Tudo em
mim é presença tua. E, enquanto
dormes, algo de mim habita
e persiste em ti. Tu dormes
e eu espreito teu sono. Algo
de fluido nos liga e envolve.
Vejo-te lucilar na noite,
teus longos inteiriçados membros
fremindo. Momento breve que perdura.
Depois acordas cinzenta,
banhada em pranto,
oferecendo o perfil suave
ao beijo morno de um céu
onde a aurora se demora.
 
Rui Knopfli, Obra Poética

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

AS EMOÇÕES E O RACIOCÍNIO

   É bem sabido que, sob certas circunstâncias, as emoções perturbam o raciocínio. As provas disso são abundantes e estão na origem dos bons conselhos com que temos sido educados. Mantém a cabeça fria, mantém as emoções ao largo! Não deixes que as paixões interfiram no bom juízo. Em resultado disso, concebemos habitualmente as emoções como uma faculdade mental supranumerária, um parceiro do nosso pensamento racional que é dispensável e imposto pela natureza. Se a emoção é aprazível, fruímo-la como um luxo, se é dolorosa, sofremo-la como um intruso indesejado. Em qualquer dos casos, o conselho dos sábios será o de que devemos experienciar as emoções e os sentimentos apenas em quantidades adequadas. Devemos ser razoáveis.
   Há muito boa sabedoria nesta crença tão aceite, e não vou negar que as emoções não controladas e mal orientadas podem constituir uma das principais origens do comportamento irracional. Tão pouco negarei que o raciocínio que é à partida normal pode ser perturbado por inflexões subtis enraizadas nas emoções.. Por exemplo, é mais provável que um doente aceite de bom grado um tratamento se lhe disserem que 90% das pessoas tratadas em casos semelhantes se encontram vivas ao fim de cinco anos do que se for informado de que 10% morreram. Embora o resultado final seja o mesmo, é natural que os sentimentos que surgem associados à morte conduzam à rejeição de uma opção que seria aceite no outro enquadramento de escolha: eis um exemplo acabado de uma interferência irracional. O facto de esta irracionalidade não resultar da ausência de conhecimento pode ser testado pelo facto de se os doentes fossem médicos não responderiam de forma diferente dos doentes que não são. Todavia, o que é ignorado é que a redução das emoções pode constituir uma fonte igualmente importante do comportamento irracional.

António R. Damásio, O Erro de Descartes:emoção, razão e cérebro humano
Publicações Europa-América

 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O POETA

Trabalha agora na importação e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias. Podia ser um trabalhador por conta própria,
um desses que preenche cadernos de folha azul com números
de deve e haver. De facto, o que não deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol e exportar as nuvens. Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas, de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que passa a caminho da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu; e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia interrupção da morte.

Nuno Júdice, Poesia Reunida 1967-2000, Assírio e Alvim

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Discurso ao Príncipe de Epaminondas,
mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela 
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem
Mário Cesariny

sábado, 22 de agosto de 2015

AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
 
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?
 
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que m' há jurado,
Ai Deus, e u é?
 
Vós me perguntades polo voss' amigo?
E eu bem vos digo que é san' e vivo.
Ai Deus, e u é?
 
Vós me perguntades polo voss' amado?
E eu bem vos digo que é viv' e sano.
Ai Deus, e u é?
 
E eu bem vos digo que é san' e vivo,
e será vosc' ant' o prazo saído.
Ai Deus, e u é?
 
E eu bem vos digo que é viv' e sano
e será vosc' ant' o prazo passado.
Ai Deus, e u é?
 
D. Dinis
 
 


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

LAVOISIER

Na poesia,
natureza variável
das palavras,
nada se perde
ou cria,
tudo se transforma:
cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Sá da Costa

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SÍSIFO

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances,
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Poesia Completa II,
Dom Quixote

terça-feira, 18 de agosto de 2015

AS CONSULTAS

   Saía extenuado dessas consultas, em que as explosões de choro, que nem os homens poupavam, se alternavam com a euforia e o riso. Eles forçavam-me tanto a ser cúmplice da sua ansiedade, ou viam-me tão responsável por ela, que acabavam em ter por mim uma devoção aterrorizada ou, quem sabe, o ódio que segura o cão maltratado ao dono que tem numa das mãos  o chicote e com a outra lhe estende um osso.
   Havia ainda outra fauna. Hipocondríacos, exibicionistas, gente dessa. Gente difícil. Tinham ouvido falar de doenças irremediáveis, de um macabro romantismo, e queriam, à viva força. ser os heróis de um drama. [...]
   Eu chegara, com um atraso desusado, ao hospital. Na véspera, a atmosfera estivera saturada, de um azul indeciso e opressivo, que parecia neblina sem o ser, e que, ao apanhar-nos os brônquios, aí ficava atufada, sufocando. A testa latejara-me mesmo pela noite dentro, enquanto os sentidos, em vigília, esperavam uma tempestade, fosse o que fosse de brutal e súbito mas aliviador. Nada disso, contudo, sucedera. Apenas uma ventania lamentosa e vagabunda. E levantara-me mais cedo do que era meu hábito, o cérebro pesado, uma bruma entre mim e a atmosfera ainda violenta, mas de uma violência já gasta e definitivamente abortada.

Fernando Namora, Domingo à Tarde,
Livraria Bertrand

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

UM CARNAVAL

Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris

Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo e vem beber

Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças

Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura

Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile vem ao baile
E verás o que é bailar.

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca


domingo, 16 de agosto de 2015

ÍCARO

Em teu ventre arredonda-se um aquário,
onde um pequeno peixe se exercita
a transformar-se em ave, assim que a vida
lhe permita o destino solitário.

Por seus futuros voos de isolado
desde já nos sentimos intranquilos...
E desde já quiseras preveni-lo
das nuvens de que o céu anda riscado.

Ó Ícaro esboçado!, quem soubesse,
em vez deste saber de coisas vagas,
com que cera devera unir-te as asas
- para que nenhum Sol as desfizesse!

David Mourão-Ferreira, Canto II

Marc Chagall, A Queda de Ícaro,

sábado, 15 de agosto de 2015

CANÇÃO DO SEMEADOR

Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o o chão é duro
E lhe recebe a semente.

Miguel Torga, Nihil Sibi

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A ERA DOS DESCOBRIMENTOS

   A Europa medieval era um pequeno universo fechado sobre si mesmo. Os grandes empreendimentos expansionistas dos séculos XV e XVI alargaram os horizontes até então conhecidos pelos Europeus. Portugal e Espanha foram os grandes protagonistas deste processo.
   Na Idade Média, o Mundo era como uma constelação de pequenos universos fechados sobre si mesmos e que se ignoravam entre si. Cada civilização estava separada das demais por grandes áreas desabitadas ou pouco povoadas. A Europa ignorava quase toda a África para lá do Sara, a China e a Índia, e nem sequer sabia da existência da América.
   No século X, os Viquingues tinham percorrido o Atlântico Norte e, após descobrirem a Gronelândia, chegaram às costas mais setentrionais do continente americano, às quais chamaram Vinland. Contudo, estas expedições não tiveram continuidade acabando por ser esquecidas. Posteriormente, as cruzadas e as viagens de grandes mercadores, como Marco Polo, permitiram contactar primeiro com o mundo islâmico e, em seguida, através deste, com o Próximo Oriente e com a África Negra.
   Na época medieval, o comércio da Europa com o Próximo Oriente tinham alcançado um certo desenvolvimento. Através da Rota da Seda, traziam-se da Ásia artigos de luxo, como as especiarias, os perfumes, as sedas, as pedras preciosas e o marfim. As rotas eram longas e inseguras, mas as conquistas dos cruzados nas terras do Médio Oriente asseguravam o tráfico comercial. Não obstante, a situação agravou-se a partir de 1453, quando os Turcos Otomanos conquistaram a cidade de Constantinopla e cortaram o caminho terrestre que unia a Europa à Ásia. Por isso, os Europeus tentaram encontrar novas rotas que lhes permitissem alcançar o Próximo Oriente por mar.
   No século XV, conseguiram-se vários avanços tecnológicos que tornaram possível navegar ao longo da costa. O uso da bússola, já muito antigo, generalizou-se a partir do século XIII e contribuiu para fixar com exatidão os rumos. O astrolábio ajudou a determinar com precisão a latitude, medindo a altura dos astros sobre o horizonte. Para isso também se empregava o quadrante. Por outro lado, incorporaram-se nos barcos o leme móvel e a âncora de braços separados. Os Portugueses inventaram a caravela, que combinava as velas quadradas para obter uma maior velocidade e as velas triangulares para conseguir uma maior facilidade de manobra. Como não utilizava remadores, o porão dispunha de muito espaço para armazenar mercadorias. Estes navios permitiam a navegação em qualquer época do ano e eram capazes de resistir às tempestades e aos ataques de piratas, já que estavam equipados com canhões.
   Os avanços da cartografia facilitaram a exploração marítima. [...] Nos finais do século XIII, surgiram os mapas portulanos, que alcançaram o rigor máximo no século XV. Eram mapas em que se uniam os portos mediante linhas traçadas em forma de estrela. Estas linhas eram de cores distintas para marcar os diferentes ventos. Dado que a sua função era representar a costa, não se desenhavam neles pormenores do interior dos continentes, salvo aqueles que pudessem servir de guia para os navegadores, como os rios, as montanhas e a localização das cidades. Alguns portulanos converteram-se em autênticas obras de arte.

História Universal, Enciclopédia do Estudante,
 Santillana-Constância

Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

 A DAMA PÉ-DE-CABRA
(continuação)



            Dirá agora alguém: - Era, por certo, o Demónio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria! – Pois sabei que não ia nada.
            Por anos, a dama e o cavaleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia disso: Ínigo Guerra e Dona Sol, enlevo ambos de seu pai.
            Um dia de tarde, D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo ao aposento, onde comia, para se regalar de ver a excelente preia que havia preado.
            Seu filho assentou-se ao pé dele: ao pé da mãe, Dona Sol; e coçaram alegremente seu jantar.
            “Boa montaria, D. Diogo – dizia sua mulher. – Foi uma boa e limpa caçada.”
            “Pelas tripas de Judas! – respondeu o barão. – Que há bem cinco anos não colho urso ou porco-montês que este valha!”
            Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-se de golpe à saúde de todos os ricos-homens fragueiros e monteadores.
            E a comer e a beber durou até à noite o jantar.

            Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a quem muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono e, até, com os servos da casa.
            A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela não menos prezada.
            O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados, como quem dormitava.
             A podenga negra, essa corria pelo aposento, viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado.
            O barão, depois da saúde urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um kírie comprido de saúdes particulares, e a cada nome uma taça.
            Estava como cumpria a um rico-homem ilustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer e caçar.
            E o alão cabeceava, como um abade velho em seu coro, e a podenga saltava.
            O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: - “Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar.”
            O cãozarrão abriu os olhos, rosnou, pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado.
            Mas logo soltou um uivo e caiu, perneando meio-morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão agonizava.
            “Pelas barbas de D. From, meu bisavô! – exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trémulo de cólera e de vinho. – A perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la.”
            E, virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do pobre animal, que expirava.
            “À la fé que nunca tal vi! Virgem bendita! Aqui anda coisa de Belzebu.” – E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.
            “Ui” – gritou sua mulher, como se a houveram queimado. O barão olhou para ela: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a boca torcida e os cabelos eriçados.
            E ia-se alevantando, alevantando no ar, com a pobre Dona Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo; o direito estendia-o por cima da mesa para seu filho, D. Ínigo de Biscaia.
            E aquele braço crescia, alongando-se para o mesquinho, que, de medo, não ousava bulir nem falar.
            E a mão da dama era preta e luzidia, como o pêlo da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e recurvado em garras.
            “Jesus, santo nome de Deus!” – bradou D. Diogo, a quem o terror dissipara as fumaças do vinho. E, travando de seu filho com a esquerda, fez no ar com a direita, uma e outra vez, o sinal da cruz.
            E sua mulher deu um grande gemido e largou o braço de Ínigo Guerra, que já tinha seguro, e, continuando a subir ao alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.
Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha.A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima.
D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrido porque já não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e, em vez de ir à caça dos cerdos, ursos e zebras, sair à caça de mouros.
Mandou, pois, alevantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus arneses. Entregou a Ínigo Guerra, que já era mancebo e cavaleiro, o governo de seus castelos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d’armas para a hoste d’el-rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisca de Espanha.
Por muito tempo não houve dele, em Biscaia, nem novas nem mensageiros.

Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A DAMA PÉ-DE-CABRA





            Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
            E não me digam no fim: - “não pode ser.” – Pois eu sei cá inventar cousas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
            É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.
            Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou.
            Silêncio profundíssimo; porque vou principiar.

            D. Diogo Lopes era um infatigável Monteiro: neves da serra no Inverno, sóis dos estivais no Verão, noites e madrugadas, disso se ria ele.
            Pela manhã cedo de um dia sereno, estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco-montês, que, batido pelos caçadores, devia sair naquela assomada.
            Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.
            Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava.
            O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco.
            “Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me cativaste?”
            “Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu senhor de Biscaia.”
            “Se já sabeis quem eu seja, ofereço-vos a minha mão, e com ela a minha terra e vassalos.”
            “Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavaleiro que és. Guarda os teus vassalos, senhor de Biscaia, que poucos são eles para te baterem a caça.”
            “Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vós e de mim; que se a vossa beleza é divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?”
            “Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitaria em arras cousa é de pouca valia; mas, apesar disso, não creio que mo concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia.”
            “E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos meus legados?”
            “Então, se queres ver-me sempre ao pé de ti, não jures que farás o que dizes, mas dá-me disso a tua palavra.”
            “A la fé de cavaleiro, não darei uma; darei milhentas palavras.”
            “Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te recordava.”
            “De quê, de quê, donzela? – acudiu o cavaleiro com os olhos chamejantes. – De nunca dar tréguas à mourisca, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom cristão. Guai de ti e de mim, se és dessa raça danada!”
            “Não é isso, bom cavaleiro – interrompeu a donzela a rir. – O de que eu quero que te esqueças é o sinal da cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te.”
            “Isso agora é outra cousa” – respondeu D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdera o caminho do céu. E pôs-se um pouco a cismar.
            E, cismando, dizia consigo: - De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Santiago. Ela por ela. Um presente ao apóstolo e duzentas cabeças de cães de Mafamede valem bem um grosso pecado.
            E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou: -“Seja assim: está dito. Vá, com seiscentos diabos!”
            E, levando a bela dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.
            Só quando, à noite, no seu castelo, pôde considerar miudamente as formas nuas da airosa dama, notou que os tinha os pés forcados como os de cabra.

Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas



domingo, 9 de agosto de 2015

O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado, 
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado,
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

 O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa, Mensagem


sábado, 8 de agosto de 2015

CALA A BOCA, URSO!

   O elevador pusera-se, há muito, em movimento com estardalhaço vagaroso e os dois duelistas precisavam agora de gritar mais, de apregoar quase, para se ouvirem, num esganiçar de ódios inúteis:
   - Até lhe comia os fígados, seu malandro! Os fígados, ouviu?
   Mas não, não comia e era pena. Que bom, se aquele senhor de bigodinho irritado começasse a devorar, ali mesmo diante de toda a gente, o fígado cru do rival, em vez daquele duelo absurdo... nas nuvens da prudência... só sons de chanfalhos sem lâminas... só murros de imaginação... só dentadas metafísicas...
   A viagem aproximava-se do fim, e os adversários, embora continuassem a a tirar epítetos à cara um do outro, mal conseguiam destrinçar-lhes um sentido qualquer, em virtude do estridor das rodas.
   Foi então que aconteceu o inevitável.
   Ouviu-se o grito:
   - Cala a boca, urso!
   O eterno grito anónimo, gaiato e lisboeta que ora sai das bocas das pedras das ruas, ora das bancadas do coliseu, ora das estrelas.
   Desta vez, incendiou a voz dum rapazola, loiraço e picado das bexigas, que mal se podia mexer, atabafado na plataforma traseira.
   - Cala a boca, urso!
   O homúnculo de olhos assomadiços, voltou-se num repelão de rancor sacudido:
   - Quem foi a grandessíssima cavalgadura que relinchou, para eu lhe amolgar os focinhos?
   Emudecimento geral, resposta, nem uma nem duas. O próprio loiraço, de olhos tão desafiantes, deixou-se escorregar para o alçapão do silêncio.
   E, então, o elevador parou. Os passageiros começaram a sair.
   Primeiro este... depois aquele... em suma, depressa esquecidos dos dois galos de esporões teóricos.
   O bexigoso loiro foi o último a descer, mas vissem-no agora, já diferente, já herói, já desmedido de audácia, já pimpão, a rosnar em confidência para um amigo:
   - Os camelos só têm paleio e mais nada... Se fosse comigo, dava-lhe uma chulipa que até voavam.
   E, heróico até ao paroxismo, pregou um pontapé no rabo do vento!

José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

URGENTEMENTE

É urgente o amor
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade, Até Amanhã 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

 A TORRE DE BABEL

   Em toda a terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sennaar e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: "Vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo." Utilizaram o tijolo em vez de pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: "Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade atinja os céus. Assim, tornar-nos-emos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a face da terra."    O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a edificar. E o Senhor disse: "Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro,  de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não se compreendam uns aos outros."
   E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da terra, e suspenderam a construção da cidade. Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor  confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e foi também dali que o Senhor os dispersou por toda a terra.

Génesis 11, 1-9

  
Torre de Babel, 1595, pintura de Lucas Van Valckenborch

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

VAIDADE

Suponho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo o que sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

Florbela Espanca, Livro de Mágoas

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

MARCAS

   Quando me lembrei de descrever o episódio da queda na Avenida Casal Ribeiro tinha em mente uma fotografia em que estou com a minha tia Maria Natália, tirada por um fotógrafo à la minuta no Parque Eduardo VII, aonde aos domingos, infalivelmente, iam passear as criadas de servir de todas as casas ricas e os magalas de todos os quartéis de Lisboa. Nessa fotografia, que se perdeu como tantas outras, estava de blusa e calções, com as meias pretas subidas até ao joelho, seguras por um elástico branco. Uma regra fundamental da arte de bem vestir mandava enrolar uma parte do canhão da meia para que não se notassem as ligas, mas, pelos vistos, eu ainda não tinha sido instruído nesses requintados pormenores da vida social. Percebia-se distintamente a crosta de uma ferida no joelho esquerdo, mas esta não era a da Avenida Casal Ribeiro. Aconteceria uns anos mais tarde, na cerca do Liceu Gil Vicente, e foi tratada no posto médico. Puseram-me o que então se chamava um "gato", um pedacinho de chapa metálica, mais ou menos em forma de pinça, que se cravava nos bordos da ferida para os juntar, e, pelo contacto, apressar a cicatrização. A marca manteve-se visível durante muitos anos, e mesmo agora ainda se podem distinguir uns ténues vestígios dela. Outra cicatriz que conservo é a da fina linha de um corte de navalha, um dia lá no Mouchão de Baixo, quando talhava um barco num pedaço de cortiça. Espetava a ponta da lâmina para arrancar pedaços da corcha ao que viria a ser o interior da embarcação, quando, de repente, por fraqueza da mola, a navalha se fechou e o gume abriu caminho naquilo que encontrou à sua frente, a parte exterior do dedo indicador da mão direita, ao lado da unha. Por pouco não me levou adiante uma lasca de carne. Fui curado com um dos remédios milagrosos daquela época, álcool com balsamina. A ferida não infetou e cicatrizou perfeitamente. A tia Maria Elvira dizia que eu era de boa carnadura.

José Saramago, As Pequenas Memórias,
 Caminho

domingo, 2 de agosto de 2015

TINTA POR UMA LINHA

   Desenhei uma linha a meio da página, antes de escrever a primeira palavra, e a primeira palavra foi êxtase e a segunda foi medo. Quedei-me a meio da terceira, que seria sangue, porque a linha, a meio da página, passou de azul a vermelho e começou a escorrer sobre o tampo da secretária e depois sobre o veludo das minhas calças. Nunca antes eu experimentara tamanha serenidade e tão imenso bem-estar.

José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes,
 Biblioteca Prestígio

sábado, 1 de agosto de 2015

LINDA INÊS, 
INÊS DE MANTO

Teceram-lhe o manto
para ser de morta
assim como o pranto
se tece na roca

Assim como o trono
e como o espaldar
foi igual o modo
de a chorar

Só a morte trouxe
todo o veludo
no corte da roupa
no cinto justo
Também com o choro
lhe deram um estrado
um firmal de ouro
um corpo exumado
O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era escarlata
Também de pranto
a vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa.
Fiama Hasse Pais Brandão, Barcas Novas
Túmulo de Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça