sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A ARTE DE AMAR
(século I a.C.)

   Cede, se a tua amiga te contradisser; cedendo, sairás vencedor da luta. Limita-te a desempenhar o papel que te atribuir. Se ela censurar, censura; aprova tudo o que ela aprove, afirma o que afirmar e nega o que negar. Se ri, ri-te com ela; se chora, acompanha o seu pranto. Que a expressão do teu rosto se afine pela sua [...] Apressa-te a chegar-lhe o escabelo para a cama alta; tira-lhe as sandálias dos delicados pés ou calça-lhas. Também, ainda que estejas morto de frio, ser-te-á muitas vezes necessário aquecer no peito as mãos geladas da tua amiga. E não julgues vergonhoso (e, mesmo que o fosse, deverá agradar-te) seres tu, homem livre, quem lhe segure o espelho para que se mire [...]
   Mas, se te interessa conservar o amor da tua amiga, procede de modo que te julgue maravilhado com a sua beleza. [...] Diz-lhe que, a teus olhos, ela vale mais que o ouro. Se escolheu um vestido pesado, aprova a sua escolha. Se vem ao teu encontro vestida com uma simples túnica, exclama: "Incendeias-me." Mas, timidamente, pede-lhe que se resguarde do frio. Traz nos cabelos uma fita singela? Elogia esse penteado. Frisou os cabelos? Como gostas dos cabelos frisados! Admira os seus braços quando baile, a sua voz quando cante; quando acabar, lamenta que não continue. Poderás enaltecer os seus abraços e aquilo que te faz feliz, as secretas volúpias que se saboreiam pela noite adiante. Ainda que seja mais esquiva que a assustadora Medusa, tornar-se-ia doce e amorável para ti, que a desejas ardentemente.

Ovídio, A Arte de Amar, Europa-América

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