A CAVERNA DO TESOURO
Foi no castelo d'If - If é uma ilha situada ao largo de Marselha -, onde esteve prisioneiro 14 anos, que Edmond Dantès conheceu o abade Faria, tendo-lhe este revelado que um tesouro estava escondido na ilha de Monte Cristo. Edmond Dantès, que se evadira do castelo d'If, desembarca em Monte Cristo e tenta descobrir o tesouro...
Dantès olhou à sua volta, como fazem os homens embaraçados, e o seu olhar pousou num corno de cabrito montês cheio de pólvora que lhe deixara o seu amigo Jacopo.
Sorriu: a invenção infernal ia ser útil.
Com o auxílio da enxada, Dantès abriu entre o rochedo superior e o que lhe servia de base um canal de mina como costumam fazer os sapadores quando querem poupar ao braço do homem uma fadiga demasiado grande, e depois encheu-o de pólvora. Em seguida, desfiou o lenço, impregnou-o de pólvora e fez dele uma mecha.
Largou fogo à mecha e afastou-se.
A explosão não tardou: o rochedo superior foi por momentos erguido da sua base pela força incalculável desencadeada e o rochedo inferior voou em estilhas. Pela aberturazinha que Dantès praticara inicialmente fugiu toda a espécie de insetos palpitantes e uma cobra enorme, guarda daquele caminho misterioso, rolou sobre as suas volutas azuladas e desapareceu.
Dantès aproximou-se: o rochedo superior, agora sem apoio, inclinava-se para o abismo. O intrépido pesquisador contornou-o, escolheu o sítio mais vacilante, apoiou a alavanca numa das arestas e, como Sísifo*, retesou-se com toda a força contra o rochedo.
Este, já abalado pela explosão, cambaleou. Dantès redobrou de esforços. Dir-se-ia um daqueles Titãs que arrancavam montanhas da sua base para guerrearem o senhor dos deuses. Por fim o rochedo cedeu, rolou, saltou, precipitou-se e desapareceu engolido pelo mar.
Deixou a descoberto um espaço circular e à vista uma argola de ferro cravada no meio de uma laje quadrada.
Dantès soltou um grito de alegria e surpresa. Nunca tão magnífico resultado coroara uma primeira tentativa.
O olhar de Dantès, habituado às trevas, pôde sondar os recantos mais ocultos da caverna. Esta era de granito e as suas facetas palhetadas cintilavam como diamantes.
"Meu Deus", disse Edmond para consigo, sorrindo, "estes são sem dúvida todos os tesouros que deixou o cardeal. E aquele bom abade, ao ver em sonhos estas paredes resplandecentes, forjou as suas ricas esperanças."
Mas Dantès recordou-se dos termos do testamento que sabia de cor: "No canto mais afastado da segunda abertura", dizia o documento.
Dantès penetrara na primeira gruta; era necessário agora procurar a entrada da segunda.
Dantès orientou-se. A segunda gruta devia, naturalmente, penetrar no interior da ilha. Examinou os aglomerados de pedras e foi bater numa das paredes que lhe pareceu ser aquela onde se devia situar a abertura, disfarçada, sem dúvida, para maior precaução.
A enxada ecoou um instante, arrancando ao rochedo um som abafado. Continuou, mas a pedra era tão rija que a testa de Dantès se cobriu de suor. Por fim, pareceu ao mineiro perseverante que uma porção de muralha granítica respondia com um eco mais surdo e profundo ao apelo que lhe dirigiam. Aproximou o olhar ardente da muralha e reconheceu, com o tato do prisioneiro, o que talvez mais ninguém reconhecesse: que devia haver ali uma abertura.
A enxada, que lhe parecera tão pesada, tornara-se leve. Levantou-a como levantaria uma pena e entregou-se vigorosamente ao trabalho.
Após algumas enxadadas, verificou que as pedras não se encontravam cimentadas, mas apenas umas sobre as outras e cobertas com o reboco a que já nos referimos. Introduziu numa das fissuras a ponta da enxada, carregou no cabo e viu com alegria a pedra cair-lhe aos pés.
Desde então, Dantès não teve mais que tirar cada pedra com o bico de ferro da enxada, e cada uma foi caindo junto da anterior.
Por fim, depois de uma hesitação de um instante, Dantès passou da primeira gruta para a segunda.
A segunda gruta era mais baixa e escura e de aspeto mais assustador do que a primeira.
À esquerda da abertura ficava um canto profundo e sombrio.
Sondou com o olhar a segunda gruta. Estava vazia como a primeira. O tesouro, se existia, encontrava-se enterrado no canto escuro.
Avançou para o canto e, como que tomado de uma resolução súbita, atacou o solo ousadamente.
À quinta ou sexta enxadada, o ferro encontrou ferro.
Num instante abriu uma cova de três pés de comprido por dois de largo, aproximadamente, e encontrou um cofre de carvalho com arcos de ferro lavrado. No meio da tampa resplandeciam, numa placa de prata que a terra não conseguira embaciar, as armas da família Spada, isto é, uma espada pousada em pala sobre um escudo oval, como são os escudos italianos, e encimada por um chapéu de cardeal.
Alexandre Dumas, O Conde de Monte-Cristo
* Sísifo, personagem da mitologia grega, foi condenado a empurrar uma enorme rocha por uma escarpa acima.
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| Castelo da ilha de If |