terça-feira, 29 de setembro de 2015

CARTAS DE AMOR


   Todas as cartas de amor são
   Ridículas.
   Não seriam cartas de amor se não fossem
   Ridículas.

   Também escrevi em meu tempo catas de amor,
   Como as outras,
   Ridículas.

   As cartas de amor, se há amor,
   Têm de ser
   Ridículas.

   Mas, afinal,
   Só as criaturas que nunca escreveram
   Cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   Quem me dera no tempo em que escrevis
   Sem dar por isso
   Cartas de amor
   Ridículas.

   A verdade é que hoje
   As minhas memórias
   Dessas cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   (Todas as palavras esdrúxulas,
   Como os sentimentos esdrúxulos,
   São naturalmente
   Ridículas.)

Álvaro de Campos, Poesias,
 RBA Editores
  

Álvaro de Campos é um heterónimo de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (13/6/1888 - 30/11/1935)




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O teatro de Gil Vicente

   Entre 1502 e 1536, Gil Vicente escreveu, interpretou e pôs em cena (pois, como Ruzzante, Shakespeare ou Molière, coincidiam nele o autor, o ator e o encenador) cerca de cinquenta autos, de que a maior parte foi reunida por seus filhos Luís e Paula Vicente numa Compilação editada em 1562 e reeditada vinte e quatro anos depois, com graves mutilações impostas pela censura inquisitorial. Dividiram aqueles a obra paterna em quatro secções - obras de devoção, comédias, tragicomédias e farsas -, mas esta distinção peca por evidente arbítrio, na medida em que aglutina obras dissemelhantes e separa obras afins. Mais curial, sem dúvida, é a classificação tripartida (comédias, farsas e moralidades) alvitrada pelo próprio Gil Vicente na carta que, na respetiva 2ª edição, antecede o Dom Duardos, e que engloba nos dois primeiros grupos os autos de tema e inspiração seculares e no último os autos religiosos.

Luiz Francisco Rebello, Breve História do Teatro Português,
 Publicações Europa-América

domingo, 27 de setembro de 2015

JUSTAS CAUSAS

abril,22
   Na quarta-feira, à entrada da aula, veio ter comigo o contínuo de serviço e queixou-se-me do Fosco. O Fosco fizera barulho, pulara, cantara, dançara ou lá o que foi antes de chegar... Assumi um ar de seriedade digno de um grande ator, e disse ao homenzinho - «Já trato do assunto», e ao Fosco, para que o homem ouvisse «Vamos ajustar contas». Depois fechei a porta; esperei, escutando, que se afastasse o empregado; e quando os seus passos se não ouviam já, anunciei que no próximo dia seria julgado o Fosco. Ele que escolhesse o seu advogado de defesa, um deles que propusesse advogado da acusação.
   Fixe bem todo o professor que tem de cumprir o que promete ao aluno. Caso contrário, «há concluído», como, em tradução,  diria o Radice. É que eles não esquecem - ou só esquecem o que os não interessa. E nós temos de ser exemplo de tudo - a começar, temos de dar o exemplo de bem cumprir. Mal entrei, vi logo na secretária o Poeta e o Gabriel; o Fosco estava entretido a despejar o cesto dos papéis, para uma improvisação feliz de banco de réu. E o debate começou, seguido com interesse e relativa seriedade da parte do público. O ataque não foi brilhante. Mas o Poeta - com que brilho, com que imaginação, com que correção de vocabulário e riqueza de argumentos não defendeu o seu constituinte!
   Eu ia sempre «puxando» por cada um (o réu também falou, porque tinha «alguma coisa a alegar em sua defesa») e assim aquela aula, levada a brincar, teve o mérito de pôr os moços a falar sem o constrangimento com que recontam um trecho acabado de ler.
   Prestou-se a coisa, também, a aquisição de vocabulário: juiz, juízo, julgar e outras palavras relacionadas com a audiência foram tratadas antes dela.
   E surgiu então uma ideia, aplaudida por todos, e que vem ao encontro da Semana do Animal: passaremos a fazer, de vez em quando, julgamentos de animais de fábulas: O Lobo, de «O Lobo e o Cordeiro», a Cigarra, a Formiga, a Raposa, de «Le Corbeau et le Renard», virão ao tribunal.
Sebastião da Gama, Diário, Edições Ática
Sebastião da Gama (10/4/1924-1952)
Poeta e professor português.
Obras: Serra Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951). Póstumas: Pelo Sonho é Que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967), O Segredo é Amar (1969) e  Cartas (1994).
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Serra d'Arrábida, sempre presenta na obra de Sebastião da Gama



sábado, 26 de setembro de 2015

FALA

Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala franciú fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância muita e devagar.
Alexandre O'Neill, Poesias Completas
Assírio & Alvim

Poeta português (1924-1986)

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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

AINDA QUE MAL

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano:amor.

Carlos Drummond de Andrade, As impurezas do branco
São Paulo, Editora Record, 2005 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

CORAÇÕES PARTIDOS
  

   Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio da minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.
   Não posso ser o que tu qerias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata. O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela.
   Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Teresa; mas não vaverá aí um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho ciúmes de todas as tuas horas.  Hás de pensar com muita saudade no teu esposo do Céu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para veres ao pé de ti o miserável que nos matou a realidade de tantas esperanças formosas.
   Tu verás esta carta quando eu estiver num outro mundo, esperando as orações das tuas lágrimas. As orações! Admiro-me desta faísca de fé que me alumia nas minhas trevas!... Tu deras-me com o amor a religião, Teresa.  Ainda creio; não se apaga a luz que é tua; mas a providência divina desamparou-me.
   Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraístes a um abismo. Escutarás com glória a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
   À hora em que leres esta carta...

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição


Camilo Castelo Branco (16/3/1825 - 1/6/1890)
Escritor português, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor.
Amor de Perdição é um dos romances mais conhecidos do autor e foi escrito em 1862.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O VASO DA VIDA



   Um chefe dos Índios Digger, como os habitantes da Califórnia lhes chamam, falou muito comigo a respeito dos hábitos do seu povo em tempos idos. Era cristão e pioneiro entre os seus na cultura de pêssegos e alperces de regadio, mas ao falar dos xamãs que, vira ele com os seus olhos, se tinham transformado em ursos durante a dança-dos-ursos, as mãos tremiam-lhe e a voz vibrava de emoção. Era uma coisa extraordinária a energia do seu povo nos tempos antigos. Mais do que tudo gostava de falar do que o deserto lhes dava como alimentos. Tratava cada planta que arrancava, com amor e com uma segurança absoluta da sua importância. Nesses tempos, o seu povo tinha comido "da saúde do deserto", dizia ele, ignorava tudo a respeito de latas de conserva e do que se vendia nos talhos. Tinham sido essas inovações que tinham acabado por fazê-los degenerar.
   Um dia, sem transição, Ramon começou a descrever como se esmagava o mendobi e se preparava a sopa de bolota. "No princípio", dizia, "Deus deu um vaso a cada povo, um vaso de barro, e por este vaso bebiam a sua vida." Não sei se o símbolo aparecia em qualquer rito tradicional do seu povo que nunca descobri qual fosse, ou se era inventado por ele. É difícil admitir que o tivesse recebido dos brancos que conhecera em Banning; estes não eram gente que discutisse o etos de diferentes povos. Seja como for, no espírito deste índio humilde a figura de retórica era clara e rica de significado. "Todos enchiam o seu vaso mergulhando-o na água", continuava, "mas os vasos eram diferentes. O nosso quebrou-se; desapareceu."
   O nosso vaso quebrou-se. Aquilo que tinha atribuído significado à vida do seu povo, os rituais domésticos de tomarem alimentos, as obrigações do sistema económico, a sucessão dos cerimoniais nas aldeias,  o estado de possessos na dança-do-urso, os padrões do bem e do mal - tudo desaparecera, e com isso a forma e o significado da sua vida. O velho conservava-se ainda vigoroso e continuava a ser quem orientava as relações dos seus com os brancos. Não queria ele dizer, com aquele modo de se exprimir, que se tratava de qualquer coisa como a extinção do seu povo. Mas no seu espírito havia como que a consciência da perda de qualquer coisa que tinha um valor igual ao da própria vida, toda a estrutura dos padrões e das crenças do seu povo. Havia ainda outros vasos da vida, talvez com a mesma água, mas a perda era irreparável. Não se tratava de juntar aqui isto, de tirar aquilo. A modelação do vaso fora fundamental, fosse como fosse era de uma só peça. Fora o seu vaso.
   Ramon tinha tido a experiência pessoal daquilo de que falava. Fizera a forquilha entre duas culturas cujos valores e modos de pensamento eram incomensuráveis. Duro destino. Na civilização Ocidental, as nossas experiências foram diferentes. Somos educados para viver dentro de uma cultura cosmopolita, e as nossas ciências sociais, a nossa psicologia e a nossa teologia teimam em ignorar a verdade expressa pela figura de Ramon.




Ruth Benedict, Padrões de Cultura, Ed. "Livros do Brasil"



Ruth Fulton Benedict (1887 - 1948)
Nasceu em Nova Iorque. Foi antropóloga. Começou por observar as populações índias da América do Norte. Descobriu grandes diferenças culturais entre os povos que estudou e, mais tarde, aplicou as teorias formuladas, a partir da sua investigação, às sociedades europeias e asiáticas.. Foi professora na Universidade da Colúmbia.
Obras principais: Padrões de Cultura (1937) e O Crisântemo e a Espada (1946)


terça-feira, 22 de setembro de 2015

O PIANISTA
Senta-se imita
o autor Os
holofotes douram-no
é a vítima
dos expansivos círculos do som
Em torno dele o som é como
um laço
Está sentado na margem do
teclado detendo com os braços
a força ameaçadora das águas
Gastão Cruz, Poemas Reunidos,
Publicações Dom Quixote
Autor português, nasceu em 1941

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

FREI LUÍS DE SOUSA - a biografia do escritor que Garrett faz reviver

   Manuel de Sousa Coutinho nasceu em Santarém cerca de 1555 e morreu em 1632. Cavaleiro da Ordem Militar de Malta, foi aprisionado por piratas e esteve algum tempo cativo em Argel (1576-77).
   Prestou serviços a Filipe II de Espanha, que o recompensaria, em 1592, com uma tença de 200$00; de regresso a Portugal depois de dois anos em Valência, casou, por 1584-1586, com D. Madalena de Vilhena, viúva de D. João de Portugal, desaparecido em Alcácer Quibir. Em 1599, foi nomeado capitão-mor de Almada, com o posto de coronel. Em 1600, sendo Lisboa assolada pela peste, os governadores do Reino quiseram instalar-se em Almada, numa casa de D. Manuel, que, para impedir tal violência, lhe lançou fogo. Na origem deste episódio estão questões pessoais, que não hostilidade ao Rei castelhano. Em 1613, quando já lhes falecera uma filha única, D. Manuel e D. Madalena resolveram seguir o exemplo recente dos Condes de Vimioso, professando ambos, ele no convento de S. Domingos de Benfica, ela no convento,  dominicano também, do Sacramento. O primeiro biógrafo de Frei Luís de Sousa, Frei António da Encarnação, entre várias opiniões que corriam sobre aquele insólito facto, elegeu a seguinte e pouco verosímil versão: um peregrino trouxera a nova inesperada de que D. João de Portugal, desaparecido trinta e cinco anos atrás, vivia ainda na Terra Santa; assim a vida em comum de D. Manuel e de D. Madalena tornara-se impossível. Esta versão constitui o ponto de partida do Frei Luís de Sousa de Garrett.

Jacinto do Prado Coelho, Dicionário de Literatura,
 Livraria Figueirinhos

domingo, 20 de setembro de 2015

A CAVERNA DO TESOURO



   Foi no castelo d'If - If é uma ilha situada ao largo de Marselha -, onde esteve prisioneiro 14 anos, que Edmond Dantès conheceu o abade Faria, tendo-lhe este revelado que um tesouro estava escondido na ilha de Monte Cristo. Edmond Dantès, que se evadira do castelo d'If, desembarca em Monte Cristo e tenta descobrir o tesouro...



   Dantès olhou à sua volta, como fazem os homens embaraçados, e o seu olhar pousou num corno de cabrito montês cheio de pólvora que lhe deixara o seu amigo Jacopo.
   Sorriu: a invenção infernal ia ser útil.
   Com o auxílio da enxada, Dantès abriu entre o rochedo superior e o que lhe servia de base um canal de mina como costumam fazer os sapadores quando querem poupar ao braço do homem uma fadiga demasiado grande, e depois encheu-o de pólvora. Em seguida, desfiou o lenço, impregnou-o de pólvora e fez dele uma mecha.
   Largou fogo à mecha e afastou-se.
   A explosão não tardou: o rochedo superior foi por momentos erguido da sua base pela força incalculável desencadeada e o rochedo inferior voou em estilhas. Pela aberturazinha que Dantès praticara inicialmente fugiu toda a espécie de insetos palpitantes e uma cobra enorme, guarda daquele caminho misterioso, rolou sobre as suas volutas azuladas e desapareceu.
   Dantès aproximou-se: o rochedo superior, agora sem apoio, inclinava-se para o abismo. O intrépido pesquisador contornou-o, escolheu o sítio mais vacilante, apoiou a alavanca numa das arestas e, como Sísifo*, retesou-se com toda a força contra o rochedo.
   Este, já abalado pela explosão, cambaleou. Dantès redobrou de esforços. Dir-se-ia um daqueles Titãs que arrancavam montanhas da sua base para guerrearem o senhor dos deuses. Por fim o rochedo cedeu, rolou, saltou, precipitou-se e desapareceu engolido pelo mar.
   Deixou a descoberto um espaço circular e à vista uma argola de ferro cravada no meio de uma laje quadrada.
   Dantès soltou um grito de alegria e surpresa. Nunca tão magnífico resultado coroara uma primeira tentativa.
   O olhar de Dantès, habituado às trevas, pôde sondar os recantos mais ocultos da caverna. Esta era de granito e as suas facetas palhetadas cintilavam como diamantes.
   "Meu Deus", disse Edmond para consigo, sorrindo, "estes são sem dúvida todos os tesouros que deixou o cardeal. E aquele bom abade, ao ver em sonhos estas paredes resplandecentes, forjou as suas ricas esperanças."
   Mas Dantès recordou-se dos termos do testamento que sabia de cor: "No canto mais afastado da segunda abertura", dizia o documento.
   Dantès penetrara na primeira gruta; era necessário agora procurar a entrada da segunda.
   Dantès orientou-se. A segunda gruta devia, naturalmente, penetrar no interior da ilha. Examinou os aglomerados de pedras e foi bater numa das paredes que lhe pareceu ser aquela onde se devia situar a abertura, disfarçada, sem dúvida, para maior precaução.
   A enxada ecoou um instante, arrancando ao rochedo um som abafado. Continuou, mas a pedra era tão rija que a testa de Dantès se cobriu de suor. Por fim, pareceu ao mineiro perseverante que uma porção de muralha granítica respondia com um eco mais surdo e profundo ao apelo que lhe dirigiam. Aproximou o olhar ardente da muralha e reconheceu, com o tato do prisioneiro, o que talvez mais ninguém reconhecesse: que devia haver ali uma abertura.
   A enxada, que lhe parecera tão pesada,  tornara-se leve. Levantou-a como levantaria uma pena e entregou-se vigorosamente ao trabalho.
   Após algumas enxadadas, verificou que as pedras não se encontravam cimentadas, mas apenas umas sobre as outras e cobertas com o reboco a que já nos referimos. Introduziu numa das fissuras a ponta da enxada, carregou no cabo e viu com alegria a pedra cair-lhe aos pés.
   Desde então, Dantès não teve mais que tirar cada pedra com o bico de ferro da enxada, e cada uma foi caindo junto da anterior.
   Por fim, depois de uma hesitação de um instante, Dantès passou da primeira gruta para a segunda.
   A segunda gruta era mais baixa e escura e de aspeto mais assustador do que a primeira.
   À esquerda da abertura ficava um canto profundo e sombrio.
   Sondou com o olhar a segunda gruta. Estava vazia como a primeira. O tesouro, se existia, encontrava-se enterrado no canto escuro.
   Avançou para o canto e, como que tomado de uma resolução súbita, atacou o solo ousadamente.
   À quinta ou sexta enxadada, o ferro encontrou ferro.
   Num instante abriu uma cova de três pés de comprido por dois de largo, aproximadamente, e encontrou um cofre de carvalho com arcos de ferro lavrado. No meio da tampa resplandeciam, numa placa de prata que a terra não conseguira embaciar, as armas da família Spada, isto é, uma espada pousada em pala sobre um escudo oval, como são os escudos italianos, e encimada por um chapéu de cardeal.


Alexandre Dumas, O Conde de Monte-Cristo

* Sísifo, personagem da mitologia grega, foi condenado a empurrar uma enorme rocha por uma escarpa acima.



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Castelo da ilha de If




  



sábado, 19 de setembro de 2015

UM SENTIMENTO BOM


   Subiram os dois a ladeira do Mirante e foram sentar-se no morro.
   - Toma figos - ofereceu Gaitinhas.
   - Eu tenho.
   - Então para que roubavas?
   - Sei lá.
   Gineto não quis confessar que não pedia porque o escorraçavam das portas, chamando-lhe ladrão e vadio. Nunca mais esqueceria a tareia que, há um ano, apanhara das mãos do Sr. Castro. Entrara confiante no jardim: - Pão, por Deus...
   - Toma lá, rapaz...
   E as pancadas deixaram-lhe marcas no corpo, apenas porque apedrejara o caseiro quando fora assaltar a Quinta Alta.
   Talvez por isso, por esse castigo cobarde e tardio, é que ele andava assim a escorraçar os garotos com mais sorte.
   - Gaitinhas: és meu amigo?
   - Sou, pois.
   Gineto sorriu. Nunca tivera um amigo assim. Os outros adulavam-no por medo, bem sabia. A não ser o Sagui, todos lhe queriam mal, embora o respeitassem.
   Gaitinhas tirou do bolso a gaita de beiços e pôs-se a tocar uma canção em voga, que o companheiro ouviu, embevecido. Não percebia nada de música; mas aquela canção era, decerto, a mais bela do mundo. Sumia-lhe as cicatrizes que o pai do Arturinho lhe deixara no corpo e na alma, e levaram-no para braços amigos que jamais conhecera.
   - É bestial, pá! - foi só o que soube dizer quando o Gaitinhas findou.
   Pela ladeira do Mirante, a noite ia descendo, devagar. E, devagar, um sentimento bom despontava no peito do Gineto. O silêncio da tarde convidava a confidências. Contaram-nas. Como velhos amigos, descreveram a história das suas vidas curtas, sem história. Gaitinhas confessou a mágoa de ter renunciado à escola, porque a mãe adoecera.
   - E o teu pai? - perguntou Gineto.
   O filho da Madalena olhou a névoa que ensombrava o horizonte.
   - Está muito longe - murmurou. E a medo, como se revelasse um crime: - Queria que eu fosse doutor.
   A voz do Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.
   Na estrada aquosa do Tejo, deslizavam barcos, mansamente. Gaitinhas desejou ser barqueiro para levar um barco ao porto de destino de seu pai. Também Gineto reparou neles, mas lamentou-se:
   - Qualquer dia vou prò mar. O meu pai já disse que me prende no bote...
   - Eu gostava de ir.
   - Pois eu só se nã puder é que nã fujo.
   - E depois?
   - Cá me arranjarei.
   Calaram-se. Barcos, pombas e poente, toda a paisagem daquele fim de tarde, entravam pelos olhos dentro do Gaitinhas, extasiado. Gineto, porém, só via os esteiros longos dos telhais, como dedos de mão arrepanhando águas. Os esteiros e as chaminés esguias das fábricas, que o crepúsculo enegrecia mais.
   - Vamo-nos embora?
   Despediram-se. As pombas recolheram aos ninhos, e os dois amigos também. Só na entrada do rio os barcos deslizavam ainda, a procurar porto de abrigo ou de trabalho.


Soeiro Pereira Gomes, Esteiros
Soeiro Pereira Gomes
(14/4/1909 - 5/12/1949)
Grande escritor neo-realista, militante do Partido Comunista.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

RETRATO

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.
Melodia
distante e segura;
irrompendo da terra,
cálida, madura.
Mar imenso.
Praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma!

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro

terça-feira, 15 de setembro de 2015

MAIS QUE O TEU CORPO

Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a alma e quero a estrela
e quero o teu prazer e a tua dor
o crepúsculo e a aurora e a caravela
para o amor que fica além do amor.

A alegria e o desastre e o não sei quê
de que fala Camões e é como a água
que dos dedos se escapa e só se vê
quando o prazer se torna quase mágoa.

Estar em ti como quem de si se parte
e assim se entrega e dando não se dá
quero perder-me em ti e quero achar-te
como num corpo o corpo que não há.

Manuel Alegre, Livro do Português Errante

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O SEU DESTINO ERA 
O MAR




A Maria da Sé ficou viúva, com dois filhos que faziam grande diferença de idade. Um andava na catraia do Manuel Jacinto, mas ao mais pequeno não o deixava ela ir ao mar.
- Não, tu não vais...
Todos os pequenos da Cantareira se juntam nas poças com barquinhos de cortiça. Arranjam uma vela com um farrapo, fazem um leme dum pedaço de casca, e arregaçados, descalços, aprendem a manobrar os barcos com entusiasmo.
- Orça! Orça!
- Ceia agora...
- Olha o meu como bolina!
Se a Maria da Sé o surpreendia com os outros, deitava-lhe as calças abaixo e batia-lhe como uma desalmada.
- Custaste-me muito a criar. Hás de perder o sestro.
Mas ele não perdia o sestro. O mar atraía-o irresistivelmente. Um dia lançou-se a nova catraia ao mar e o irmão interveio:
- Deixe ir o pequeno comigo. Vai ganhando...
- Não vai, já to disse.
Ambos pediam, um falando, o outro agarrado à mão do irmão,  com medo à mãe, e não tirando dela os olhos ansiosos.
- Não sei para que vossemecê o está a criar... Vai como moço, ganha um quarto, e nós precisamos, bem o sabe...
- Não!
- Eu sei o que vossemecê pensa. Tolices. Lá por o pai ter morrido na barra não se segue... E eu?  Então vossemecê tem-lhe mais amor do que a mim?
- Tu és um homem.
- Deixe-o ir comigo. Na minha salvação que lho trago. Eu respondo por ele.
E o pequeno, de olhos muito abertos, numa ânsia de ir ao mar, como o pai, como os irmãos, como os homens.
- Mãe, deixe-me ir.
Foi. Foi muitas vezes até que lá ficou com a catraia na barra. Oito dias, contados um a um, andou aquela figura vestida de escuro, a correr a costa, a espreitar os areais e os penedos, com os olhos fixos, à espera que o mar lhos restituísse. O mar acaba sempre por vomitar os mortos. Mais dia menos dia, os arrolados vêm à tona e depois à praia.
Apareceram no cabedelo, unidos um ao outro. O mais velho erguia nos braços o mais pequeno procurando salvá-lo. Fui vê-los. Havia naquele grupo de horror uma ternura tão profunda e indestrutível que nem a morte conseguiria separá-los... Ainda tenho diante de mim o moço agarrado aos braços rígidos do irmão, que o levantava para o alto, num derradeiro e desesperado esforço.
Um dia inteiro, cobertos com o lençol branco que o vento sacudia, estiveram arrolados no areal, e, ao lado deles, de joelhos e curvada, falando-lhes baixinho, aquele vulto escuro, que no auge do desespero não tinha uma lágrima para deitar.


Raul Brandão, Os Pescadores (adaptação)



Pintura de Claude Monet


domingo, 13 de setembro de 2015

A PRIMAVERA DE 1431

   A primavera de 1431 foi uma das mais frias e húmidas de que rezam as crónicas. O pequeno bando de Rais e La Hire atravessa uma região devastada pela guerra e pela ocupação estrangeira. Não se veem senão casas desmoronadas, cadáveres de cavalos, voos de corvos. De quando em vez, têm que esconder-se para deixar passar um destacamento de ingleses. Quando o inimigo não é muito numeroso, atacam-no, mas nessas ocasiões sempre se sofrem perdas, e as perdas são irreparáveis. Apesar de algumas surtidas vitoriosas, as tropas de Rais e La Hire foram dizimadas. E as defesas de Ruão vêm a revelar-sebastante sólidas. Os homens são obrigados a dispersar, a agir disfarçados. Gil consegue finalmente introduzir-se na cidade, com um único companheiro. Já não era sem tempo: corre o boato de que Joana, condenada à fogueira, será sacrificada ainda durante aquela mesma semana. Ferido e coberto de farrapos, Gil não precisa de se mascarar para passar por vagabundo. Perdido na multidão, assiste, com o coração cheio de dor e ódio, aos preparativos do suplício. Decifra, no alto de um poste hasteado no meio da pira, um letreiro onde se enumeram, os dezasseis crimes de que Joana foi considerada culpada: Joana que a si própria se intitulou a Donzela, mentirosa, perniciosa, envenenadora do povo, adivinha, supersticiosa, blasfema, presunçosa, descrente na Fé, fanfarrona, idólatra, cruel, dissoluta, invocadora dos demónios, apóstata, cismática, herética. Para a meterem a ridículo, enfiaram na cabeça de Joana uma mitra de papelão que lhe descai para o rosto. A pira é demasiado alta para que, ao subir o primeiro fumo, o carrasco a possa estrangular como, por caridade cristã, é seu hábito fazer. Joana terá assim que suportar tormentos desumanos até ao fim. No momento em que a atingem as primeiras chamas, ela grita: Jesus! Jesus! Jesus!, e que esse grito modulado pela dor e pela agonia, repetir-se-á até ao último suspiro.
   No fim, o bailio ordena ao carrasco que ponha o corpo de Joana em evidência, para que a ninguém passe despercebido. E vê-se então, suspensa do poste, no meio de um turbilhão de fumo, uma pobre carcaça semicalcinada, uma cabeça calva, de olhos desfeitos, curvada sobre um torso dilatado, ao mesmo tempo que paira na cidade um horrível cheiro a carne carbonizada.

Michel Tournier, Gilles & Jeanne,
 Dom Quixote

Joana d'Arc

sábado, 12 de setembro de 2015

À PROCURA DE UMA BESTA



   Figura o anúncio no jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:


   À procura de uma besta
   A partir de 6 de outubro do ano cadente, sumiu-me uma besta vermelho-escura com as seguintes características: calçada e ferrada de todos os membros locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita e crina dividida em duas secções em consequência de um golpe, cuja extensão pode alcançar de 4 a 6 centímetros, produzida por um jumento.
   Esta besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e boa de sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.
   Quem, pois, apreendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente ministrado.
   Itambé de Mato Dentro, 19 de novembro de 1899.
   (a) João Alves Júnior


   55 anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesmo que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério de Itambé. Mas teu anúncio continua modelo no género, senão para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.
   Repara antes de tudo na limpeza da tua linguagem. Não escreveste apressada e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam.  Formulaste depois o raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.
   Não disseste que todos os seus cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo de "todos os seus membros locomotores". Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas secções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.
   Por ser "muito domiciliada nas cercanias deste comércio", isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom perentório: "tudo me induz a esse cálculo". Revelas a prudência mineira, que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.
   Finalmente - deixando de lado outras excelências de tua prosa útil - a declaração positiva: quem a apreender ou pelo menos "notícia exata ministrar", será "razoavelmente remunerado". Não prometes recompensa tentadora;  não fazes praça de generosidade ou largueza;  acenas com o razoável, com a justa medida das coisas que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.
   Já é muito tarde para sairmos à procura da tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor à tarefa bem feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.






Carlos Drummond de Andrade





Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Nasceu em Itabira, em Minas Gerais, no Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro.
Poeta do Modernismo Brasileiro, talentoso prosador, contista, o seu estilo é frequentemente marcado pelo humor e pelo ceticismo.
Alguns títulos da sua produção literária: Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), Confissões de Minas (1944), Contos de Aprendiz (1951), Fazendeiro do Ar (1955) e Obra Completa (2 volumes - contém toda a sua produção literária).






quinta-feira, 10 de setembro de 2015

  
JACINTO em PARIS



   Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto,  e apontando já com o dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. "Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!", murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. "Vamos para abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!" Mas em abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de março garantiam uma farta colheita (...) Desde o inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.
   Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, - decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa de espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
   - Eh, Fernandes!
   Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina - por ele me ter reconhecido! E atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara - o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
   - E Jacinto?
   Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados no pescoço.
   - Ah que canalha! - exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. - É capaz de ser feliz!
   - Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...
   - Indecentemente - murmurou Marizac muito sério. - Que canalha!
   Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette. (...)
   - Em cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um pouco mais de dispepsia. E tudo segue.


Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (cap. XVI, com supressões)



Campos Elísios

quarta-feira, 9 de setembro de 2015


REALIDADE DOLOROSA



Toda a escola se precipitou ruidosamente para o pátio do recreio. Os novos alunos reuniram-se no centro, enquanto os outros se colocavam ao longo dos muros opostos. Começaram a jogar o "apanhar o porquinho". Os veteranos corriam de uma parede para a outra, enquanto os novatos procuravam fugir-lhes: quando um era agarrado e pronunciava as palavras sacramentais - "um, dois, três e um porquinho para mim" - tornava-se prisioneiro e por seu lado ajudava  a agarrar os que estavam ainda livres. Philip viu um rapaz passar correndo e tentou agarrá-lo mas o coxear não ajudou; e os corredores, aproveitando a oportunidade, dirigiram-se para o lugar onde ele estava. Um deles teve então a brilhante ideia de imitar a corrida desajeitada de Philip. Os outros rapazes viram e começaram a rir; logo após todos eles arremedaram o primeiro; e rodearam Philip, coxeando grotescamente, dando estridentes gargalhadas com as suas vozes agudas. Perderam a cabeça no prazer do novo divertimento e sufocavam de alegria irreprimível. Um deles passou uma rasteira a Philip que caiu pesadamente como sempre caía e feriu um joelho. As gargalhadas recrudesceram quando ele se levantou. Um rapaz empurrou-o pelas costas e teria caído novamente se um outro o não tivesse segurado. O jogo fora aquecido com a divertida deformidade de Philip. Um deles inventou um coxear esquisito e bamboleante que batia o outro sumamente ridículo e alguns rapazes atiraram-se ao chão e rebolaram de riso: Philip estava completamente aterrado. Não conseguia compreender porque se riam dele. O coração batia-lhe tanto que mal conseguia respirar e estava assustado como nunca na vida. Ficou de pé, estupidificado, enquanto os rapazes lhe corriam à volta imitando-o e rindo; gritavam-lhe que os apanhasse mas ele não se moveu. Não queria que o vissem correr outra vez. Empregava todas as forças para não chorar.
Subitamente a sineta soou e todos correram para as aulas. O joelho sangrava, e Philip estava sujo e desgadelhado. Durante alguns minutos Mr. Rice não pôde dominar a classe. Estavam ainda excitados com a estranha novidade e Philip viu um ou dois colegas olhando-lhe furtivamente para os pés. Escondeu-os debaixo do banco.
(...)
E sentiu então a miséria da sua vida. Pareceu ao seu espírito infantil que aquele infortúnio não mais teria fim. Sem nenhuma razão especial recordou aquela manhã fria em que Ema o tirara da cama e o pusera junto da mãe. Não pensara mais nisso desde que tal acontecera, mas agora parecia-lhe sentir o calor do corpo da mãe e os braços dela envolvendo-o. De súbito, pareceu-lhe que a sua vida, a morte da mãe, a vida no vicariato e aqueles dois terríveis dias na escola, eram um sonho e que acordaria de manhã e estaria outra vez em casa. As lágrimas iam secando enquanto pensava nisto. Sentia-se tão infeliz que só podia ser um sonho, qua a mãe estava viva e que Ema subiria daí a pouco para ir deitar-se. Adormeceu.
Mas, quando na manhã seguinte acordou, foi ao toque da sineta e a primeira coisa que os seus olhos viram foi a cortina verde do seu compartimento.


Somerset Maugham, Servidão Humana




Somerset Maugham (1874-1965)
De pais ingleses, nasceu em Paris e faleceu em Nice. Ficou órfão aos dez anos e ficou ao cuidado de um tio que o pôs a estudar no King's School, de Canterbury. Estudou medicina e exerceu, abandonando depois esta profissão para se dedicar exclusivamente à escrita.
Obras: A Servidão Humana (uma espécie de autobiografia), Liza de Lamberth, Pontos de Vista, Bolos e Cerveja, O Resumo.

King's School, de Canterbury
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terça-feira, 8 de setembro de 2015


VIDA DE PRAIA



A concorrência dos banhistas na praia da Granja, cujo movimento pode ser atualmente orçado em cerca de trezentas pessoas, aumenta consideravelmente de ano para ano.
Uma companhia estabeleceu aí um hotel regularmente servido com quartos pelo preço de 1$200 reis, compreendido o serviço.
O clube, para o qual está sendo concluído um edifício especial com um salão para trezentas pessoas, restaurante, cocheiras, etc.,  acha-se estabelecido em uma casa provisória e é muito concorrido. Nele se dançou em muitas noites durante a temporada passada, fizeram-se concertos, e no dia em que ali passámos planeava-se a representação de um provérbio de Musset, uma sessão de quadros vivos extraídos de ilustrações de Gustave Doré, e um passeio à luz dos archotes na floresta.
Os banhistas da Granja conhecem-se todos, apertam-se todos a mão, frequentam as casas uns dos outros, vivem finalmente em família. É tão agradável isto que custa às vezes a suportar.
A gente acaba de chegar e de entrar em casa: calçou as suas chinelas, pôs-se em mangas de camisa, aninhou-se diante da sua mala, está tirando para fora as peúgas, tem as escovas no chão a um lado, os lenços de assoar a outro lado,  as camisas debaixo do braço... Nisto grandes risadas frescas e cristalinas entram como um enxame alegre e canoro: são as amáveis senhoras A... e as encantadoras meninas B..., que souberam da nossa chegada, que vêm fazer-nos uma surpresa, que nos trazem um ramalhete de rosas-chá, que têm uma truta na mesa, que nos esperam para almoçar no prédio ao lado, que aceitam uma garrafa do nosso Chably, que, em suma, começam a fazer-nos a honra de nos receber "em família".
A gente foge para o canto da cama, acalcanha como pode um par de sapatos, enfia à pressa uma jaqueta, ata um lenço no pescoço, corre ao chapéu de palha que está num tabuleiro da mala em cima de uma cadeira, e lança-se na vida "de família" a braços com uma garrafa de Chably e com receio de ter talvez, indiscretamente,  manifestado a cor dos seus suspensórios às amáveis senhoras A... e às encantadoras meninas B...
Depois às senhoras A... e às meninas B... reúne-se a interessante família C... que nos leva a jantar para casa dos hospitaleiros cônjuges D... Pela nossa parte procuramos pagar todas estas obrigações com a amabilidade, com a frase, com a anedota, com o dito, com todas as despesas de conversação, com todas as prodigalidades do espírito.
Todas aquelas pessoas nos retribuem na mesma moeda e são igualmente espirituosas connosco.
À noite estamos todos cansados da graça que tivemos, e mais ainda da graça que fomos obrigados a achar que tinham os outros!
Recolhemo-nos pensando nas meninas A..., que vimos nesse dia sem pó de arroz e que têm sardas quando estão nas praias; nas senhoras B..., que tínhamos por espirituosas nos salões de Lisboa e que são insignificantíssimas no tête-à-tête do campo quando lhes falta para discursar o escândalo do dia, a anedota do baile da véspera, a frase consagrada à crítica do último drama ou à música da última ópera; na interessante família C..., que mete os bicos dos pés para dentro; nos cônjuges D..., dos quais um troca o b pelo v e o outro tem só meia unha em um dos polegares.




Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal







Poema do jornal

O facto ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transformou em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve,

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

Carlos Drummond de Andrade

Poeta brasileiro

domingo, 6 de setembro de 2015

O Armário ou o Quarto Poema do Português Errante

Quando abrires o armário tem cuidado
mais que versos falhados cartões melancolia
pode sair de repente o que não esperas
aquela cujo sol de um outro tempo
quando olha para ti ainda te mata.

Por isso tem cuidado: não abras as gavetas
talvez Deus esteja escondido
ao lado do retrato da primeira comunhão.
Não abras: pode soltar-se
o espírito
podem sair os mortos todos
as bruxas o diabo as cartas o destino
e aquela parte da tua vida que não cabe
não cabe em nenhum verso.

E se o bafo soprar?
Não abras
não abras as gavetas.

Pode sair a tua guerra
os aerogramas
as caras escritas da cadeia
o amor o tempo as emboscadas
as longas noites de interrogatório
e também os duzentos metros livres
uma tarde de glória na Praia das Maçãs.
Este no pódio és tu.
Não queiras ver.
O que passou passou e não passou.

Deixa ficar o sol fechado no armário
o sol e a vida
não só poemas cadernos e retratos
mas também lâminas um pincel da barba
um pente
os pequenos nadas do teu quotidiano
antes do salto.
Tão inúteis agora.
Ninguém regressa à vida interrompida
mesmo que por dentro do armário
bata por vezes um coração.

Tem cuidado ao abri-lo.
Pode sair o que nunca imaginaste
um pedaço de Deus em papéis velhos
uma foto esmaecida
um amor rasgado
sabe-se lá o quê.
Alguém que não conheces
alguém que não sabes quem
alguém que aponta o teu retrato
e de repente diz: Ninguém.

Manuel Alegre, Livro do Português Errante
Publicações Dom Quixote

sábado, 5 de setembro de 2015

EU

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca! -
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca, Sonetos,
Círculo de Leitores



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

BAILE


   Anoitece devagar.


   No terreiro,
   Vão-se os pares
   Ajustando para a dança.


   - Quem é que baila comigo?


   Bailarei eu!,
   Grita uma linda Maria
   De rosto largo e trigueiro.


   E o harmónio,
   Murmurando,
   Dá início ao movimento
   Que é todo ligeiro e brando.


   Agora
   Apertam-se mais
   Os corpos
   Nas voltas lentas e bruscas
   da toada musical.


   Vá de roda, quem mais ama?
   Quem mais quer ao seu benzinho?
   Quem mais ama mais padece;
   Eu hei de amar poucochinho.


   Ao redor do bailarico
   Já se vai juntando gente
   Que andava um pouco dispersa;
   E a minha linda cachopa,
   Balanceada,
   Coleante,
   Parece dada a um sonho...
   - Nem eu sei o que ela sente!


   Paro. Mas o meu braço descansa
   Nas espáduas do meu par.


   A noite cobriu
   De sombras a natureza.
   Ah!, se eu pudesse cantar
   - E dar luz aos corações!


   Fico a pensar e a olhar...


   - Já se acenderam balões!


   Foi aquele moço! Aquele
   Que traz um cravo na boca
   - Escarlate
   Como a cinta
   Com que ele envolve os quadris.


   E a olhá-lo me ponho
   Na graça quente e flexível
   Dos seus aspetos viris.


   Ai, a vida!,
   É tão enganosa e fria,
   Tão outra da que nós temos,
   Que é bem melhor desejá-la
   Como coisa que flutua
   Para lá da que nós vemos...


   Vamos descansar ali...
   Deixemos...
   - Digo ao par que me acompanha.


   E ouvindo a voz do harmónio,
   E contemplando
   Esvaído
   Os pares em desalinho,
   Sinto a mesma sensação
   De ter bebido algum vinho.


António Botto


António Botto (17/8/1897 - 16/3/1959)
Poeta, cronista e dramaturgo português.


Pintura de Renoir
Baile de La Galette, 1876





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

DIREITOS IMPRESCRITÍVEIS DO LEITOR

1 - O direito de não ler.

2 - O direito de saltar páginas.

3 - O direito de não acabar um livro.

4 - O direito de reler.

5 - O direito de ler o que quer que seja.

6 - O direito ao bovarysme (doença textualmente transmissível).

7 - O direito de ler em qualquer parte.

8 - O direito de rebuscar.

9 - O direito de ler em voz alta.

10 - O direito de nos calarmos.

Daniel Pennac, Como um romance (texto da contracapa),
 Edições Asa


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CONCERTO

O arco
do violinista
apareceu de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...

E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de Carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
do acordo perfeito
final

Bravo! Bravo! Bis!

José Gomes Ferreira, Poesia IV

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

O SENTIDO DA PENÚRIA

Um pássaro desolador habita esta cidade
como uma vaga de poeira imobiliza
corpos vivos
Nesta cidade o deserto enxerta
sua semente e o sentido espiritual da penúria.
Agreste parece
quase uma mulher infecunda
aceita a fatalidade e rejeitada
para sempre

Luís Kandjimbo, Estrada da Secura

Autor angolano

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