domingo, 31 de maio de 2015

O PRIMEIRO DIA

de Sérgio Godinho

A princípio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Oiça esta música no Youtube

Amanhecer em Lisboa


sábado, 30 de maio de 2015

ENIGMA

Os que a ouvem quando a chuva
bate nos vidros - a chuva mais fria,
a de dezembro, ou a que desce
das montanhas, durante a noite - não
sabem por quem ela chama. Nos seus lábios
de musgo, os nomes confundem-se num
gemido antigo; e os que encostam o ouvido
aos vidros, interrogando o outro lado
da janela, nem assim distinguem
um pouco mais do que é lícito saber,
ao homem, do que se passa na terra.

Nuno Júdice
(n. 1949)

Poeta português

sexta-feira, 29 de maio de 2015

PERPLEXIDADE

   A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que os outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. "Não percebo", disse.
   Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno ecrã era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o ecrã onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande, a rugazinha e aquilo de não perceber. "Não percebo", repetiu.
   "O que é que não percebes?", disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
   "Isto, por exemplo."
   "Isto o quê?"
   "Sei lá. A vida.", disse a criança com seriedade.
   O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.
   Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
   "Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira."
   "Não percebo."
   "Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e... Dizem-nos para não matar, para não bater. Até não beber álcool, porque faz mal. E depois a televisão... Nos filmes, nos anúncios... Como é a vida, afinal?"
   A mãe largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil.
   "Ora vejamos,", disse ele olhando para o teto em busca de inspiração. "A vida..."
   Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara como vida normal e que a filha, aos 8 anos, recusava.
   "A vida...", repetiu.
   As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

Maria Judite de Carvalho, in O Jornal (02.10.1981)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

ALBERTO e SOFIA


   A violência que me apanhou não foi súbita. Houve um silêncio de atordoamento. Até que na intimidade dos meus ossos, dos meus nervos, uma raiva de dentes me endoideceu. Sofia estava na minha frente, frágil e intensa como uma fibra de nervo; e eu senti-a toda colada ao meu apelo, aniquilada, num esmagamento de mãos torcidas, de mastigação... Ergui-me trémulo, apoderei-me dela, cerrei-a violentamente no meu calor, tentei reduzi-la toda a esse ápice incandescente, onde a vida infinita se me centrava. Mas ela, com uma energia que era eficaz por me pôr diante de mim, por vir dela - um ser frágil -, repeliu-me com raios no olhar. Senti-me miserável como quem é apanhado nu: o que era do meu mistério, do meu segredo, ficara ali exposto, sem que Sofia me pagasse a minha revelação com a revelação de si própria. E reuni os meus papéis, preparando-me para sair. Ela então veio sobre mim, já humilde, curvada, pagando alguma coisa da minha humilhação com um pouco da sua fraqueza.
   - Nada aqui tenho a fazer - disse eu.
   - Fique, fique.
   - Não se divertiu bastante?
   Sofia então tomou-me bruscamente a cabeça nas mãos e deu-me um beijo rápido na boca. Mas eu sentia-me vexado. Tinha, aliás, a certeza de que, se tentasse de novo tomá-la, de novo havia de me repelir. Sentei-me, por fim, em silêncio, acendi um cigarro. Uma onda forte de chuva batia agora no pátio, irradiando a presença de tudo para uma desolação imemorial. Sofia acendeu também um cigarro; e a sala, abafada de fumo, começava a segregar um cheiro a vício noturno.
   - Que mais deseja dizer-me - perguntei.
  
Vergílio Ferreira, Aparição,
 Bertrand Editora

quarta-feira, 27 de maio de 2015

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado.)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca




terça-feira, 26 de maio de 2015

Madre, passou por aqui um cavaleiro
(poesia medieval)

Madre, passou por aqui um cavaleiro
E leixou-me namorada e com marteiro (1)
Ai, madre, os seus amores ei (2)!
Se me los ei (3)
Ca mh-os busquei,
Outros me lhe dei.
Ai, madre, os meus amores ei!

Madre, passou per aqui um filho d'algo
E leixou-me assi penada como eu ando!
Ai, madre, os seus amores ei!
Se me los ei,
Ca mh-os busquei,
Outros me lhe dei.
Ai. madre, os meus amores ei!

Madre, passou por aqui quen non passasse (4)
E leixou-me assi penada (5), mais leixasse!
Ai, madre, os seus amores ei!
Se me los ei,
Ca mh-os busquei,
Outros me lhe dei.
Ai. madre, os meus amores ei!

Fernan Rodriguiz de Calheiros (autor do século XIII)

(1) marteiro- martírio
(2) Estou apaixonada
(3) vv. 3-5 Ai, mãe, tenho o seu amor!/se o tenho,/é porque o procurei,/outro lhe entreguei,
(4) mais valia não ter passado
(5) desgostosa

Tapeçaria de Bayeux, representando a conquista de Inglaterra por Guilherme II
Século XII


segunda-feira, 25 de maio de 2015

AGUALBERTO SALVO-ERRO
 


   Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar a sua amada. Era uma moça muito nova que ele encontrara em outras terras. Trazia-a sempre no barco, em companhia das pescas. Fim do dia, antes de trazer o peixe à praia, meu pai encaminhava o barco para além do horizonte para ir deixar a moça. Quem seria tal rapariga e de onde era? Mistério que ficou e há de ficar com Agualberto.
   Nessa tarde, meu pai pescava próximo da nossa praia. O tempo estava encabrinhado. Eu apurava as vistas, tentando espreitar a figura dessa que acompanhava meu pai. Minha mãe virava as costas ao oceano.
   - Já viu o pai, lá?


Mia Couto, Mar me quer,
 Ed. Caminho (adaptado)



domingo, 24 de maio de 2015

A PRAIA É PORREIRA


   Na praia divertimo-nos à brava. Fiz imensos amigos: o Blaise, o Frutuoso e o Mamert. Este, então, é mesmo parvo! E o Ireneu, o Fabrício e o Cosme, além do Ivo, que não está de férias porque mora na região. Brincamos juntos, zangamo-nos, deixamos de nos falar, e é muitíssimo divertido.
   "Vai brincar com os teus amigos, mas porta-te bem", disse-me o meu pai esta manhã. "Eu vou descansar e apanhar um banho de sol." E começou a espalhar óleo pelo corpo todo e a dizer, no gozo:
   "Ah, só de pensar na malta que ficou lá no escritório!"
   Nós começámos a jogar com a bola do Ireneu. "Vão brincar mais longe", disse o meu pai, que tinha acabado de se besuntar, e zás!, a bola acertou-lhe em cheio na cabeça. O meu pai não gostou nada. Ficou zangado e deu um grande pontapé na bola, que foi cair dentro de água, muito longe. Um xuto do caraças! "Lá isso é verdade", disse o meu pai. O Ireneu foi a correr e voltou com o pai dele, que é muito alto e muito forte e que vinha com cara de poucos amigos.
   - Cá está ele! - disse o Ireneu apontando para o pai.
   - Foi você que atirou a bola do meu filho? - perguntou o pai do Ireneu ao meu pai.
   - Pois fui - respondeu o meu pai. - Mas tinha apanhado com ela na cara.


Sempé e Gosciny, As Férias do Menino Nicolau,
 Teorema 


sábado, 23 de maio de 2015

 


 Uma casa sem livros é como um corpo sem alma.

Marcus Tullius Cícero
(106 a.C.-43 a.C.)

Político, Orador e Filósofo
A PRESENÇA DOS LIVROS

   Gosto das casas com livros e da alma que elas alimentam. E falar de livros e lembrar a sua presença a ocupar amigavelmente todos os cantos das casas  onde eles existem. Não concebo a hospitalidade de uma casa sem a omnipresença dos livros. E não há prazer maior do que ir à estante e folhear um livro, que já não recordamos, do qual temos uma lembrança vaga ou que julgamos ter bem presente. No fundo, os livros fazem parte dos nossos afetos. No entanto, porque os livros vivem, ou não fossem a projeção permanente dos seus autores nas nossas vidas, é normal que quando os relemos, e julgamos conhecê-los, descubramos novas ideias, novas perspetivas, cambiantes diferentes como se fossem eternamente novos.
   As bibliotecas são sempre lugares iniciáticos, misteriosos, labirintos autênticos e inesgotáveis. (...) As minhas primeiras recordações da biblioteca fantástica de meu Avô têm a ver com as Enciclopédias e os Dicionários. Foi por aí que comecei, na tentativa, sei hoje que vã, de procurar as saídas dos labirintos. E lembro-me bem dos sábados, passados até que a luz se desvanecesse, a correr de Herodes para Pilatos nas várias entradas do velho "Dicionário de Portugal", a descobrir os vultos do nosso oitocentismo, a desvendar uma gigante Enciclopédia espanhola ou o "Larousse Illustré", a folhear os Atlas e os livros imponentes e pesados com as reproduções já um pouco desmaiadas das grandes obras de arte do mundo, nos grandes Museus, desde o Louvre aos Ofícios de Florença, passando pelo misterioso Hermitage... Eram horas esquecidas, em companhia da multidão de mortos que povoavam essa encruzilhada única que era a livraria de meu Avô (biblioteca e livraria eram sinónimos no vocabulário lá de casa).
   Penso que o vício dos livros veio no meu código genético. Nunca me senti bem sem eles. E quando há o vício de lidar com livros, tudo o que vem à rede é peixe. E, a pouco e pouco, depois da História, que havia para todos os gostos (o meu Avô era professor de História e Geografia), vinha o território da poesia e dos romances - dos romances, inevitavelmente. Entre duas revoltas e quatro viagens virtuais ou imaginárias (Odisseia, IlíadaEneida, Gulliver, Robinson e Júlio Verne) ia à poesia (Camões, Garrett, Antero, Cesário, Pessanha...) e aos romances, às coleções completas de Camilo e de Eça, sem restrições. Lá estavam todos. (...) Aos desaparecidos das enciclopédias juntava-se a outra multidão das personagens romanescas: Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, Zé Fernandes, Jacinto, Carlos, Maria Eduarda, Basílio, Luísa... (...)
   E fica uma enorme saudade dessas aventuras e de quando minha Mãe vinha dizer serenamente que era chegada a hora de voltar.

Guilherme de Oliveira Martins, "A presença dos livros", in Os Meus Livros, nº 63,
Maio de 2008 (texto adaptado)

Biblioteca da cidade de Estocolmo, na Suécia

sexta-feira, 22 de maio de 2015

QUEM A TEM...

Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena, Fidelidade (1956)



quinta-feira, 21 de maio de 2015

NAMORO

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus dentes... - marfim
Mandei-lhe esta carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÂO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato Cruz, Poemas, 1961
musicado por Fausto
cantado por Sérgio Godinho


quarta-feira, 20 de maio de 2015

DEBAIXO DAS ESTRELAS


Nós, ciganos, temos uma só religião: a da liberdade.
Em troca desta renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à glória.
Vivemos cada dia como se fosse o último.
Quando se morre, deixa-se tudo: um miserável carroção como um grande império.
E nós cremos que nesse momento é muito melhor ser cigano do que rei.
Nós não pensamos na morte. Não a tememos - eis tudo.
O nosso segredo está no gozar em cada dia as pequenas coisas que a vida nos oferece e que os outros 
   homens não sabem apreciar: uma manhã de sol, um banho na torrente, o contemplar de alguém que
   se ama.
É difícil compreender estas coisas, eu sei.
Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sob as estrelas.
Contam-se estranhas histórias sobre os ciganos.
Diz-se que lemos nas estrelas e que possuímos o filtro do amor.
As pessoas não acreditam nas coisas que não sabem explicar-se.
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar as coisas em que acreditamos.
A nossa vida é uma vida simples, primitiva, basta-nos ter por teto o céu, um fogo para nos aquecer e
   as nossas canções quando estamos tristes.


Vittorio Mayer Pasqualle Spatzo
(Poeta Cigano)


Dança Cigana

terça-feira, 19 de maio de 2015

Nixon, Frei e Pinochet
até hoje, até este amargo
mês de setembro
do ano de 1973
com Bordaberry, Garrastazu e Banzer
hienas vorazes
da nossa história, roedores
de bandeiras conquistadas
ao preço de tanto sangue
de tanto fogo
atascados nos seus latifúndios
depredadores infernais
sátrapas mil vezes vendidos
mil vezes vendilhões, por conta
dos lobos de New York.
Máquinas esfomeadas de dólares,
manchados pelo sacrifício
dos seus povos martirizados,
negociantes prostituídos
do ar e do pão latino-americano
fossas fedorentas, carrascos, matilha
de caciques patibulares
sem mais que a tortura
e a fome do povo sob o chicote.

Pablo Neruda - último poema



PEDRO DA MAIA VAI CASAR



Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um vestido cor-de-rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os joelhos de Pedro, sentado ao seu lado: as fitas do seu chapéu, apertadas num grande laço que lhe enchia o peito, eram também cor-de-rosa: e a sua face, grave e pura como um mármore grego, aparecia realmente adorável, iluminada pelos olhos de um azul sombrio, entre aqueles tons rosados. No assento defronte, quase todo tomado por cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéu panamá, calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda-sol entre os joelhos. Iam calados, não viram o mirante; e, no caminho verde e fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chávena de café junto aos lábios, de olho esgazeado, murmurando:
- Caramba! É bonita!
Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo – como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas.
O Outono passou, chegou o Inverno, frigidíssimo. Uma manhã, Pedro entrou na livraria onde o pai estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a bênção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se bruscamente para ele:
- Meu pai – disse, esforçando-se por ser claro e decidido – venho pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.
Afonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e numa voz grave e lenta:
- Não me tinhas falado disso… Creio que é a filha de um assassino, de um negreiro, a quem chamam também a «negreira» …
- Meu pai!...
Afonso ergueu-se diante dele, rígido e inexorável como a encarnação mesma da honra doméstica.
- Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer, quase em soluços:
- Pois pode estar certo, meu pai, que hei-de casar!
Saiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para que o pai ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao Hotel Europa.
Dois dias depois Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nos olhos, contando que o menino casara nessa madrugada – e segundo lhe dissera o Sérgio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Itália.
Afonso da Maia sentara-se nesse instante à mesa do almoço, posta ao pé do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se num vaso do Japão, à chama forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o número de «Grinalda», jornal de versos que ele costumava receber… Afonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu guardanapo.
- Já almoçou, Vilaça?
O procurador, assombrado daquela serenidade, balbuciou:
- Já almocei, meu senhor…
Então Afonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
- Pode tirar dali esse talher, Teixeira. Daqui por diante há só um talher à mesa… Sente-se, Vilaça, sente-se.

Eça de Queirós, Os Maias,
 Ed. Livros do Brasil


Guy Constantin, Trois Femmes dans une Calèche
A PAIXÃO DO TIO JOÃO



   Vida feliz a do Tio João Abade daí por diante. Embora afeito a trabalhar, como tinha posto o fecho no coruto das suas ambições, já o labor da criatura era mais lento e as noites mais bem dormidas. Homem esperto, mas iletrado, resolveu daquela idade começar a ler livros e aprender ainda alguma coisa. Homem prático até então, foram os poetas, no tarde, os seus autores favoritos. Leu e releu o Camões, devorou-lhe os sonetos. Foi-se também ao Bocage e derreteu-o como açúcar. A João de Deus fez outro tanto. Poetas, dizia, são os poetas do amor.. Os outros gastaram tinta mal gasta. Camões, Bocage e João de Deus sim, são os meus homens. Só eles sentiram e cantaram o amor como é devido. O resto...
   Esta mania lírica serôdia deu que falar no povoado. Os filhos do ancião sentiram-se muito de semelhante relouquice, principalmente as professoras, que deram em beatas. Pediram ao pai que trocasse os livros de versos por livros de devoção.   Resposta dele: cada coisa tem o seu lugar, minhas burras. A poesia também é religião...
   Com isto as calava, mas, o melhor ainda não se contou. Depois de ler os versos, o velho apaixonou-se pelo nascer do sol e pelos errores da lua sobre os montes. Erguia-se de noite para surpreender os efeitos do luar nas águas e nas árvores. Fez-se tão poeta, que acabou por se enamorar também de uma menina, à falta de outra, uma borboleta das da sua aldeia. Era uma alta, já trintona e muito ruiva. Mal deu tento da paixão do velho, logo cuidou de o benzer com a fralda. Mostrou-se também apaixonada por ele, fez-lhe mimos que nunca a defunta mulher, Deus a tivesse lá,  fora capaz de lhe fazer. A ruiva era uma santa...
   As filhas professoras quiseram morrer quando viram o velho neste apuro. Os filhos também intervieram com o seu conselho brando, benévolo, próprio de homens escorreitos. Correu-os o velho, dizendo a todos: ide bugiar... Sei o que faço. Não preciso de tutores. Governai-vos, que eu também me governo.
   Cada vez mais louco, o velho continuou na mesma vida. Ensinou a ruiva a ler sem erros, mas a ruiva não se apaixonou de mais pelos poetas. Preferiu a prosa. Como viuvasse em muito boa idade um lavrador do sítio, homem de teres e sem filhos, mandou convidar a ruiva para lhe governar a casa. A ruiva aceitou logo. Nem adeus disse ao Tio João Abade. O pobre ficou como cobra que perdeu a peçonha. Esmaeceram-lhe as cores do rosto, ficou de todo assombrado. As filhas, é claro, deram graças a Deus do sucedido. Fizeram festas ao velho para o consolar, mas ele repeliu-as desabrido. Chegou a dar um pontapé no rabo de uma delas. Coiras! Deixai-me!
   Entristeceu de mais. Em dez dias, envelheceu dez anos. Deixou de comer. Pôs-se na espinha. Só bebia água, muita água fria. Apanhou um catarral. Depois caiu de cama com muita falta de ar, febre a quarenta e muito roufenho. Caído de cama para não mais se erguer, ouviu ou sonhou que a ruiva passava na rua para a fonte. Ergueu-se e deu uma corrida até ao janelo. Bateu com a cabeça no vidro, ficou muito atordoado e perdeu os sentidos. Morreu...
   O velho estava no celário. O filho médico explicava aos amigos o mecanismo da morte de seu pai. Uma broncopneumonia, delírio, a fuga, o traumatismo, a síncope, a morte. Mas, o irmão padre, homem de rasgo, atalhou-o logo:
   - Cala-te aí, Julião. O nosso pai morreu de amor.




João de Araújo Correia, Contos Bárbaros
(Escritor português 1899-1985)



  

segunda-feira, 18 de maio de 2015

 Camões

SAUDADE MINHA

Mote

Saudade minha.
Quando vos veria?

Voltas

Este tempo vão,
Esta vida escassa,
Para todos passa,
Só para mim não.
Os dias se vão,
Sem ver este dia,
Quando vos veria.

Vede esta mudança
Se está bem perdida:
Em tão curta vida,
Tão longa esperança!
Se este bem se alcança,
Tudo sofreria,
Quando vos veria.

Saudosa dor,
Eu bem vos intendo;
Mas não me defendo,
Porque ofendo Amor.
Se fosseis maior,
Em maior valia
Vos estimaria.

Minha saudade.
Caro penhor meu,
A quem direi eu
Tamanha verdade?
Na minha vontade,
De noite e de dia,
Sempre vos teria.

Luís de Camões

Poeta português do século XVI

Spring (Study of Jeanne Demarsy) - Edouard Manet
Édouard Manet, Spring, 1882

DORA


   Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser  totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, ele então as ofereceu a Dora. Assim mesmo, estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fosse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.
   No dia em que, vestida como um garoto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:
   - Tu 'tá gozada...
   - Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
   - Não 'tá direito que vocês me dê de comer todo o dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.
   O assombro dele não teve limites:
   - Tu quer dizer...
   Ela o olhava calma, esperando que ele concluísse a frase.
   - ...que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
   - Isso mesmo. - Sua voz estava cheia de resolução.
   - Tu endoidou...
   - Não sei por quê.
   - Tu não 'tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.
   - Como se vocês fosse tudo uns homão. É tudo uns menino.
   Pedro Bala procurou o que responder:
   - Mas a gente veste calça, não é saia...
   - Eu também. - E mostrava as calças.
   De momento ele não encontrou nada que dizer. Olhou para ela pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo, falou:
   - Se a polícia pegar a gente, não tem nada. Mas se pegar tu?
   - É igual.
   - Te metem no Orfanato. Tu nem sabe o que é...
   - Tem nada não. Eu agora vou com vocês.
   Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que ele estava preocupado. Por isso ainda disse:
   - Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
   - Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não aguenta um empurrão...
   - Posso fazer outras coisas.
   Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem que tivesse medo dos resultados.


Jorge Amado, Capitães da Areia
(autor brasileiro)

Pintura de Louis Toffoli

domingo, 17 de maio de 2015

O SUL DE ÁFRICA



   O ponto mais a sul de África não é o Cabo da Boa Esperança.
   Os habitantes da vizinha Cidade do Cabo têm de explicar isto frequentemente aos visitantes. O ponto mais a sul do continente é o bem famoso Cabo das Agulhas, 150 quilómetros a sudeste do Cabo da Boa Esperança.
   Bartolomeu Dias (1451-1500), o navegador português que descobriu o Cabo da Boa Esperança e se tornou o primeiro europeu a fazer a arrepiante viagem em redor da base de África, apelidou-o de Cabo das Tormentas. O rei D. João II de Portugal (1455-1495), a quem prestava contas, empenhado em encorajar outros a adotar esta nova rota comercial, rebatizou-o diplomaticamente de Cabo da Boa Esperança.
   O Cabo das Agulhas é igualmente traiçoeiro. Foi assim batizado devido às rochas e aos corais afiados que infestam as suas águas atroadoras. A cidade alberga um museu do naufrágio que evoca "um cemitério de barcos".
   O Cabo das Agulhas é o ponto oficial de divisão entre os oceanos Atlântico e Índico. Se navegasse ao largo, ao longo da costa relativamente discreta e gradualmente curva, provavelmente nem sequer o veria, a não ser por causa do dólmen que assinala a exata localização da ponta.


John Lloyd, John Mitchinson, O Segundo Livro da Ignorância Geral,
Ideias de Ler, 2011 (adaptado)
Cidade do Cabo, África do Sul

sábado, 16 de maio de 2015

ROSA

Não ascendo a rosa.
Fico por espinho, crosta, remorso.
Lição do gesto
de quem retira a mão,
gotejando sangue,
 em castigo
de querer possuir
a beleza da flor.

Me sufoca o ser, 
me assusta o querer ser.

O que mais quero ter
é a impossibilidade do ter.

Mia Couto, 2007, idades cidades divindades,
 Lisboa, Caminho

Salvador Dalí, Rosa Meditativa, 1958
NEOLOGISMO

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais quotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira, Belo Belo, 1947

Escritor brasileiro 1886-1968




VIAJAR



   Repito sempre que aprendi a viajar com a minha mãe, graças a uma simples frase dela, dita no momento exato: "Miguel, viajar é olhar."
   Nunca me esqueci. Da frase. Do seu significado. Da obrigatoriedade de olhar. Suponho que é assim que uma mãe deve educar um filho e ensiná-lo a viajar.
   Eu viajei muito pouco com ela. Imagino que, pelo facto de ser jornalista e na altura viajar constantemente, ela tenha achado que eu podia voar sozinho. Mas, em cada viagem minha, exigia sempre que eu lhe contasse tudo à chegada e nunca dispensava - quando, antes de partir, me ia despedir dela - um sinal da cruz, que me fazia na testa. Depois, quando eu voltava, ia jantar à casa da Graça e ela não queria ver fotografias, queria apenas que lhe contasse o que tinha visto. Nunca soube que fotografasse em viagem, limitava-se a olhar, para depois guardar e poder contar: guardar para ela, contar para os outros. O mesmo exigia de mim e eu aprendi assim que um viajante é o que guarda nos olhos o que viu e transmite por palavras o que os ouros não viram.


Miguel Sousa Tavares, Não se Encontra o que se Procura,
Clube do Autor, 2014 (excertos) 


sexta-feira, 15 de maio de 2015

O PRIMEIRO DIA


   Quando finalmente se decidiu a sair da janela, já dele não havia nem o rasto. O barulho da porta a fechar-se e o som dos seus passos pela escada abaixo estavam ainda dentro dos seus ouvidos. Quando ela era pequena, gostava às vezes de bater ao de leve com a ponta do garfo no copo, e ouvir aquele som fininho que parecia não acabar nunca. Então a mãe ralhava, porque o copo era de cristal e podia partir-se com aquelas patetices. Patetice era agora ela recordar-se dessas coisas, tão a despropósito, onde já lá vão os copos de cristal, meu Deus!, só porque o silêncio misturado com o barulho da porta a fechar-se parecia também não acabar nunca, fininho, fininho, a enterrar-se no coração. Olhou para o relógio. Como preencher o vazio daquela manhã diferente, subitamente imensa? Pegou no telefone, a vontade de contar a toda a gente, de telefonar para toda a parte.
   A amiga não se admirou sequer da hora matinal, parecia esperar até o telefonema. Perguntou apenas:
   - Então?
   - Lá foi - disse ela. - Lá foi. Sem uma palavra, sem se voltar na escada, sem um aceno.
   (...) Se ao menos ela tivesse um emprego, um lugar onde estar a horas certas logo pela manhã, tudo seria diferente, as horas teriam decerto menos minutos, os minutos menos segundos. Assim, era um inferno: os olhos pregados naquela porta, naquela janela.


Alice Vieira, Bica Escaldada,
 Casa das Letras



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quinta-feira, 14 de maio de 2015

A VERDADE E AS VERDADES


   Jorge cumpriu uma missão diabólica porque amava de modo tão lúbrico a sua verdade que ousava tudo com a condição de destruir a mentira. Jorge temia o segundo livro de Aristóteles porque ele ensinava talvez a deformar deveras o rosto de toda a verdade, a fim de que não nos tornássemos escravos dos nossos fantasmas. Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprender a libertar-nos da paixão insana pela verdade.
   - Mas, mestre - arrisquei dolente -, vós agora falais assim porque estais ferido no mais profundo da vossa alma. Porém há uma verdade, aquela que descobristes esta noite, aquela a que chegastes interpretando as pistas que lestes nos últimos dias. Jorge venceu, mas só vencestes Jorge, porque pusestes a nu a sua trama...
   - Não havia uma trama - disse Guilherme -, e eu descobri-a por engano.
   A afirmação era auto contraditória, e não compreendi se verdadeiramente Guilherme queria que o fosse.
   - Mas era verdade que as pegadas sobre a neve remetiam para Brunello - disse eu -, era verdade que Adelmo se tinha suicidado, era verdade que Venâncio não se tinha afogado no cântaro, era verdade que o labirinto era organizado tal como o havíeis imaginado, era verdade que se entrava no finis Africae tocando a palavra quator, era verdade que o livro misterioso era de Aristóteles... Poderia continuar a enumerar todas as coisas verdadeiras que vós haveis descoberto valendo-vos da vossa ciência...
   - Nunca duvidei da verdade dos signos, Adso, são a única coisa de que o homem dispõe para se orientar no mundo. Aquilo que eu não compreendi foi a relação entre os signos. Cheguei até Jorge através de um esquema apocalíptico que parecia reger todos os delitos, e no entanto era casual. Cheguei a Jorge procurando um autor de todos os crimes, e descobrimos que cada crime tinha no fundo um autor diferente, ou então nenhum. Cheguei a Jorge perseguindo o desígnio de uma mente perversa e raciocinante, e não havia desígnio algum, ou melhor,  mesmo Jorge tinha sido dominado pelo próprio desígnio inicial, e depois tinha-se iniciado uma cadeia de causas concomitantes, e de causas em contradição entre si, que tinham procedido por conta própria, criando relações que não dependiam de desígnio algum. Onde está toda a minha sabedoria? Comportei-me como um obstinado, perseguindo um simulacro de ordem, quando bem devia saber que não há uma ordem no universo.
   - Mas imaginando ordens erradas encontrastes mesmo assim alguma coisa...
   - Disseste uma coisa bela, Adso, agradeço-te. A ordem que a nossa mente imagina é como uma rede, ou uma escada, em que se constrói para alcançar qualquer coisa. Mas depois deve-se deitar fora a escada, porque se descobre que, se acaso servia,  era privada de sentido. Er muoz gelichesame die Leiter abewerfen, sô Er na ir ufgestigen ist... Diz-se assim?
   - Soa assim na minha língua. Quem o disse?
   - Um místico da tua terra. Escreveu-o em qualquer parte, não me recordo onde. E não é necessário que alguém um dia encontre esse manuscrito. As únicas verdades que servem são instrumentos para deitar fora.
   - Vós não podeis censurar-vos nada, fizestes o melhor que podíeis.
   - É o melhor dos homens que é pouco. É difícil aceitar a ideia que não pode haver uma ordem no universo, porque ofenderia a livre vontade de Deus e a sua omnipotência. Assim, a liberdade de Deus é a nossa condenação, ou pelo menos a condenação da nossa soberba.


Umberto Eco, Nome da Rosa

quarta-feira, 13 de maio de 2015

UMA MULHER QUASE NOVA...

Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio, O Riso Dissonante


Pintura de Toulouse Lautrec



Dr. rrrrr!


   Naquele Reino da Comarca dos Doutores, o dê-erre, Dr, R-D, Herr D, Senhor D or Senhor Dom, distinguia-se à légua dos restantes mexilhões pelo porte de todo contentinho com a sua pessoa, pelos tons escuros com que revestia o corpo e pelo cantar inconfundível, que era exdrúxulo e gargarejado.
   Filho e neto de camponeses que enriqueceram e que em ricos foram e em ricos seriam sempre camponeses, este exemplar preferia o habitat das secretarias e dos purgatórios do carimbo onde tudo obedece à ordem natural dos impostos. Deslocava-se com solenidade difusa à custa do canudo de bacharel que manobrava como um apêndice perfurador para abrir caminhos nos subterrâneos dos decretos e que ao mesmo tempo lhe servia de membrana extensora do aparelho bucal. Ávido e depredador, nisso ninguém o batia. Contudo, dotado de apreciável sentido coletivo, observam os especialistas - e não admira: na luta contra a maioria dos mexilhões vulgaris Sp, o dê-erre fazia barreira ao lado dos restantes irmãos da espécie, espadeirando com o canudo do diploma e entoando decretos até à confusão.




José Cardoso Pires, 1988. A República dos Corvos,
 Dom Quixote

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terça-feira, 12 de maio de 2015

UMA RAPARIGA



   Sou uma rapariga, e uma rapariga deve caminhar depressa, com a cabeça inclinada para o chão, como se estivesse a contar os passos. Não deve erguer o olhar nem desviá-lo para a direita ou para a esquerda enquanto caminha, porque se os seus olhos se cruzarem com os de um homem, toda a aldeia lhe chamará charmuta*.
   Se uma vizinha já casada, uma velha ou quem quer que seja a avistar sozinha numa ruela, sem estar acompanhada pela mãe ou pela irmã mais velha, sem as ovelhas, sem um molho de feno ou um carrego de figos, também lhe chamarão charmuta.
   Uma rapariga tem de estar casada para poder olhar em frente, entrar na loja do comerciante, depilar-se ou usar joias.
   Quando uma rapariga ainda não casou, a partir dos catorze anos, como a minha mãe, a aldeia começa a troçar dela. mas, para poder casar, uma rapariga tem de esperar pela sua vez na família. Primeiro a mais velha e depois as outras.
   Há muitas raparigas na casa do meu pai. Quatro, todas em idade de casar. Há também duas meias-irmãs, filhas da segunda mulher do nosso pai. Ainda são crianças. O único homem da família, o filho adorado por todos, o nosso irmão Assad, nasceu, triunfalmente, no meio de todas estas raparigas. Foi o quarto. Eu sou a terceira.
   O meu pai, Adnan, está desgostoso com a minha mãe, Leila, que lhe deu tantas filhas. Também está descontente com a outra esposa, Aicha, que só lhe deu raparigas.
   Noura, a mais velha, casou tarde, quando eu tinha cerca de quinze anos. Kainat, a segunda rapariga, não é requestada por ninguém. Ouvi dizer que um homem falou em mim ao meu pai, mas tenho de aguardar o casamento de Kainat antes de poder pensar no meu. (...)
   Não conheci folguedos nem prazeres tanto quanto a minha mente é capaz de se lembrar. Na minha aldeia nascer rapariga é uma maldição. O único sonho de liberdade é o casamento. Abandonar a casa do pai em troca da casa do marido e não voltar nunca mais, mesmo que se seja espancada. Quando uma rapariga casada regressa à casa do pai é uma infâmia. Não deve pedir proteção fora da sua própria casa e é dever da família levá-la de novo para o lar.
   A minha irmã foi espancada pelo marido e arrastou consigo a vergonha ao vir queixar-se.
    Ela tem sorte em ter um marido. Eu sonho com isso.




Souad, Queimada Viva,
 Círculo de Leitores

* charmuta: prostituta


segunda-feira, 11 de maio de 2015

LISBOA, UMA ESTRANHA CIDADE


   Lisboa é uma capital remendada por quem não sabe, e a que só o sol confere uma certa mediocridade aceitável. Sem ele o dia a dia seria menos atraente. Não por causa do seu tecido velho, ou melhor, antigo, e até agradável, e até bonito, às vezes, mas dos remendos de pano novo em folha, grosso, agressivo, luxuoso mas, mais frequentemente, novo rico. Vamos por uma rua fora, uma rua de sempre, desbotada, sensata e lá está ele, o remendo cheio de cores novas, de vidraças enormes, de escritórios e empresas, de porta majestosa com porteiro fardado e plantas verdes. Às vezes acontece passarmos por uma rua onde não passávamos há um, há dois anos, e onde havia um bonito prédio antigo, com loja, com gato à janela, com varanda florida, e já não há prédio, só remendo gritante, violento, deserto à noite. É uma estranha cidade, Lisboa, e, por este andar, um dia, lá adiante, o Castelo dos mouros e os Jerónimos e a Torre de Belém serão nela coisas anacrónicas e talvez, quem sabe, consideradas ladras de espaço útil. Eis-nos, pois, numa cidade remendada que vai expulsando de si os habitantes antigos e que expulsará mais tarde outros habitantes que serão antigos, e outros e outros,  até à perfeição. Talvez venha a ser um dia, se a bomba ou o míssil o consentirem, a primeira capital sem moradores deste mundo.


Maria Judite de Carvalho, Este Tempo,
Editorial Caminho

domingo, 10 de maio de 2015


E TUDO ERA POSSÍVEL


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido


E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer


Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo, Homem de Palavra(s), 3ª edição, Presença, 1999





na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, 6ª edição,
Quasi, 2007


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sábado, 9 de maio de 2015


O VELHO E O PERDIGOTO



   Andava naquelas paragens um velho muito velho que corria atrás dum perdigoto sem conseguir deitar-lhe a mão.
   Desde o pinhal, onde o tinha levantado, que o pobre homem vinha numa perseguição encadeada, desejoso de agarrar o pássaro e o comer. (...)
   Ora se a caça ia derreada o caçador não o ia menos, e o velho entendia que isso representava uma vergonha para ele e para o seu brio de homem. Mas era assim. Estava tão quebrado, com tanta fadiga, que as pernas mal lhe podiam com o corpo, tropeçando a cada passo para grande espanto seu.
   "O que eu envelheci do outro ano para cá. O que eu envelheci."
   Corria descalço. Em cada mão levava a sua pedra, mas, uma vez no areal, decidiu guardá-las para se defender de qualquer rapazolas que lhe quisesse disputar a caça. (...)
   No areal não havia o perigo de perder o pássaro; tanto mais que o vento o empurrava no sentido do mar. Só temia que, na ânsia da fuga, a avezita se deixasse levar até ao precipício e se atirasse dali abaixo, confiada nas suas asas tenras.
   Nada mais natural, nada mais natural. Mas até lá contava com a maresia e com a vizinhança dos pássaros do oceano para que o perdigoto não se aventurasse muito para diante. A algazarra das gaivotas, dos maçaricos e das galhetas amedronta as aves da terra e o cheiro do mar entontece-as. Por isso, raro era o ano em que o velho não apanhava no descampado a sua peça de caça, perdiz ou até mesmo galinhola de voo cambalhota.
   O pior era que esse perdigoto estava a deixar-se ir muito para as falésias. Havia de arrepender-se quando já não tivesse nem força nem salvação.
   E foi o que aconteceu. Sacudindo as asas, ensaiou a primeira arremetida contra o vento, mas em vez de avançar a direito só conseguiu dar uma curva e vir ter pouco mais ou menos ao mesmo sítio. Inquieto, aos saltitos, tornou à carga. Pior: rolou pelo chão, mais cansado ainda. Não soltava um pio, um queixume, nada.
   O velho foi-se chegando a passos cautelosos, guardando sempre uma boa distância.
   "Não to dizia? Agora, ou eu ou o mar."
   Admirava-se de que um ser tão pequeno já tivesse o pressentimento da morte e tanta coragem para a enfrentar. Uma criança comparada com aquilo não discorria uma décima parte.
   "Vamos, dá outra cabeçada no vento, que é para eu te apanhar por trás, como dantes fazia. Deus permita que eu apanhe este como apanhei os mais e o asse numa esteva com duas pedras de sal. Olá. Já pedes paz?"
   O perdigoto, batido por um golpe de vento, caíra de patas para o ar contra um pé de hortelã brava. Estava como morto, a aragem soprava-lhe a penugem do peito. De vivo só tinha o bico aberto e os olhitos a luzirem.
   "Força", gritou o velho, caindo-lhe em cima com o corpo, pedras e alma. mas, já na confusão do assalto, o pássaro salvou-se e ele aí vai aos trambolhões, de mistura com o vento, direito ao mar.
   Correu-lhe no encalço. Em menos de nada, velho e perdigoto encaravam-se, tolhidos de medo, na ponta duma falésia. (...)
   Um arranco, um esticar de braços, e teria a caça segura. Mas só a ideia de se tentar causava-lhe arrepios. (...)
   Estava na proa duma rocha espetada no ar, sem dois dedos de espaço firme a cada lado do corpo. Um pequeno balanço para a esquerda ou para a direita, e adeus velho. (...)
   "A única coisa que me resta", principiou em voz alta; mas deteve-se e o resto disse-o em pensamento: "é recuar". O perdigoto que se arranje como puder. Duma maneira ou doutra estava condenado. Se não fosse eu que o apanhasse seria o mar, se não fosse o mar seria eu." (...)
   Ia ele a recuar para terra, palmo a palmo, como mandava o bom senso, e passa-lhe uma coisa pela cabeça, varre-lhe o entendimento por completo, e ele aí vai de braços estendidos, corpo em prancha, lançado num salto outra vez para a frente.
   Ficou por milagre à pontinha do rochedo, pendurado de cabeça para baixo e sem pinga de sangue. Mas reparem: com o perdigoto na mão. E agora?


José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
Moraes Editores






Perdiz e os seus perdigotos





sexta-feira, 8 de maio de 2015

"NO TEMPO DA FROR*"



   O baile, enfim, ali armado a rigor, e os senhores da cidade sem virem! Ouviu-se rodar um trem. Manuel Bana furou por entre os convidados, como se estivesse numa venda e fosse apartar uma briga. Mas entrou meio murcho, seguido de Damião Serpa e do tenente Espínola à paisana. João Garcia mostrara muita pena, mas estava de serviço (...).
   A Rosa Bana fora buscar Margarida à cadeira do pé do altar, que era o lugar de respeito. Margarida abria os braços escusando-se, como quem não tem consigo a prenda que procuram; alegava um começo de rouquidão que apanhara na tarde do bezerro, quente das papas de milho.
   - Não se faça rogada, Bidinha!
   Aquele argumento venceu-a; encostou a cadeira, tomou o lugar da namorada do Chico Bana em frente dele. Damião Serpa substituíra um rapaz das Funduras por baixo do braço da viola, e deitou a cantiga a propósito, que agradou logo muito:




     Boa noite digo a todos,
     Que eu tive ensino de mãe:
     Viva a dona desta casa
     E estas meninas também.



   Então Margarida, aproveitando a pausa que o Feijão fizera no baile para apertar as cravelhas da viola, agarrou Manuel Bana, que se fora plantar desconsolado e de mão no batente do forro; trouxe-o para o terreiro entre risos, quase arrastado, e encaixou-o no lugar do sobrinho, no meio das palmas e dos vivas dos convidados divertidos. O Feijão mandou "rasgar":




     Eu trago terra de longe
     Para fazer um jardim,
     Para plantar este cravo
     Que está longe de mim.



   A voz de Margarida tinha um timbre claro naquela ironia do "jardim", do "cravo" que parecia crescer do bigode de Manuel Bana e florir-lhe os olhos velhos, rodeados de preguinhas velhacas. Todo ele ria, fazia "que não" com a cabeça, parecia procurar caminho para se esgueirar dali:
   - Olha a alembrança da menina! Fazer pouco de um home... Um velho, cos dentes escabaçados! - E alargava a mão na cara encovada, no seu gesto manhoso.
   Mas o seu olhar fino e doce interrogava a cabeça de Margarida, meio pendida no ombro, a expressão longínqua e iluminada da testa e do cabelo um pouco desmanchado, que parecia seguir o rasto da cavalgada que se perde no pó e deixa os campos conforme a noite desenha as árvores e as lavas, por cima dos buracos dos grilos.




Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal,
 Bertrand







* Perífrase muito usada nas cantigas de amigo da lírica trovadoresca (Idade Média) para designar a primavera e o incitamento ao amor que esta estação supostamente provoca.

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

LÁGRIMA DE PRETA


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.


Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:


nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


António Gedeão, Máquina de Fogo




segunda-feira, 4 de maio de 2015

ENDECHAS


a uma cativa com quem
andava d'amores na India,
chamada Bárbora


Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.


Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.


Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbora não.


Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva.


Luís de Camões, Poesia Lírica




domingo, 3 de maio de 2015

POEMA À MÃE

No mais fundo de ti,
eu seu que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa:
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
                   Era uma vez uma princesa
                no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de AndradeOs Amantes Sem Dinheiro

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Almada Negreiros, Maternidade

aternidade