O VELHO E O PERDIGOTO
Andava naquelas paragens um velho muito velho que corria atrás dum perdigoto sem conseguir deitar-lhe a mão.
Desde o pinhal, onde o tinha levantado, que o pobre homem vinha numa perseguição encadeada, desejoso de agarrar o pássaro e o comer. (...)
Ora se a caça ia derreada o caçador não o ia menos, e o velho entendia que isso representava uma vergonha para ele e para o seu brio de homem. Mas era assim. Estava tão quebrado, com tanta fadiga, que as pernas mal lhe podiam com o corpo, tropeçando a cada passo para grande espanto seu.
"O que eu envelheci do outro ano para cá. O que eu envelheci."
Corria descalço. Em cada mão levava a sua pedra, mas, uma vez no areal, decidiu guardá-las para se defender de qualquer rapazolas que lhe quisesse disputar a caça. (...)
No areal não havia o perigo de perder o pássaro; tanto mais que o vento o empurrava no sentido do mar. Só temia que, na ânsia da fuga, a avezita se deixasse levar até ao precipício e se atirasse dali abaixo, confiada nas suas asas tenras.
Nada mais natural, nada mais natural. Mas até lá contava com a maresia e com a vizinhança dos pássaros do oceano para que o perdigoto não se aventurasse muito para diante. A algazarra das gaivotas, dos maçaricos e das galhetas amedronta as aves da terra e o cheiro do mar entontece-as. Por isso, raro era o ano em que o velho não apanhava no descampado a sua peça de caça, perdiz ou até mesmo galinhola de voo cambalhota.
O pior era que esse perdigoto estava a deixar-se ir muito para as falésias. Havia de arrepender-se quando já não tivesse nem força nem salvação.
E foi o que aconteceu. Sacudindo as asas, ensaiou a primeira arremetida contra o vento, mas em vez de avançar a direito só conseguiu dar uma curva e vir ter pouco mais ou menos ao mesmo sítio. Inquieto, aos saltitos, tornou à carga. Pior: rolou pelo chão, mais cansado ainda. Não soltava um pio, um queixume, nada.
O velho foi-se chegando a passos cautelosos, guardando sempre uma boa distância.
"Não to dizia? Agora, ou eu ou o mar."
Admirava-se de que um ser tão pequeno já tivesse o pressentimento da morte e tanta coragem para a enfrentar. Uma criança comparada com aquilo não discorria uma décima parte.
"Vamos, dá outra cabeçada no vento, que é para eu te apanhar por trás, como dantes fazia. Deus permita que eu apanhe este como apanhei os mais e o asse numa esteva com duas pedras de sal. Olá. Já pedes paz?"
O perdigoto, batido por um golpe de vento, caíra de patas para o ar contra um pé de hortelã brava. Estava como morto, a aragem soprava-lhe a penugem do peito. De vivo só tinha o bico aberto e os olhitos a luzirem.
"Força", gritou o velho, caindo-lhe em cima com o corpo, pedras e alma. mas, já na confusão do assalto, o pássaro salvou-se e ele aí vai aos trambolhões, de mistura com o vento, direito ao mar.
Correu-lhe no encalço. Em menos de nada, velho e perdigoto encaravam-se, tolhidos de medo, na ponta duma falésia. (...)
Um arranco, um esticar de braços, e teria a caça segura. Mas só a ideia de se tentar causava-lhe arrepios. (...)
Estava na proa duma rocha espetada no ar, sem dois dedos de espaço firme a cada lado do corpo. Um pequeno balanço para a esquerda ou para a direita, e adeus velho. (...)
"A única coisa que me resta", principiou em voz alta; mas deteve-se e o resto disse-o em pensamento: "é recuar". O perdigoto que se arranje como puder. Duma maneira ou doutra estava condenado. Se não fosse eu que o apanhasse seria o mar, se não fosse o mar seria eu." (...)
Ia ele a recuar para terra, palmo a palmo, como mandava o bom senso, e passa-lhe uma coisa pela cabeça, varre-lhe o entendimento por completo, e ele aí vai de braços estendidos, corpo em prancha, lançado num salto outra vez para a frente.
Ficou por milagre à pontinha do rochedo, pendurado de cabeça para baixo e sem pinga de sangue. Mas reparem: com o perdigoto na mão. E agora?
José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado,
Moraes Editores
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