SERMÃO DA SEXAGÉSIMA de PADRE ANTÓNIO VIEIRA
III
Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três
princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de
Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três
concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de
concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a
graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas:
olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de
olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.
Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a
conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo?
Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho.
O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz,
que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto
que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos:
de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta?
Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição
é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do
trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E
porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os
espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram
os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não
diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da
chuva.
(…)Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se
quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que
nos determos em mais prova.
(…) Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por
parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos
ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é
assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito
grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos
ouvintes. Provo.
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra
de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho
o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no:
Simul
exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu
também, mas secou-se:
Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa,
nasceu e frutificou com grande multiplicação:
Et natum fecit fructum
centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e
frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a
palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que
nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não
frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou,
mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as
pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras.
Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os
piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque
vêm só a ouvir subtilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às
vezes também a picar a quem os não pica.
Aliud cecidit inter spinas: O
trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo
sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que
picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os
de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode
ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra
vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque
quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra.
Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras!
A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade
endurecida:
Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae
largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de
entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais
rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos
espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.
Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não
arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras
e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da
divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É
tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce
nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como
pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas
pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao
semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses
mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste
Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se
teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das
pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce;
não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não
é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra
de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se
por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis,
cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores.
Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.
Padre António Vieira, in Sermão da Sexagésima