segunda-feira, 30 de novembro de 2015


           DESTINO
   
          Quem disse à estrela o caminho 
Que ela há-de seguir no céu? 
A fabricar o seu ninho 
Como é que a ave aprendeu? 
Quem diz à planta «Floresce!» 
E ao mudo verme que tece 
Sua mortalha de seda 
Os fios quem lhos enreda? 

Ensinou alguém à abelha 
Que no prado anda a zumbir 
Se à flor branca ou à vermelha 
O seu mel há-de ir pedir? 
Que eras tu meu ser, querida, 
Teus olhos a minha vida, 
Teu amor todo o meu bem... 
Ai!, não mo disse ninguém. 

Como a abelha corre ao prado, 
Como no céu gira a estrela, 
Como a todo o ente o seu fado 
Por instinto se revela, 
Eu no teu seio divino . 
Vim cumprir o meu destino... 
Vim, que em ti só sei viver, 
Só por ti posso morrer. 


Almeida Garrett, in Folhas Caídas



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O POLVO

O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo dessa aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas as cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; se está em alguma pedra, como ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador,  que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. (…)


                                                              Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA de PADRE ANTÓNIO VIEIRA

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva.
(…)Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova.
(…) Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir subtilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.
Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.


Padre António Vieira, in Sermão da Sexagésima

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

JUNTO AO CANAL

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Penso isto percorrendo
sábado de manhã a avenida Nevsky
e não me é estranho o claro cinzento
de setembro, os lugares não
mudam nem sequer
os transeuntes, Gogol passa
no passeio que
começa a encher-se de gente
e detém-se na ponte sobre o largo canal
Moika; a cidade mais bela assim a ela
se referiu há muito o Abelaira
ao regressar à obscura
Lisboa luminosa; olhando as caras claras
olho o mundo
à sua etapa última chegado,
mas não são últimas todas as etapas?
Não é pensável o poema, e o mundo
como que para, nos seus tempos diversos
se movendo, escrevo a andar, vejo 
a manhã russa e as cores das fachadas
verdes e amarelas ocre e rosa envolvendo-me,
volto ao canal onde a aragem fria
a água agita e aparentemente a faz
correr, não estou aqui
talvez, lugar e
tempo anulam o meu ser

Gastão Cruz, A Moeda do Tempo,
Assírio & Alvim, 2006

São Petersburgo

sábado, 14 de novembro de 2015

O VIAJANTE CLANDESTINO

Onde os trigais amadurecem, está
tua saudade da cena familiar
- pais, irmãos, campos, casa, noiva. Lá,
falam de ti, serenos, sem chorar.

Recordam, com orgulho natural,
teu rosto, agora anónimo em viagem.
E leem, ao serão, o teu jornal,
como se fosses tu, a tua imagem.

E imaginam que escreves "pai, querida 
mãe", que mandas novas tuas, de onde quer
que estejas transformando a própria vida.

E resistem. Procuram merecer
tua certeza, dádiva colhida
na rubra sebe em flor, ao amanhecer.

Daniel Filipe, Pátria Lugar de Exílio

quinta-feira, 12 de novembro de 2015


A POMBA

   Apercebeu-se de que a sua contínua referência aos estatutos do prédio era um tanto ridícula. E também não lhe interessava minimamente a forma como a pomba havia entrado. Não queria de forma alguma continuar a falar em detalhe sobre a pomba; este horrível problema só a ele dizia respeito. Pretendia apenas exteriorizar a sua indignação pelos olhares perscrutadores de Madame Rocard, mais nada, e isso concluíra-se com as primeiras frases. Agora a irritação tinha-se desvanecido. Agora, ignorava como prosseguir.
   - Tem que se enxotar a pomba e fechar a janela - redarguiu Madame Rocard, que se expressava como se isto fosse a coisa mais simples deste mundo e como se tudo pudesse voltar a entrar na ordem mediante essa atitude.
   Jonathan mantinha-se calado. Perdera-se no fundo castanho dos olhos da porteira e corria o risco de ali se afundar como num pântano mole e castanho; viu-se obrigado a fechar os olhos pelo espaço de um segundo, a fim de se recompor, após o que tossicou e recuperou a voz.
   - Mas é que... - começou e tossicou de novo - ... é que já há grandes poios por todo o lado. Grandes e verdes. E penas também. A pomba sujou o corredor todo. É esse o problema principal.

Patrick Süskind, A Pomba,
 Círculo de Leitores

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Os «Banhos»

   - Ora mal sabem vocês quem vai casar? - pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
   E o povo parecia perguntar, escutando:
   - Quem será? Quem será?
   - ... e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
   Eram, já se vê, os proclames de  António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o Sr. Reitor: - «todos desta freguesia!» Riam, os santinhos! - «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
   - Pois vão bem! Pois vão muito bem!
   E o Sr. Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
   - Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
   Ora, ora! Pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todo levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: - os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... e do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta pra baixo, que na boda não desse à perna - trup-trup! trup-trup! - nesse lindo dia de sol...

Fialho de Almeida, Os Meus Amores


Imagem relacionada

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A ARTE DE AMAR
(século I a.C.)

   Cede, se a tua amiga te contradisser; cedendo, sairás vencedor da luta. Limita-te a desempenhar o papel que te atribuir. Se ela censurar, censura; aprova tudo o que ela aprove, afirma o que afirmar e nega o que negar. Se ri, ri-te com ela; se chora, acompanha o seu pranto. Que a expressão do teu rosto se afine pela sua [...] Apressa-te a chegar-lhe o escabelo para a cama alta; tira-lhe as sandálias dos delicados pés ou calça-lhas. Também, ainda que estejas morto de frio, ser-te-á muitas vezes necessário aquecer no peito as mãos geladas da tua amiga. E não julgues vergonhoso (e, mesmo que o fosse, deverá agradar-te) seres tu, homem livre, quem lhe segure o espelho para que se mire [...]
   Mas, se te interessa conservar o amor da tua amiga, procede de modo que te julgue maravilhado com a sua beleza. [...] Diz-lhe que, a teus olhos, ela vale mais que o ouro. Se escolheu um vestido pesado, aprova a sua escolha. Se vem ao teu encontro vestida com uma simples túnica, exclama: "Incendeias-me." Mas, timidamente, pede-lhe que se resguarde do frio. Traz nos cabelos uma fita singela? Elogia esse penteado. Frisou os cabelos? Como gostas dos cabelos frisados! Admira os seus braços quando baile, a sua voz quando cante; quando acabar, lamenta que não continue. Poderás enaltecer os seus abraços e aquilo que te faz feliz, as secretas volúpias que se saboreiam pela noite adiante. Ainda que seja mais esquiva que a assustadora Medusa, tornar-se-ia doce e amorável para ti, que a desejas ardentemente.

Ovídio, A Arte de Amar, Europa-América

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PEDRA FILOSOFAL

   Eles não sabem que o sonho
   é uma constante da vida
   tão concreta e definida
   como outra coisa qualquer,
   como esta pedra cinzenta
   em que me sento e descanso,
   como este ribeiro manso
   em serenos sobressaltos,
   como estes pinheiros altos
   que em verde e oiro se agitam,
   como estas aves que gritam
   em bebedeiras de azul.

   Eles não sabem que o sonho
   é vinho, é espuma, é fermento,
   bichinho álacre e sedento,
   de focinho pontiagudo,
   que fossa através de tudo
   num perpétuo movimento.

   Eles não sabem que o sonho
   é tela, é cor, é pincel,
   base, fuste, capitel,
   arco em ogiva, vitral,
   pináculo de catedral,
   contraponto, sinfonia,
   máscara grega, magia,
   que é retorta de alquimista,
   mapa do mundo distante,
   rosa-dos-ventos, Infante,
   caravela quinhentista,
   que é Cabo da Boa Esperança,
   ouro, canela, marfim,
   florete de espadachim,
   bastidor, passo de dança,
   Colombina e Arlequim,
   passarola voadora,
   pára-raios, locomotiva,
   barco de proa festiva,
   alto-forno, geradora,
   cisão do átomo, radar,
   ultra-som, televisão,
   desembarque em foguetão
   na superfície lunar.

   Eles não sabem, nem sonham,
   que o sonho comanda a vida.
   Que sempre que um homem sonha
   o mundo pula e avança
   como bola colorida
   entre as mãos de uma criança.

António Gedeão, Movimento Perpétuo (1956)

ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1999)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho, nasceu em Lisboa e foi professor de Físico-Química do Liceu Pedro Nunes. A sua formação científica fez-se notar nos livros escolares e de divulgação científica que publicou e também em muita da sua poesia.
Algumas obras: Movimento Perpétuo, Máquina de Fogo, Poema para Galileu, títulos reunidos em Poesias Completas.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

SÓ EU SEI QUANTO ME DÓI A SEPARAÇÃO

Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena, no papel, escrever não é dado
Sem que a lágrimas trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu grande orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite; orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.

Al-Mu' Tamid

É um dos maiores poetas do Islão e o mais notável dos poetas hispano-árabes da segunda metade do século XI. nasceu em Beja em 1040, governou Silves, mais tarde governou Sevilha, em 1069. Morreu em 1095.


Al-Mu' Tamid

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NAMORAR RENTE À JANELA

   O rapaz que trazia um banquinho para namorar, à tarde, rente à janela da casa na parte larga da Rua da Boavista, era um desses apaixonados que se encontram de cem em cem anos e que são pessoas a quem a sociedade fica a dever muito no campo das ciências humanas. Tinha namoros em quatro ou cinco ruas da cidade e, o que era mais extraordinário, é que eram todas suas noivas. A todas contemplava com um sentimento terno e inabalável. A psicanálise ainda não se divulgara como método de cultivar doenças que, provavelmente, não eram outra coisa senão a paixão em estado indestrutível que é a crença na felicidade. Não se ama para conseguir qualquer espécie de soberania, mas para ter felicidade, essa felicidade ociosa do Paraíso em que nada nos faltava e nada era objeto de desejo.
   Se, na parte larga da Rua da Boavista, onde se levanta o edifício do Hospital Militar, os passeios são amplos e permitiam o namoro na cadeirinha, o mesmo não acontecia noutros bairros do Porto. Então era o namoro de janela, feito por sinais e olhares, na meia folha duma cortina de croché. A jovem saía só para comprar miudezas e para ir à modista, e não trabalhava fora de casa. Havia na Rua da Torrinha uma rapariga duma beleza incrível, dessas que o Porto produzia dentro das suas paredes de reboco escalavrado, e que se sustentava de chá e de sonhos fantásticos que incluíam um ator de cinema. Algo de inacessível, que é o que os sonhos têm de mais empolgante. Também essa menina, Florinda, constava na agenda do nosso namorador e ele seguia-a na rua, fazia com ela, mas não a par, a Volta dos Tristes que era o caminho entre Santa Catarina e Sá da Bandeira. Santo António, depois crismada de 31 de Janeiro, era onde começava o comércio de luxo; as sapatarias e as primeiras boutiques de alto preço estavam lá, assim como uma ourivesaria famosa. Uma das ambições das mulheres mais bonitas da cidade, sendo novas, era servir ao balcão dessas casas frequentadas pelas pessoas mais importantes pelo dinheiro e pela elegância. [...]

Agustina Bessa-Luís, "Casamento e Fuga", in Porto Ficção,
Edições Asa