domingo, 13 de outubro de 2019

Que Fizeste das Palavras?

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, in Poesia


sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Quando era jovem, quando tinha pena
Que (me) fazia chorar,
A vida, embora má, era serena
Porque era só sonhar.

Hoje, que tenho pena, quando a tenho,
Só com compreender,
A minha vida é como alguém estranho
Que me visita o ser.

Porque a pena, ou a mágoa, ou o cansaço
Que acaso surja em mim
É como alguém que pisa, com mau passo,
Canteiros de jardim.

Fernando Pessoa

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segunda-feira, 10 de junho de 2019

CONTAS

Uma noite, quando a noite não acabava,
contei cada estrela no céu dos teus olhos;
e nessa noite em que nenhum astro brilhava
deste-me sóis e planetas aos molhos.

Nessa noite, que nenhum cometa incendiou,
fizemos a mais longa viagem do amor;
no teu corpo, onde o meu encalhou,
fiz caminho de náufrago e navegador.

Tu és a ilha que todos desejaram,
a lagoa negra onde sonhei mergulhar,
e as lentas contas que os dedos contaram

por entre cabelos suspensos do ar -
nessa noite em que não houve madrugada,
desfiando um terço sem deus nem tabuada.

Nuno Júdice, «Rimas e Contas», in Poesia Reunida
Dom Quixote

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

VIAGENS NA MINHA TERRA

Capítulo I


   Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até ao quintal.
   Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita do Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais de Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões:pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica.
   Era uma ideia vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.
   Pois por isso mesmo vou - pronunciei-me.

Almeida Garrett


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domingo, 20 de janeiro de 2019


Mas como causar
pode seu favor
Nos corações 
humanos amizade;
Se tão contrário a si
é o mesmo amor?

Luís Vaz de Camões

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

PLANTA ALTA E TRIGUEIRA

   As plantas acenavam ao vento de agosto, nas suas hastes finas e verdes. E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:
   - Dás-me dez anos da tua vida?
   Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos, vi que ia ficar com muito pouco.
   - Dou - disse eu.
   E ainda hoje, que nunca mais soube de mim, vou com o vento, balouçando. E agosto é todo o ano para mim.

Ruy Belo

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