sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

  O desaparecimento de Dionísia



   Pegou na espingarda, assobiou à setter e meteu pela carreira da fonte direito à mata. Quando voltou, sobre o pôr do Sol, não viu Dionísia a esperá-lo. Teve um mau pressentimento e subiu a escada de rompante. No quarto dela topou a relativa desordem do hóspede que se foi embora.
   - A senhora D. Dionísia? - veio perguntar às criadas, dominando a sua ânsia, ele próprio se vendo pálido como na hora da morte.
   - A senhora deixou recado que ia a Braga falar com os irmãos.
   - Veio alguém?
   - Ninguém que déssemos fé.
   - Com quem foi?
   - Foi sozinha. Deixou também dito que não estivesse em cuidados, que sabia bem o caminho. A esta hora já está mais perto de Braga que da Casa Grande, se é que não mudou de rumo. O senhor D. Telmo a voltar costas e ela a mandar selar a égua.
   Não refletiu grandes instantes. Ele mesmo aparelhou o cavalo e rompeu a galope pela estrada das Pedras Finas. A altura de Calheiros desferrou-se-lhe a montada. Chegou ao Prado a hora a que já se não via um gato pelas ruas. Tanto bateu à porta do alquilador, que um homem estremunhado o veio atender. Deixou o cavalo esfalfado e tomou um macho. Em Braga, no solar dos Travancas e Seias, há muito que tudo dormia a sono solto. Sobressaltou o pessoal com alarme insólito, só comparável ao do fogo. Veio D. Ambrósia:
   - Minha sobrinha Dionísia para aqui não veio. Em Ponte de Lima deve ter metido para Pico de Regalados. Se lho digo é que tenho cá as minhas razões...
   - Não me está a enganar?!... Jura-mo?
   - Ora essa, juro-lhe pela salvação da minha alma.
   - Adeus, tia...
   Com certeza que ela lhe notou o rosto demudado (...) e, porque houvesse há muito destorcido a meada, previu grande história:
   Veja lá, sobrinho Telmo, em que se mete!




Aqulino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães







Aquilino Gomes Ribeiro (13/9/1885 - 27/5/1963)
Escritor português, ficcionista, autor dramático, cronista e ensaísta.
Foi jornalista, professor e conservador da Biblioteca Nacional
Algumas das suas muitas obras:
Jardim das Tormentas (1913), Terras do Demo (1919), O Malhadinhas (1922), Andam Faunos pelos Bosques (1926), O Romance da Raposa (1929), Cinco Réis de Gente (1948), A Casa Grande de Romarigães (1957), Quando os Lobos Uivam (1959).