terça-feira, 10 de novembro de 2015

Os «Banhos»

   - Ora mal sabem vocês quem vai casar? - pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
   E o povo parecia perguntar, escutando:
   - Quem será? Quem será?
   - ... e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
   Eram, já se vê, os proclames de  António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o Sr. Reitor: - «todos desta freguesia!» Riam, os santinhos! - «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
   - Pois vão bem! Pois vão muito bem!
   E o Sr. Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
   - Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
   Ora, ora! Pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todo levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: - os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... e do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta pra baixo, que na boda não desse à perna - trup-trup! trup-trup! - nesse lindo dia de sol...

Fialho de Almeida, Os Meus Amores


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