Os «Banhos»
- Ora mal sabem vocês quem vai casar? - pareciam dizer no altar-mor, a rir, os lindos santinhos cheios de flores.
E o povo parecia perguntar, escutando:
- Quem será? Quem será?
- ... e pelo favor de Deus e da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana, querem contrair o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem...
Eram, já se vê, os proclames de António Valente mais da Luzia. Disse-lhes os nomes dos pais, disse-lhes os nomes dos avós, o Sr. Reitor: - «todos desta freguesia!» Riam, os santinhos! - «Todos desta freguesia!» Sorriam-se cá baixo os do povo:
- Pois vão bem! Pois vão muito bem!
E o Sr. Reitor, cheio de sol, fazendo ao alto do papel dos «banhos» um rasgãozinho, para se lembrar que era aquele o primeiro pregão, concluía, cheio de sol, na sagrada forma do estilo, mirando ao alto uma andorinha, que viera também à missa:
- Se alguém souber dalgum impedimento pelo qual os contraentes deixem de receber o Santo Sacramento do Matrimónio que pretendem, debaixo de pena de excomunhão maior o descubram, e debaixo da mesma pena maliciosamente o não embaracem.
Ora, ora! Pelo contrário!... Impedimentos não os havia de casta nenhuma, e todo levavam muito em gosto, na freguesia, o casamento: - os santos, o povo, as árvores, as andorinhas... e do mais velho ao mais novo, estou em dizer que não houve ninguém que nos três domingos dos «parabéns» não provasse a rica «pinguinha», e ninguém, dos quarenta pra baixo, que na boda não desse à perna - trup-trup! trup-trup! - nesse lindo dia de sol...
Fialho de Almeida, Os Meus Amores

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