terça-feira, 8 de março de 2016

Camões

O DIA EM QUE EU NASCI MOURA E PEREÇA

O dia em que eu nasci moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe} escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
e a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões

sábado, 5 de março de 2016

O CAVALEIRO NEGRO


   Entretanto Juliano recobrara o alento; a vergonha, o despeito, a sede de vingança estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava, sentindo seu senhor semimorto, tinha corrido espantado até onde a multidão de cristãos e árabes, travados em peleja sanguinolenta, lho consentia. O conde, cravando-lhe os acicates, com a espada erguida na mão, arremessou-o para o lugar onde o duque de Córdova pelejava com Mugueiz. Era um feito covarde: mas que importava a Juliano a desonra? Assinalado com o ferrete indelével de traidor, havia-se habituado a viver para um sentimento único – a vingança. E a vingança era quem o impelia.
   Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o Chrysus soava um correr de cavalo à rédea solta. Alguns soldados que andavam mais perto da margem volveram para lá os olhos. Um cavaleiro de estranho aspeto era o que assim corria. Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e o saio; o próprio ginete murzelo: lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da sela uma grossa maça ferrada de muitas puas, espécie de clava conhecida pelo nome de borda, e da esquerda a arma predileta dos godos, a bipena dos francos, o destruidor franquisque. Subiu rápido a encosta donde Roderico atendia aos sucessos da batalha. Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira para o lugar em que flutuavam os pendões das tiufadias da Bética. Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e, abrindo um abismo, se atura nas águas, assim o cavaleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em redor de Teodomiro e Mugueiz fervia o pelejar.
   Juliano tinha-se aproximado no entanto do esforçado duque de Córdova, que, ferido e obrigado a combater com o destro e feroz renegado, a custo se poderia defender dos golpes do conde, golpes que o ódio e a cólera dirigiam. Alguns cavaleiros da Bética voaram a socorrer Teodemiro; mas os árabes com que andavam travados tinham-nos seguido de perto e, rodeando Mugueiz, haviam tornado inútil o socorro dos cavaleiros cristãos. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros em volta dos dois capitães inimigos, através da qual debalde o conde se Septum buscara muitas vezes abrir caminho para ferir Teodemiro, até que finalmente, galgando por cima de um árabe derribado, pudera vibrar um golpe. O elmo do nobre godo restrugira, e o guerreiro vacilara. A última página da sua vida parecia escrita no livro dos destinos. Os dois adversários do duque de Córdova iam tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.
   Mas o cavaleiro desconhecido havia passado através da hoste goda e chegara à dianteira dos árabes. Com a maça jogada às mãos ambas abolava e rompia as armas mais bem temperadas, e as puas, entrando pelas carnes dos que se lhe punham diante, iam esmigalhar-lhes os ossos. Por onde ele atravessava, nem as fileiras se uniam, nem os godos achavam adversários. Como a charrua, tirada com violência em chão batido de planície, deixa após si grossas glebas revolvidas, assim aquela arma irresistível deixava, ao passar, uma larga cauda de cadáveres entretecida de moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados, perguntavam uns aos outros, quem seria aquele temeroso guerreiro; mas entre eles ninguém havia que pudesse dizê-lo. Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodemiro e, com ele, os esquadrões da Bética.

Alexandre Herculano, Eurico, O Prebítero