quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NÃO

Não formar nenhuma ideia
Do que somos ou seremos
Mas entre as vozes que fogem
Precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
Abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
Enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
Que penetram no espaço
De eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
Beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
Correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
Abraçar quem nos ignora
Dormir com quem não nos vê
Mas precisar do calor
De quem nunca nos encontra.

Natércia Freire, Antologia Poética

1919 - 2004

Poetisa portuguesa nascida em Benavente

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A CASA

Esta casa é a tua casa
quanto ao que permanece
nem sei que dizer
tanto me feriu a
insignificância do mundo
a relativa veracidade concedida aos lírios
minhas habilidades inexperientes

a obscuridade brilha para lá
da própria enseada

José Tolentino Mendonça, Baldios

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

O TEMPO FAZ CARETAS

Visto que não há regresso
E o tempo está de mau cariz,
Viremos o dia do avesso
Para ver como é, primeiro.

A carranca dum velho ou o traseiro
Prazenteiro dum petiz?

Alexandre O'Neill, Poesias Completas

(1924-1986)

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domingo, 4 de setembro de 2016

EDVARD MUNCH

O grito,
o grito verde, adstringente,

e as raparigas
na ponte,
evitando a repetição
das cores

e o fascínio da água.

Eu que não sei,
que posso aprender?

José Alberto Oliveira, Alguns Dias

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