quarta-feira, 27 de maio de 2020

S. LEONARDO DE GALAFURA

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga, Antologia Poética, Diário IX
Publicações D. Quixote



Miradouro de S. Leonardo de Galafura, Peso da Régua, Portugal

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A um lente

Diz que é fraco e que só ora
Como outrora, meia hora?
Homessa! essa agora!
Ele não diz que só ora
meia hora;
O que ele diz é que ora
Como outrora, meia hora,
Depois chama, depois ora
Meia hora, e faz uma hora.

João de Deus, Campo de Flores II

Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra