PARTIDA DE VASCO DA GAMA
Postos os navios em Restelo, lugar de ancoragem antiga, um dia antes da sua partida foi ter a vigília com os outros capitães à casa de Nossa Senhora da Vocação de Belém, situada neste lugar de Restelo. A qual naquele tempo era uma ermida que o infante dom Henrique mandou fundar, onde estavam alguns freires, do convento de Tomar para administrarem os sacramentos aos mareantes.
Ao seguinte dia que era sábado, oito de Julho, por ser dedicado a Nossa Senhora e a casa de muita romagem, assim por esta devoção, como por se irem despedir dos que iam n'armada, concorreu grande número de gente a ela.
E, quando foi ao embarcar de Vasco da Gama, os freires da casa com alguns sacerdotes que da cidade lá eram idos dizer missa, ordenaram uma devota procissão com que o levaram ante si nesta ordem: ela e os seus círios nas mãos e toda a gente da cidade ficava detrás respondendo a uma ladainha que os sacerdotes diante iam cantando, até os porem junto dos batéis em que se haviam de recolher. Onde, feito silêncio, e todos postos em joelhos, o vigairo da casa fez em voz alta uma confissão geral, e no fim dela os absolveu na forma das bulas que o infante dom Henrique tinha havido para aqueles que neste descobrimento e conquista falecessem (como atrás dissemos). No qual auto foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse de muitas que nela se derramam na partida das armadas, que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir, donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm.
E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes, segundo seu uso deram aquele alegre princípio de caminho, dizendo: "Boa viagem!", todos estavam prontos na vista deles, com uma piadosa humanidade dobraram estas lágrimas, e começaram de os encomendar a Deus, e lançar juízos segundo o que cada um sentia daquela partida.
Os navegantes, dado que com o fervor da obra e alvoroço daquela empresa embarcaram contentes, também passado o termo de desferir das velas, vendo ficar em terra seus parentes e amigos, e lembrando-lhe que sua viagem estava posta em esperança, e não em tempo certo nem lugar sabido, assim os acompanhavam em lágrimas como em pensamento das cousas que em tão novos casos se representam na memória dos homens: Assim que uns olhando para a terra e outros para o mar, juntamente todos ocupados em lágrimas e pensamentos daquela incerta viagem, tanto estiveram prontos nisso, até que os navios se alongaram do porto.
João de Barros, Ásia, Década I, livro IV, cap. II
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| Partida de Vasco da Gama em 1497 |

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