quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O MENINO DA SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com o olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa, Obra Poética




terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CONCERTO

O arco
do violinista
aparece de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...

E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de Carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
do acorde perfeito
final

Bravo! Bravo! Bis!

José Gomes Ferreira, Poesia IV

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

É DIA DE NATAL

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa


Para os leitores do blogue
votos de um feliz Natal!

Arminda Fernandes

domingo, 20 de dezembro de 2015

EM CRETA, COM O MINOTAURO

Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

Jorge de Sena

Creta

domingo, 13 de dezembro de 2015

OS MEUS CADERNOS DE VIAGEM

   Uma das obsessões da minha adolescência era pôr em papel tudo o que me rodeava e interessava, para criar uma espécie de enciclopédia pessoal. (...) Usava agendas antigas e livros de contabilidade e comecei a desenhar e a colar fotografias de revistas, etiquetas e autocolantes, apenas com um critério cronológico.
   Na minha primeira viagem com o livro às costas, dei-me conta de que estava muito mais recetivo porque tudo me surpreendia e estava particularmente sensível (...). No final era muito mais produtivo e era capaz de encher um destes livros numa só viagem. Isto fez-me ligar os cadernos às viagens, dando-lhes um sentido especial. Os cadernos de viagem ajudam-me a observar os lugares e também a relacionar-me com as pessoas que neles aparecem. Algo especial que não acontece com as fotografias.
   É curioso ver as pessoas sorrirem ao reconhecerem as suas paisagens, as suas cidades, e pequenos detalhes como invólucros de caramelos ou de pastéis, maços de tabaco, caixas de fósforos ou bilhetes de autocarro. Às vezes elas também desenham e aí fica tudo. Frases que se ouvem, gestos, pequenos detalhes nas relações, formas de comer e de dormir, formas de cumprimentar, sinais, rótulos, costumes...  até conseguir um pequeno documentário para trazer para casa, como aquela enciclopédia pessoal «visual», semelhante às que em pequeno se vendiam com textos rodeando as imagens, com desenhos coloridos para não ter de ler e pelo prazer de passar as páginas.
   Agora procuro ver a vida como uma viagem e levo sempre um livro em branco que vou enchendo pouco a pouco como um escritor que se vê obrigado a escrever. Às vezes penso que o que não está nos meus cadernos não existiu e, quem sabe, eles podem mesmo ter acabado com a minha minúscula memória. Depois de tudo, quando duvidamos, existem eles, ali, fisicamente, esperando que abra as suas portas para entrar, esquecendo o mundo, como num cinema.

José Maria Sanchéz, in Diários de Viagens - Desenhos do Quotidiano,
Eduardo Salavisa, Quimera Ed.

Uma página feita pelo autor quando visitou Lisboa

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

CARTA AO MAR

Ó ondas fugitivas...
Camões

Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lírico, choroso,
E terno visionário, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vai ter contigo,
- Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, - vasto e húmido jazigo!

Nada é mais triste, trágico e profundo!
Ninguém te vence ou te venceu no mundo!...
Mas também, quem te pôde consolar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excelência! -
E, contudo, ouve-o aqui, em confidência:
- A Música é mais triste inda que o Mar!

Gomes Leal, Antologia Poética: entre a diferença e o excesso

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