OS MEUS CADERNOS DE VIAGEM
Uma das obsessões da minha adolescência era pôr em papel tudo o que me rodeava e interessava, para criar uma espécie de enciclopédia pessoal. (...) Usava agendas antigas e livros de contabilidade e comecei a desenhar e a colar fotografias de revistas, etiquetas e autocolantes, apenas com um critério cronológico.
Na minha primeira viagem com o livro às costas, dei-me conta de que estava muito mais recetivo porque tudo me surpreendia e estava particularmente sensível (...). No final era muito mais produtivo e era capaz de encher um destes livros numa só viagem. Isto fez-me ligar os cadernos às viagens, dando-lhes um sentido especial. Os cadernos de viagem ajudam-me a observar os lugares e também a relacionar-me com as pessoas que neles aparecem. Algo especial que não acontece com as fotografias.
É curioso ver as pessoas sorrirem ao reconhecerem as suas paisagens, as suas cidades, e pequenos detalhes como invólucros de caramelos ou de pastéis, maços de tabaco, caixas de fósforos ou bilhetes de autocarro. Às vezes elas também desenham e aí fica tudo. Frases que se ouvem, gestos, pequenos detalhes nas relações, formas de comer e de dormir, formas de cumprimentar, sinais, rótulos, costumes... até conseguir um pequeno documentário para trazer para casa, como aquela enciclopédia pessoal «visual», semelhante às que em pequeno se vendiam com textos rodeando as imagens, com desenhos coloridos para não ter de ler e pelo prazer de passar as páginas.
Agora procuro ver a vida como uma viagem e levo sempre um livro em branco que vou enchendo pouco a pouco como um escritor que se vê obrigado a escrever. Às vezes penso que o que não está nos meus cadernos não existiu e, quem sabe, eles podem mesmo ter acabado com a minha minúscula memória. Depois de tudo, quando duvidamos, existem eles, ali, fisicamente, esperando que abra as suas portas para entrar, esquecendo o mundo, como num cinema.
José Maria Sanchéz, in Diários de Viagens - Desenhos do Quotidiano,
Eduardo Salavisa, Quimera Ed.
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| Uma página feita pelo autor quando visitou Lisboa |