terça-feira, 29 de setembro de 2015

CARTAS DE AMOR


   Todas as cartas de amor são
   Ridículas.
   Não seriam cartas de amor se não fossem
   Ridículas.

   Também escrevi em meu tempo catas de amor,
   Como as outras,
   Ridículas.

   As cartas de amor, se há amor,
   Têm de ser
   Ridículas.

   Mas, afinal,
   Só as criaturas que nunca escreveram
   Cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   Quem me dera no tempo em que escrevis
   Sem dar por isso
   Cartas de amor
   Ridículas.

   A verdade é que hoje
   As minhas memórias
   Dessas cartas de amor
   É que são
   Ridículas.

   (Todas as palavras esdrúxulas,
   Como os sentimentos esdrúxulos,
   São naturalmente
   Ridículas.)

Álvaro de Campos, Poesias,
 RBA Editores
  

Álvaro de Campos é um heterónimo de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (13/6/1888 - 30/11/1935)




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