sábado, 8 de agosto de 2020

 Que o mundo está mal, dizemos,

E vai de mal a pior;

E, afinal, nada fazemos

P'ra que ele seja melhor.


Se os homens chegam a ver

Por que razão se consomem,

O homem deixa de ser

O lobo de outro homem.


António Aleixo, Este livro que vos deixo...



 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

S. LEONARDO DE GALAFURA

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga, Antologia Poética, Diário IX
Publicações D. Quixote



Miradouro de S. Leonardo de Galafura, Peso da Régua, Portugal

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A um lente

Diz que é fraco e que só ora
Como outrora, meia hora?
Homessa! essa agora!
Ele não diz que só ora
meia hora;
O que ele diz é que ora
Como outrora, meia hora,
Depois chama, depois ora
Meia hora, e faz uma hora.

João de Deus, Campo de Flores II

Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra

sábado, 25 de abril de 2020

A um transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando o ramo e a bainha.

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasceu o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um raio... em seguida, a noite! - Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

Charles Baudelaire, As Flores do Mal,
(tradução de Maria Gabriela Llansol)



sexta-feira, 27 de março de 2020

A Autêntica Estação

É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação

Ruy Belo, Obra Poética, Editorial Presença

Sintra