sexta-feira, 31 de julho de 2015

Entontecido
como asa que se abre para o azul
abarco a Vida toda
e parto
para os longes mais longes das distâncias mais longas
sei lá de que destinos ignorados!
Como pirata à hora da abordagem
grito e estremeço
liberto!
Grito e estremeço
perdido o sentido das pátrias
e a cor das raças,
livre para todos os caminhos dos homens!
Inebriado de posse
vou contigo, Vida,
como se fosses a minha namorada
e eu te levasse inteira nos meus braços!
Manuel da Fonseca, Poemas Completos, Forja


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Preciso de vez em quando de árvores desgrenhadas,
despidas, mirradas e tristes como ascetas.
Sou pelos carvalhos e pelos castanheiros.
Uma floresta de árvores de folha permanente ofende-me.
Preciso que a natureza, no inverno, tenha tanto frio como eu.

Miguel Torga 

terça-feira, 28 de julho de 2015

TEU CORPO PRINCIPIA
Dou-te um nome de água
Para que cresças no silêncio.
Invento a alegria
Da terra que habito
Porque nela moro.
Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)
Descubro esse contrário
Que em si mesmo se abre:
Ou alegria ou morte.
Silêncio e sol - verdade,
Respiração apenas.
Amor, eu sei que vives
Num breve país.
António Ramos Rosa, Estou Vivo e Escrevo ao Sol
Degas, Mulher Penteando os Cabelos

segunda-feira, 27 de julho de 2015

POESIA ROMÂNICA

   Com efeito, foi nas cortes feudais occitânicas que floresceu a primeira grande escola da poesia românica, elaborada numa língua (Langue d'oc) que seria mais tarde eclipsada pelo francês do norte (Langue d'oïl) mas que então exprimia uma civilização mais adiantada, como consequência direta da reativação, pelas Cruzadas, do comércio mediterrânico. Ainda hoje se investiga e se discute quais fossem as tradições literárias que permitiram uma tão rápida evolução do lirismo provençal. Não há dúvida, porém, de que uma parte da cultura latina clássica deve ter sido transmitida até aos trovadores por intermédio da literatura eclesiástica medieval, sobretudo através de certas formas ainda em latim mas já impregnadas de espírito profano (epistolografia amorosa espiritualizada entre clérigos e freiras, poesia dos estudantes medievais); e é ainda mais evidente que entre o canto, a poesia, o drama litúrgico com que o clero fomentava a participação do povo na celebração do culto, e, por outro lado, o folclore rural, de origens mais antigas que o Cristianismo, se exerceu, durante toda a Idade Média, uma intensa influência recíproca a cujos progressos muito deveu essa nascente literatura aristocrática de corte.

António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa,
 Porto Editora


domingo, 26 de julho de 2015

O VENENO DA COBRA

   Com os xuar aprendeu a deslocar-se pela floresta assentando todo o pé no chão, de olhos e ouvidos atentos a todos os murmúrios e sem deixar de fazer oscilar o machete a todo o momento. Num instante de descuido cravou-o no chão para arrumar a carga de frutos e, ao tentar pegar nele outra vez, sentiu as presas ardentes de uma víbora xis a entrar-lhe pelo pulso direito.
   Ainda chegou a ver o réptil, de um metro de comprido, a afastar-se, traçando xis no chão - é daí que lhe vem o nome - e atuou com rapidez. Saltou empunhando o machete na mesma mão atacada e cortou-o em várias postas até a nuvem de veneno lhe cobrir os olhos.
   Às apalpadelas, procurou a cabeça do réptil e, sentindo que a vista se lhe esgotava, dirigiu-se para uma aldeia xuar.
   Os indígenas viram-no chegar cambaleante. Já não podia falar, pois a língua, os membros, todo o corpo estava inchado de forma desmesurada. Parecia que ia rebentar de um momento para o outro, e conseguiu mostrar a cabeça do réptil antes de perder os sentidos.
   Despertou vários dias depois com o corpo ainda inchado e a tiritar dos pés à cabeça quando as febres o abandonavam.
   Um feiticeiro xuar devolveu-lhe a saúde num lento processo de cura.
   Beberagens de ervas aliviaram-no do veneno. Banhos de cinzas frias atenuaram-lhe as febres e os pesadelos. E uma dieta de miolos, fígados e rins de macaco permitiu-lhe andar ao fim de três semanas.
   Durante a convalescença proibiram-no de se afastar da aldeia, e as mulheres mostraram-se rigorosas com o tratamento para lavar o corpo.
   - Ainda tens o veneno lá dentro. Tens de deitar fora a maior parte e deixar só a porção que te defenderá de novas mordeduras.
   Atestavam-no de frutos sumarentos, águas de ervas e outras beberagens até o fazerem urinar quando já não tinha vontade.
   Quando o viram totalmente recomposto, os xuar aproximaram-se com presentes. Uma nova zarabatana, um feixe de dardos, um colar de pérolas do rio, um cintozinho de penas de tucano, dando-lhe palmadas até o levarem a compreender que tinha passado por uma prova de aceitação, determinada nada mais nada menos que pelo capricho de deuses brincalhões deuses menores, amiúde ocultos entre os escaravelhos ou entre os pirilampos, quando querem confundir os homens e se vestem de estrelas para indicar falsas clareiras na floresta.

Luís Sepúlveda, O velho que lia romances de amor,
 Asa Editores

sábado, 25 de julho de 2015

ARTIGO 1056º DO CÓDIGO CIVIL
Oiça, vizinha: o melhor
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.

Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada.
Não me tiro da janela
Não leio, não faço nada...

O seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando
E acirrando o meu tormento...

O meu, não: abro um artigo
De lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de cara consigo
E mando as leis ao diabo.

Ao diabo mando as leis
Com exceção de um artigo:
O mil e cinquenta e seis...
Quer conhecê-lo? Eu lho digo:

"Casamento é um contrato
Perpétuo". Esse adjetivo
Transmuda o mais lindo pacto
Num trambolho repulsivo.

"Perpétuo!" Repare bem
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou de duas...

Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora - até um dia...

Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.

Augusto Gil



sexta-feira, 24 de julho de 2015

PINTURA ADMIRÁVEL DE UMA BELEZA

Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

Gregório de Matos
Advogado e poeta brasileiro do século XVII

Pintura de Giovanni Boldini

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errónea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Camões


MOTE

Descalça vai pera fonte
Lianor pela verdura:
Vai fermosa, e não segura.

VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura:
Vai fermosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o trançado,
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura:
Vai fermosa, e não segura.

Luís de Camões

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terça-feira, 21 de julho de 2015

PEDRO VÊ PELA PRIMEIRA VEZ MARIA MONFORTE



Numa tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, à porta de Madame Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéu branco, e uma senhora loura, embrulhada num xale de Caxemira.
O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo do queixo, uma face tisnada de antigo embarcadiço e o ar goche, desceu todo encostado ao trintanário como se um reumatismo o tolhesse, entrou arrastando a perna o portal da modista: e ela voltando devagar a cabeça olhou um momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapéu preto, os cabelos loiros, de um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e clássica: os olhos maravilhosos iluminavam-na toda; a friagem fazia-lhe mais pálida a carnação de mármore: e com o seu perfil grave de estátua, o modelado nobre dos ombros e dos braços que o xale cingia – pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal e superior à Terra.
Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira, numa pose de tédio – vendo o violento interesse de Pedro, o olhar aceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veio tomar-lhe o braço, murmurou-lhe junto à face na sua voz grossa e lenta:
- Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma garrafa de champanhe?
Veio o champanhe. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e dando um puxão aos punhos:
- Por uma doirada tarde de Outono…
- André! – gritou Pedro ao criado, martelando o mármore da mesa – retira o champanhe!
O Alencar bradou, imitando o actor Epifânio:
- O quê? Sem saciar a avidez do meu lábio?...
Pois bem, o champanhe ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta das “Vozes de Aurora”, explicaria aquela gente da caleche azul numa linguagem cristã e prática!...
- Aí vai, meu Pedro, aí vai!
Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquele velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma caleche com essa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão – uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela atravessava o salão, os ombros vergavam-se no deslumbramento de auréola que vinha daquela magnífica criatura, arrastando com um passo de deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e, apesar de solteira, resplandecente de jóias. O papá nunca lhe dava o braço: seguia atrás, entalado numa grande gravata branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na claridade loira que saía da filha, encolhido e quase apavorado, trazendo nas mãos o óculo, o libreto, um saco de bombons, o leque e o seu próprio guarda-chuva. Mas era no camarote, quando a luz caía sobre o seu colo ebúrneo e as suas tranças de oiro, que ela oferecia verdadeiramente a encarnação de um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano… Ele, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, mostrando-a a ela e às outras, as trigueirotas de assinatura:
- Rapazes! É como um ducado de oiro novo entre velhos patacos do tempo do senhor D. João VI!
O Magalhães, esse torpe pirata, pusera o dito num folhetim do «Português». Mas o dito era dele, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios. Mas nunca naquela casa se abria uma janela. Os criados interrogados disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava Manuel. Enfim uma criada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno, tremia diante da filha, e dormia numa rede; a senhora, essa, vivia num ninho de sedas todo azul-ferrete, e passava o seu dia a ler novelas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-se uma devassa metódica, hábil, paciente… Ele, Alencar, pertencera à devassa.
E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma facada numa rixa, um cadáver a uma esquina tinham-no forçado a fugir a bordo de um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da Casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas, encontrara lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo cais, de chinelas de esparto, à procura de embarque para a Nova Orleães. Aqui havia uma treva na história do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor numa plantação da Virgínia… Enfim, quando reapareceu à face dos céus, comandava o brigue «Nova Linda», e levava cargas de pretos para o Brasil, para a Havana e Nova Orleães.
Escapara aos cruzeiros ingleses, arrancara uma fortuna da pele do africano, e agora rico, homem de bem, proprietário, ia ouvir a Corelli a S. Carlos. Todavia esta terrível crónica, como dizia o Alencar, obscura e mal provada, claudicava aqui e além…
- E a filha? – perguntou Pedro, que o escutara, sério e pálido.
Mas isso não sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e bela? Quem fora a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com aquele gesto real no seu xale de Caxemira?...
- Isso, meu Pedro, são

                        mistérios que jamais pôde Lisboa
                        astuta devassar e só Deus sabe!

Eça de Queirós, Os Maias, Livros do Brasil

Mulher do final do século XIX


segunda-feira, 20 de julho de 2015


CONSTRUÇÃO


construção da casa [e do interior da casa]
construção de uma fogueira [e do fogo, e da chama, e das cinzas]
construção de uma pessoa [o embrião aos livros]
construção do amor
construção da sensibilidade [desde os poros até à música]
construção de uma ideia [passando pelo que o outro disse]
construção do poema [e do sentir do poema]

[há qualquer coisa de "des" na palavra construção]

desconstrução do preconceito
desconstrução da miséria
desconstrução do medo
desconstrução da rigidez
desconstrução do inchaço do ego
desconstrução simples [como exercício]
desconstrução do poema [para um renascer dele]

construção é uma palavra
que causa dor
ao ser pronunciado.

penso que esse seja um suor bonito.

Ondjaki, Materiais para Confeção de Um Espanador de Tristezas, Caminho

Pintura de Niki de Saint Phale


domingo, 19 de julho de 2015


Quero apenas cinco coisas.
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

sexta-feira, 17 de julho de 2015


Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo. 
Mas a primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro

 


quinta-feira, 16 de julho de 2015


se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse 
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo de infuso espírito?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra

Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo, Assírio & Alvim

Joan Miró, A asa da cotovia aureolada de azul de ouro chega ao coração da papoila adormecida, sobre o prado engalanado de diamantes, 1967

quarta-feira, 15 de julho de 2015

VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Poesia, Fundação Eugénio de Andrade

terça-feira, 14 de julho de 2015

NA PRISÃO ESCREVEM-SE CARTAS

   Não, não adiantava nada. Podia escrever a protestar a minha inocência, mas isso não ia restituir-me os dezasseis anos de vida que perdi aqui, nem ia restaurar a minha pobre dignidade feita em cacos.
   Na prisão escrevem-se cartas.
   Primeiro cartas burocráticas, quando ainda nos julgamos senhoras da nossa cidadania, Exma Senhora Diretora, venho por este meio junto de V. Exa para pôr ao vosso critério a injustiça da minha situação...
   A seguir cartas desorientadas, Exma Senhora Diretora, não sei sinceramente por que me encontro aqui, farto-me de pensar e não compreendo por que é que há de ser este o meu destino, se a Senhora Diretora...
   Depois cartas desesperadas, Senhora Doutora Lurdes, minha querida Diretora, é do fundo da minha miséria que lhe venho implorar que fale com o Sr. Dr. Juiz, eu sou inocente, houve uns malvados que me prejudicaram e estão à solta, se a Doutora Lurdes pela alminha de quem lá tem...
   Mais tarde cartas abjetas, minha querida Doutora Lurdes, sol desta instituição, minha verdadeira mãe, só a senhora me pode valer com a sua bondade, eu beijo o chão que a senhora pisa, era só reverem o meu processo, vão ver que estou inocente como uma criancinha acabada de nascer, tenha dó das minhas lágrimas (...).
   Por fim cartas patéticas, Doutora Lurdes, minha Mãe seja ceguinha se matei aquele homem, eu não tenho força para pegar numa arma, fui sempre muito fraquinha da fome que passei em criança...
   Não escrevi e não escreverei carta nenhuma, embora já tenha articulado umas tantas aqui na minha cabeça.
   Apanhei vinte anos de cana e estou quase a sair desta prisão algures no interior do país, porque se completam daqui a oito meses os cinco sextos da pena, o que significa que acabo de cumprir dezasseis.
   (...)
   A minha situação atual no E. P. (estabelecimento prisional) é bastante diferente daquela em que vivi os oito primeiros anos de reclusão, no Pavilhão 1, visto que já levo outros oito de regime aberto.
   Ultimamente trabalho nos teares, é um trabalho bonito que entretém imenso e as mãos ocupadas libertam o espírito para a minha insistente procura de memórias e eplicações que pretendo dar a mim mesma.

Rosa Lobato de Faria, Romance de Cordélia, ASA

segunda-feira, 13 de julho de 2015

PALAVRAS

De palavras me vesti
no agasalho do nada.
Palavras foram o vinho
de uma sede inventada.
E agora que as desfolho,
que me resta?
A memória de uma sede
que ao beber cresta.

Em palavras me enleei
numa selva gorda e quente.
E agora que as descarno,
que me fica?
A memória de uma vida
que a viver mente.

Pois deito as palavras fora,
recuso-lhes o mel e o cheiro.
É acre o tutano
mas verdadeiro.

Fernando Namora, Marketing, Bertrand

domingo, 12 de julho de 2015

VOLTAR A TORMES

   Ao fim desse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de primavera ainda tímido - Jacinto assomou à porta do meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena. Parou lentamente à beira dos colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidável:
   - Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
   O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho "D. Galeão".
    - Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...
   Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:
   - "Ilmo. e Exmo Sr. - Tenho grande satisfação em comunicar a V. Exª que por toda a semana devem ficar prontas as obras da capela..."
   - É do Silvério - exclamei.
   - É do Silvério, "...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos excelsos avós de V. Exª, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve trasladados da Igreja de S. José, onde têm estado depositados por bondade do nosso abade, que muito se recomenda a V. Exª ... Submisso, aguardo as presentes ordens de V. Exª a respeito desta majestosa e aflitiva cerimónia..."
   Atirei os braços, compreendendo:
   - Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação...
   Jacinto sumiu a carta no bolso.
   - Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô "Galeão"... Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei - vou a Tormes! E vou!... E tu vens!


Eça de Queiros, A Cidade e as Serras,
Círculo de Leitores
Paris, Avenida dos Campos Elíseos

sábado, 11 de julho de 2015

O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Carlos Drummond de Andrade, Obra Poética,
Europa-América

quinta-feira, 9 de julho de 2015

ROMEU & JULIETA

Romeu

Senhora, juro por aquela Lua abençoada
Que põe cumes de prata nestas árvores  de fruto...

Julieta

Oh! Não jures pela Lua, a inconstante Lua
Que todos os meses muda no seu orbe circular,
Não vá o teu amor ser de igual modo volúvel.

Romeu

Por que devo jurar?

Julieta

Não jures por coisa nenhuma;
Ou, se quiseres, jura pelo teu gracioso ser,
Que é o deus da minha idolatria,
E eu acreditar-te-ei.

Romeu

Se o profundo amor do meu coração...

Julieta

Pois bem, não jures; embora sejas o meu enlevo,
Não sinto enlevo no pacto desta noite,
É por de mais precipitado, irrefletido, súbito,
Por de mais semelhante ao relâmpago que deixa de ser
Antes que possa dizer-se: brilha! Doce amor boa noite!
Este botão de amor, sazonado pelo hálito do Estio,
Poderá ser uma bela flor quando nos virmos de novo,
Boa noite, boa noite! Que um doce repouso e calma
Entrem em teu coração, como os que tenho em meu peito.

Romeu

Oh! Vais deixar-me tão insatisfeito?

Julieta

Que satisfação podes ter esta noite?

Romeu

A troca pelo meu do teu fiel voto de amor.

William Shakespeare, Romeu e Julieta,
 Editorial Presença




quarta-feira, 8 de julho de 2015


Todo o trabalho bem
promete gostoso fruito,
mas os trabalhos, que vêm
para quem dita não tem,
valem pouco e custam muito.
Rompe toda a pedra dura,
faz os homens imortais
o trabalho, quando atura;
mas querer achar ventura
sem ventura, é por demais.

Luís de Camões, Rimas,
Almedina

Pieter Brueghel, A Torre de Babel, 1563

terça-feira, 7 de julho de 2015

RECEITA

Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz de um corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.

José Saramago, Os Poemas Possíveis,
 Caminho

segunda-feira, 6 de julho de 2015

CRÓNICAS DE VIAGENS

   Talvez os lugares imaginários derivem simplesmente do desejo de ver para além do horizonte. Viajantes intrépidos da Islândia, China e África partiram muito antes de Colombo para explorar os mares desconhecidos; outros, igualmente intrépidos mas menos entusiastas do ato material em si, ficaram em casa a tentar imaginar os países por descobrir. Uma história medieval fala de um nobre que foi aconselhado pelo confessor a fazer uma peregrinação a Jerusalém para se purificar dos seus pecados. Abominando a ideia de percorrer as duas mil milhas entre a sua casa e a cidade santa, o nobre calculou o perímetro em redor do seu castelo e, durante muitos anos, percorreu todos os dias esse caminho até, por fim, ter alcançado a distância necessária. "Viajar com otimismo é melhor que chegar". Escreveu Robert Louis Stevenson vários séculos mais tarde.
   A escrita de uma crónica de viagem imaginária confirma a afirmação de Stevenson. A verdadeira viagem é entravada pelos numerosos pequenos padecimentos que atacam o corpo de quem viaja e qualquer relato que tente embelezar aos olhos do leitor esses momentos desagradáveis mente tanto como um escritor de ficção.

Alberto Manguel, Gianni Guadalupi, Dicionário dos Lugares Imaginários
Lisboa, Tinta da China

sábado, 4 de julho de 2015

PEQUENO POEMA

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, Serra-Mãe (1945)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O AMOR

Mote

Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que se desata,
Perfume que se esvaece.
(Popular)

Glosas

Amor é chama que mata,
Dizem todos com razão,
É mal do coração
E com ele se endoidece.
O amor é um sorriso
Sorriso que desfalece.

Madeixa que se desata
Denominam-no também.
O amor não é um bem:
Quem ama sempre padece.
O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.

Mário de Sá-Carneiro, Obra Poética,
Europa-América

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