quarta-feira, 14 de janeiro de 2026


 Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo,
Arrostar co sacrílego gigante.

Como tu, junto ao Ganges, sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.

Bocage, in Antologia Poética

Poeta português 1765-1805

segunda-feira, 17 de novembro de 2025



 Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Escritora portuguesa


sexta-feira, 7 de novembro de 2025


 INTRÓITO


Das tuas mãos de vidro, carregadas

De joias tilintantes e doentes,

Das palavras que trazes afogadas,

Das coisas que não dizes mas entendes.


Do teu olhar virado às madrugadas

De fantásticos e exóticos orientes, 

Do teu andar de tule, das estocadas

Dos gestos que não fazes mas que sentes.


Dos teus dedos sinistros, de tão brancos,

Dos teus cabelos lisos, de tão brandos,

Dos teus lábios azuis, de tanta cor,


É que vem a fúria de bater-te,

É que me vem a raiva de morder-te,

Meu amor! Meu amor! Meu amor!


José Carlos Ary dos Santos

Poeta português

segunda-feira, 7 de julho de 2025

VISITAÇÃO


Um anjo aqui desceu (terá descido?),

dizendo que o silêncio humano outrora

fazia agora parte do divino,

e o que o templo maior, rasgado o pano,

tinha passado a ser culto de nós. 


Do éter rarefeito veio a voz,

queixando-se das sombras na cidade:

que o mundo era só verde, e que o azul

só o azul do céu, com letra humana

gravada numa mesa de madeira.


Um anjo aqui desceu (há provas mais)

e aqui ficou, exausto das canseiras

de ser mediador entre dois mundos,

de ter em dois segundos que voar

e mergulhar depois em três segundos.


E aqui ficado, o anjo adormeceu,

sonhando com estações e com instantes,

aos poucos esquecendo tempos dantes

e a água densa do eterno mar.


E quando se rasgou o tempo outro

e ele acordou, refeito e bocejante, 

viu que era bom ter nome, e sede, e fome,

cinco dedos nas mãos - algum olhar.


Ana Luísa Amaral





sábado, 5 de abril de 2025

NEOLOGISMO


Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras

Que traduzem a ternura mais funda

E mais cotidiana.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.

Intransitivo:

Teadoro, Teadora.


Manuel Bandeira, 1948 






terça-feira, 27 de agosto de 2024

 SE ESTOU SÓ, QUERO NÃO 'STAR


Se estou só, quero não 'star,

Se não 'stou, quero estar só,

Enfim, quero sempre estar

Sa maneira que não estou.


Ser feliz é ser aquele.

E aquele não é feliz,

Porque pensa dentro dele

E não do que eu dele fiz.


A gente faz o que quer

Daquilo que não é nada,

Mas também se o não fizer,

Fica perdido na estrada.


Fernando Pessoa. Vinte anos de poesia ortónima



















domingo, 14 de março de 2021

LUA ADVERSA


Tenho fases, como a lua.

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua...

Perdição da minha vida!

Perdição da minha vida!

Tenho fases de ser tua, 

tenho outras de ser sozinha.


Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.


E roda a melancolia

seu interminável fuso!


Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua...)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu...


Cecília Meireles, Viagem: vaga Música