Uma Hora de Leitura
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
sexta-feira, 7 de novembro de 2025
INTRÓITO
Das tuas mãos de vidro, carregadas
De joias tilintantes e doentes,
Das palavras que trazes afogadas,
Das coisas que não dizes mas entendes.
Do teu olhar virado às madrugadas
De fantásticos e exóticos orientes,
Do teu andar de tule, das estocadas
Dos gestos que não fazes mas que sentes.
Dos teus dedos sinistros, de tão brancos,
Dos teus cabelos lisos, de tão brandos,
Dos teus lábios azuis, de tanta cor,
É que vem a fúria de bater-te,
É que me vem a raiva de morder-te,
Meu amor! Meu amor! Meu amor!
José Carlos Ary dos Santos
Poeta português
segunda-feira, 7 de julho de 2025
VISITAÇÃO
Um anjo aqui desceu (terá descido?),
dizendo que o silêncio humano outrora
fazia agora parte do divino,
e o que o templo maior, rasgado o pano,
tinha passado a ser culto de nós.
Do éter rarefeito veio a voz,
queixando-se das sombras na cidade:
que o mundo era só verde, e que o azul
só o azul do céu, com letra humana
gravada numa mesa de madeira.
Um anjo aqui desceu (há provas mais)
e aqui ficou, exausto das canseiras
de ser mediador entre dois mundos,
de ter em dois segundos que voar
e mergulhar depois em três segundos.
E aqui ficado, o anjo adormeceu,
sonhando com estações e com instantes,
aos poucos esquecendo tempos dantes
e a água densa do eterno mar.
E quando se rasgou o tempo outro
e ele acordou, refeito e bocejante,
viu que era bom ter nome, e sede, e fome,
cinco dedos nas mãos - algum olhar.
Ana Luísa Amaral
sábado, 5 de abril de 2025
terça-feira, 27 de agosto de 2024
SE ESTOU SÓ, QUERO NÃO 'STAR
Se estou só, quero não 'star,
Se não 'stou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Sa maneira que não estou.
Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não do que eu dele fiz.
A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas também se o não fizer,
Fica perdido na estrada.
Fernando Pessoa. Vinte anos de poesia ortónima
domingo, 14 de março de 2021
LUA ADVERSA
Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Cecília Meireles, Viagem: vaga Música
