CARTA DE GUIA DE CASADOS
Uma das cousas que mais assegurar podem a futura felicidade dos casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda causa contradição; a contradição, discórdia. E eis aqui os trabalhos por donde vem. Perde-se a paz e a vida é inferno.
Para a satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue, para o proveito dos filhos e da fazenda, para o gosto dos casados e das idades. Não, porém, que seja preciso uma conformidade de dia por dia entre o marido e a mulher, mas que não seja excessiva a ventagem de um a outro. Deve ser esta ventagem, quando a haja, sempre a parte do marido, em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
Dizia um nosso grande cortesão, havia três castas de casamentos no mundo: casamento de Deus, casamento do Diabo, casamento da Morte; de Deus, o do mancebo com a moça; do Diabo, o da velha com o mancebo; da Morte, o da moça com o velho. Ele certo tinha razão, porque os casados moços podem viver com alegria; as velhas casadas com moços vive em perpétua discórdia; os velhos casados com as moças apresam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas damasias.
D Francisco Manuel de Mello, Carta de Guia de Casados

