quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PEDRA FILOSOFAL

   Eles não sabem que o sonho
   é uma constante da vida
   tão concreta e definida
   como outra coisa qualquer,
   como esta pedra cinzenta
   em que me sento e descanso,
   como este ribeiro manso
   em serenos sobressaltos,
   como estes pinheiros altos
   que em verde e oiro se agitam,
   como estas aves que gritam
   em bebedeiras de azul.

   Eles não sabem que o sonho
   é vinho, é espuma, é fermento,
   bichinho álacre e sedento,
   de focinho pontiagudo,
   que fossa através de tudo
   num perpétuo movimento.

   Eles não sabem que o sonho
   é tela, é cor, é pincel,
   base, fuste, capitel,
   arco em ogiva, vitral,
   pináculo de catedral,
   contraponto, sinfonia,
   máscara grega, magia,
   que é retorta de alquimista,
   mapa do mundo distante,
   rosa-dos-ventos, Infante,
   caravela quinhentista,
   que é Cabo da Boa Esperança,
   ouro, canela, marfim,
   florete de espadachim,
   bastidor, passo de dança,
   Colombina e Arlequim,
   passarola voadora,
   pára-raios, locomotiva,
   barco de proa festiva,
   alto-forno, geradora,
   cisão do átomo, radar,
   ultra-som, televisão,
   desembarque em foguetão
   na superfície lunar.

   Eles não sabem, nem sonham,
   que o sonho comanda a vida.
   Que sempre que um homem sonha
   o mundo pula e avança
   como bola colorida
   entre as mãos de uma criança.

António Gedeão, Movimento Perpétuo (1956)

ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1999)
Pseudónimo de Rómulo de Carvalho, nasceu em Lisboa e foi professor de Físico-Química do Liceu Pedro Nunes. A sua formação científica fez-se notar nos livros escolares e de divulgação científica que publicou e também em muita da sua poesia.
Algumas obras: Movimento Perpétuo, Máquina de Fogo, Poema para Galileu, títulos reunidos em Poesias Completas.



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