sexta-feira, 29 de abril de 2016

NÃO SEI SER TRISTE A VALER

Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é consciência.

‘Stá bem, enquanto não vêm,
Vamos florir ou pensar.

                                                                          Fernando Pessoa







segunda-feira, 25 de abril de 2016

OS ALMOÇOS NO RAMALHETE


   No Ramalhete, pontualmente ao meio-dia tocava a sineta do almoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida suavidade daquele fim de outono não permitia acender lume, mas verdejando todo de plantas de estufa.
   Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada, caçadores medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentando os cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando como teto escuro de castanho entalhado, a mesa resplandecia com as flores entre os cristais.
   O «Reverendo Bonifácio», que desde que se tornara dignitário da Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, como seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se; traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia.
   Afonso – como confessava, sorrindo e humilhado – ia-se tornando com a velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentração de crítico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um cavalheiro de mau génio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se chamava M. Théodore. Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre o relógio, se lembra do seu consultório. Bebia um cálice de chartreuse, acendia à pressa um charuto.
   - Ao trabalho, ao trabalho! – exclamava.
   E o avô, enchendo devagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquela ocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã...
   - Quando esse eterno laboratório estiver acabado, talvez vá para lá passar um bocado, ocupar-me de química.
   - E ser talvez um grande químico. O avô tem já o feitio.
   O velho sorria.
   - Esta carcaça já não dá nada, filho. Está pedindo Eternidade!
   - Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? – perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar.
   - Bom dia de trabalho.
   - Pouco provável...

Eça de Queirós, Os Maias



terça-feira, 19 de abril de 2016

O TRIGO É A PALAVRA DE DEUS


Semen est Verbum Dei

   O trigo que semeou o Pregador Evangélico, diz Cristo que é a Palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus, e se nasce não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das cousas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.
   Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem Sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo. Este argumento de Fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as Histórias Eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do mundo; os Reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? – Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos Pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos Omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.


Padre António Vieira, in Sermão da Sexagésima, capítulo II

segunda-feira, 18 de abril de 2016


ELES VERDES SÃO

a este alheio:

Minina dos olhos verdes,
porque me não vedes?

Voltas
Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d’olhos verdes,
Porque me não vedes.

Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d’olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
e vós não me credes,
porque me não vedes.

Haviam de ser,
porque possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.

Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?

Luís de Camões

sexta-feira, 15 de abril de 2016


... E O AMOR DESPERTOU



   Em torno era a primavera, o sonho de um poeta. O Gato Malhado teve vontade de dizer algo semelhante à Andorinha Sinhá. Sentou-se no chão, alisou os bigodes, apenas perguntou:
   - Tu não fugiste com os outros?
   - Eu? Fugir? Não tenho medo de ti, os outros são todos uns covardes... Tu não me podes alcançar, não tens asas para voar, és um gatarrão ainda mais tolo do que feio. E olha lá que és feio...
   - Feio, eu?
   O Gato Malhado riu, riso espantoso de quem havia desacostumado de rir, e desta vez até as árvores mais corajosas, como o Pau-Brasil - um gigante - estremeceram. "Ela o insultou e ele a vai matar", pensou o velho Cão Dinamarquês.
   O Reverendo Papagaio - reverendo porque passara uns tempos no seminário onde aprendera a rezar e decorara frases em latim, o que lhe dava valiosa reputação de erudito - fechou os olhos para não testemunhar a tragédia. Por duas razões: por ser emotivo, não lhe agradando ver sangue, menos ainda de andorinha tão formosa, e por não desejar servir como testemunha se o crime chegasse à justiça, maçada sem tamanho, tendo de decidir entre dizer a verdade e arcar com as consequências da ira do Gato Malhado - processo por calúnia, umas bofetadas, o bico arrancado, quem sabe lá o quê - ou mentir e ficar com fama de covarde, de cúmplice do assassino. Situação difícil, o melhor era não testemunhar. Em troca rezou pela alma da Andorinha Sinhá, ficando em paz com a sua consciência, uma chata cheia de exigências.
   A própria Andorinha Sinhá sentiu que exagerara e, por via das dúvidas, voou para um galho mais alto onde ficou bicando as penas num gesto de extrema faceirice. O Gato Malhado continuava a rir, apesar de se sentir um tanto ofendido. Não porque a Andorinha o houvesse taxado de mau e sim por tê-lo chamado de feio, e ele se achava lindo, uma beleza de gato. Elegante também.
   - Tu me achas feio? De verdade?
   - Feiíssimo... - reafirmou lá de longe a Andorinha.
   - Não acredito. Só uma criatura cega poderia me achar feio.
   - Feio e convencido!
   A conversa não continuou porque os pais da Andorinha Sinhá, o amor pela filha superando o medo, chegaram voando, e a levaram consigo, ralhando com ela, pregando-lhe um sermão daqueles. Mas a Andorinha, enquanto a retiravam, ainda gritou para o Gato:
   - Até logo, seu feio...
   (...)


   Os pais de Sinhá iam ralhando com ela. Mas estavam tão comovidos com o próprio heroísmo - tiveram coragem de afrontar o Gato Malhado para salvar a filha - que não ralharam demasiado. A Andorinha Pai dizia à Andorinha Mãe:
   - Nós amamos nossa filha, nós a salvámos.
   A Andorinha Mãe respondia: 
   - Nós somos bons pais, protegemos nossa filha.
   E se olhavam, admirando-se mutuamente. Proibiram terminantemente a Andorinha de novamente aproximar-se do inimigo feroz. Se os juramentos da Andorinha jovem não têm nenhum valor, bruscas proibições só fazem aguçar-lhe o interesse e a curiosidade. Não que Sinhá fosse uma dessas andorinhas às quais basta que se diga "não faça isso" para que imediatamente o façam. Ao contrário, terna e obediente, amava os pais. Era bem comportada, amável e bondosa. mas gostava que a convencessem das coisas com boas e justas razões e ainda ninguém lhe havia provado ser um pecado ou um crime manter relações cordiais com o Gato Malhado. Assim, quando deitou a gentil cabecinha sobre a pétala rosa que lhe servia de travesseiro, havia decidido continuar a conversa no outro dia:
   - Ele é feio mas é simpático... - murmurou ao adormecer.
   Quanto ao Gato Malhado, também ele pensou na arisca Andorinha Sinhá, naquela primeira noite da primavera, ao repousar a cabeça no travesseiro. Aliás, eis uma coisa que ele não possuía: travesseiro.
   Além de mau e feio, o Gato Malhado era um pobre de Job; repousava a cabeça em cima dos braços. Sendo de pouco luxo, não reclamava. Falta sentia de outras coisas: de afeição, de carinho e de salsichas vienenses.
   Recolheu-se tarde. Antes, andara pelo parque, ao léu. Arranhara a casca de troncos de árvores, miara sem motivo evidente, sentira desejo de voltar a vagabundear nos telhados como praticara na distante adolescência. O cheiro bom da terra penetrara-lhe pelas narinas e seus grandes bigodes moveram-se inquietos. Sentira-se muito moço, até teve vontade de correr com os cães. E o teria feito, com certeza, se os cachorros não se houvessem afastado, cheios de receio, quando ele os procurou. Tal fora o seu estado de lassidão e de indefinido desejo que murmurou para si mesmo:
   - Creio que estou doente.
   Colocou a pata sobre a testa e concluiu:
   - Estou ardendo em febre...
   Quando, ao cair da noite, voltava para sua cama - um velho trapo de veludo - olhou uma flor e nela viu refletidos os rasgados olhos da Andorinha. Febril, foi ao lago beber água e na água também enxergou a Andorinha que sorria. E a reconheceu em cada folha, em cada gota de orvalho, em cada réstia de sol crepuscular, em cada sombra da noite que chegava. Depois a descobriu vestida de prata na lua cheia para a qual miou um miado dolorido. Ia alta a noite quando conseguiu dormir. Sonhou com a Andorinha, era a primeira vez que ele sonhava havia muitos anos.
   Devo concluir que o Gato Malhado, de feios olhos pardos, de escura fama de maldade, havia-se apaixonado? Agora que ele e a Andorinha dormem, que só a Velha Coruja está acordada, permito-me filosofar um pouco. É um direito universalmente reconhecido aos contadores de histórias e devo usá-lo pelo menos para não fugir à regra geral. Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros, ao contrário, além de acreditar afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da primavera ou mesmo no rigor do inverno. Na primavera é mais fácil, mas isso já é outro tema, não cabe aqui.




Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: Uma História de Amor




Jorge Leal Amado de Faria (10/8/1912 - 6/8/2001)
É um dos mais famosos escritores brasileiros de todos os tempos. O autor tem uma obra vasta, livros que inspiraram filmes e novelas, e muitos prémios nacionais e internacionais que o consagraram.
Algumas obras: Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Capitães da Areia, Tereza Batista, Tenda dos Milagres...




quarta-feira, 13 de abril de 2016

O NAVIO DE ESPELHOS

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que para)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E o mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
refletem os objetos)
E quando um deles ala
e o corpo sobe os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny de Vasconcelos, A Cidade Queimada,
Biblioteca Ulisseia