sábado, 31 de dezembro de 2016

A IDADE DO ANO

De verdes ramos e de frescas flores
vestiu a Terra na meninice infante
o seio virgem, e o vivaz semblante
adornou de grinaldas mil de cores.
Jovem depois, em plácidos amores
gozando, ao céu, seu amador constante,
lá das entranhas,como terna amante,
em vez de suspirar, lançou olores.
Frutos maduros logo o ventre aberto
deu abundantes, ao puro vento ufana,
tosca, mas a mostrar a face, e ruda.
Hoje, velho, de rugas recoberto,
seu rosto vemos, e de neves cana:
tudo a idade decompõe e muda.

Juan de Jáuregui

1583-1641

Escritor e pintor espanhol

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A MONTANHA

Covil de lobos escarpado e escuro.
O vento geme correndo os vales
Os lobos uivam pelos seus abismos.

O outono vem. O veado brama
Berro feroz chamando a fêmea.
E o grou solta um grito
Desolado e só.

Anónimo

Século IX

Cultura celta

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

RETRATO DO AUTOR POR CAMILO PESSANHA

A cinza arrefeceu sobre o brasido
das coisas não logradas ou perdidas:
olhos turvos de lágrimas contidas,
eu vi a luz em um país perdido.

Carlos Oliveira

1921-1981

Escritor português

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade,
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva toda flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

Teixeira de Pascoaes

1877 -1952

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UMA ROSA

Abrem-se ainda tardes como lagos
pálidos sobre os tetos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada das árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d'olhos no coração que acorda
do seu sonho de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive. E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.

Diego Valeri

1887-1976

Poeta italiano

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Eu cantarei,
Quando amanhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento.

Álvaro de Campos

Heterónimo de Fernando Pessoa

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A ROSA

Mote

A rosa para ser rosa
Deve ser d'Alexandria.

Glosa

A rosa para ser rosa
Deve ser muito cheirosa
Muito fresca e viçosa
Como tu linda Maria.
Seja branca ou encarnada
Amarela ou rosada
Deve ser d'Alexandria.

Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos

1890-1916

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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

PAISAGEM

A terra é roxa
O céu é azul
A vegetação é verde-escura
Esta paisagem é cruel dura triste não obstante a variedade infinita das formas vegetativas
Não obstante a graça inclinada das palmeiras e os penachos vistosos das grandes árvores em flor as flores-de-quaresma.

Blaise Cendrars, Mesa de Amigos

1887-1961

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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

GOZO e DOR

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
- Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida - ou a razão.

Almeida Garrett, Folhas Caídas

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domingo, 9 de outubro de 2016

FRESTA

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou soterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado,

Revivo, existo, conheço;
E, inda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço:
Entrego-lhe o coração.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio

1888 - 1935

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NÃO

Não formar nenhuma ideia
Do que somos ou seremos
Mas entre as vozes que fogem
Precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
Abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
Enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
Que penetram no espaço
De eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
Beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
Correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
Abraçar quem nos ignora
Dormir com quem não nos vê
Mas precisar do calor
De quem nunca nos encontra.

Natércia Freire, Antologia Poética

1919 - 2004

Poetisa portuguesa nascida em Benavente

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A CASA

Esta casa é a tua casa
quanto ao que permanece
nem sei que dizer
tanto me feriu a
insignificância do mundo
a relativa veracidade concedida aos lírios
minhas habilidades inexperientes

a obscuridade brilha para lá
da própria enseada

José Tolentino Mendonça, Baldios

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terça-feira, 20 de setembro de 2016

O TEMPO FAZ CARETAS

Visto que não há regresso
E o tempo está de mau cariz,
Viremos o dia do avesso
Para ver como é, primeiro.

A carranca dum velho ou o traseiro
Prazenteiro dum petiz?

Alexandre O'Neill, Poesias Completas

(1924-1986)

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domingo, 4 de setembro de 2016

EDVARD MUNCH

O grito,
o grito verde, adstringente,

e as raparigas
na ponte,
evitando a repetição
das cores

e o fascínio da água.

Eu que não sei,
que posso aprender?

José Alberto Oliveira, Alguns Dias

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

INVERNO

É noite, inverno desfeito. Entreabres
um pouco as cortinas. Vibra
a selva dos teus cabelos, a alegria
dilata-te imprevista os olhos negros;
porque o que viste - era uma imagem
do fim do mundo - te conforta
o íntimo coração, já quente e pago.

Um homem aventura-se num lago
de gelo, sob uma lâmpada evasiva.

Umberto Saba, Mesa de Amigos

1883 - 1957

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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

RECOMEÇO

Recomeço a partir de muito pouco,
nesta margem onde a areia, húmida e
sombria, erguida do sono,
se esvai por entre os meus dedos perdidos.
Recomeço a partir de uma única palavra,
de um infinito sinal que vi gravado nos
muros da tua cidade em ruínas.
Aí, nessa cal desaparecida,
vi, um dia, um pássaro imóvel, quase vivo,
com os olhos trespassados pelas agulhas do tempo,
inclinar-se e cair sobre as pedras mudas,
e esse pássaro eras tu,
ferida de morte,
afastando as lágrimas em vão.

José Agostinho Baptista, Anjos Caídos


terça-feira, 16 de agosto de 2016

DEPOIS DE TEBAS

Os mortos, como sabes,
não te podem ajudar.
Confundes-te com eles, fazes teu
tudo o que não disseram.
A cabeça da mãe, na fotografia,
abençoa o crime e a desavença.
Tem óculos, sorri, no jardim com gansos
que não passavam afinal de patos.

Entraste, pelo mesmo portão,
nas casas em que se prepara a peste
e não te atreverás sequer a escrever
o insuficiente livro da infância,

o cheiro, como dizer, das tangerinas.

Manuel de Freitas, Beau Séjour


domingo, 14 de agosto de 2016

COLAPSO

Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)

Tudo está
eternamente
em Quito
(Uma Rosa)

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Bocage

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes;
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores;

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora na folha a abelhinha para,
Ora nos ares, sussurrando, gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira
Mais tristeza que a noite me causara.

Bocage, Obra Completa

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Camões


Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.

Luís de Camões, Rimas

domingo, 29 de maio de 2016

ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

quarta-feira, 11 de maio de 2016

PRÓ PUDOR

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada e langorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela conceção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...

Cesário Verde



sexta-feira, 29 de abril de 2016

NÃO SEI SER TRISTE A VALER

Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é consciência.

‘Stá bem, enquanto não vêm,
Vamos florir ou pensar.

                                                                          Fernando Pessoa







segunda-feira, 25 de abril de 2016

OS ALMOÇOS NO RAMALHETE


   No Ramalhete, pontualmente ao meio-dia tocava a sineta do almoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida suavidade daquele fim de outono não permitia acender lume, mas verdejando todo de plantas de estufa.
   Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada, caçadores medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentando os cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando como teto escuro de castanho entalhado, a mesa resplandecia com as flores entre os cristais.
   O «Reverendo Bonifácio», que desde que se tornara dignitário da Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, como seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se; traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia.
   Afonso – como confessava, sorrindo e humilhado – ia-se tornando com a velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentração de crítico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um cavalheiro de mau génio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se chamava M. Théodore. Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre o relógio, se lembra do seu consultório. Bebia um cálice de chartreuse, acendia à pressa um charuto.
   - Ao trabalho, ao trabalho! – exclamava.
   E o avô, enchendo devagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquela ocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã...
   - Quando esse eterno laboratório estiver acabado, talvez vá para lá passar um bocado, ocupar-me de química.
   - E ser talvez um grande químico. O avô tem já o feitio.
   O velho sorria.
   - Esta carcaça já não dá nada, filho. Está pedindo Eternidade!
   - Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? – perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar.
   - Bom dia de trabalho.
   - Pouco provável...

Eça de Queirós, Os Maias



terça-feira, 19 de abril de 2016

O TRIGO É A PALAVRA DE DEUS


Semen est Verbum Dei

   O trigo que semeou o Pregador Evangélico, diz Cristo que é a Palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus, e se nasce não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das cousas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.
   Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje; e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso depois que subo ao púlpito. Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem Sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo. Este argumento de Fé, fundado na autoridade de Cristo, se aperta ainda mais na experiência, comparando os tempos passados com os presentes. Lede as Histórias Eclesiásticas, e achá-las-eis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus. Tantos pecadores convertidos, tanta mudança de vida, tanta reformação de costumes; os grandes desprezando as riquezas e vaidades do mundo; os Reis renunciando os ceptros e as coroas; as mocidades e as gentilezas metendo-se pelos desertos e pelas covas; e hoje? – Nada disto. Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos Pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva, não um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos Omnipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim, para aprender a pregar; a vós, que aprendais a ouvir.


Padre António Vieira, in Sermão da Sexagésima, capítulo II

segunda-feira, 18 de abril de 2016


ELES VERDES SÃO

a este alheio:

Minina dos olhos verdes,
porque me não vedes?

Voltas
Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d’olhos verdes,
Porque me não vedes.

Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d’olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
e vós não me credes,
porque me não vedes.

Haviam de ser,
porque possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.

Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?

Luís de Camões

sexta-feira, 15 de abril de 2016


... E O AMOR DESPERTOU



   Em torno era a primavera, o sonho de um poeta. O Gato Malhado teve vontade de dizer algo semelhante à Andorinha Sinhá. Sentou-se no chão, alisou os bigodes, apenas perguntou:
   - Tu não fugiste com os outros?
   - Eu? Fugir? Não tenho medo de ti, os outros são todos uns covardes... Tu não me podes alcançar, não tens asas para voar, és um gatarrão ainda mais tolo do que feio. E olha lá que és feio...
   - Feio, eu?
   O Gato Malhado riu, riso espantoso de quem havia desacostumado de rir, e desta vez até as árvores mais corajosas, como o Pau-Brasil - um gigante - estremeceram. "Ela o insultou e ele a vai matar", pensou o velho Cão Dinamarquês.
   O Reverendo Papagaio - reverendo porque passara uns tempos no seminário onde aprendera a rezar e decorara frases em latim, o que lhe dava valiosa reputação de erudito - fechou os olhos para não testemunhar a tragédia. Por duas razões: por ser emotivo, não lhe agradando ver sangue, menos ainda de andorinha tão formosa, e por não desejar servir como testemunha se o crime chegasse à justiça, maçada sem tamanho, tendo de decidir entre dizer a verdade e arcar com as consequências da ira do Gato Malhado - processo por calúnia, umas bofetadas, o bico arrancado, quem sabe lá o quê - ou mentir e ficar com fama de covarde, de cúmplice do assassino. Situação difícil, o melhor era não testemunhar. Em troca rezou pela alma da Andorinha Sinhá, ficando em paz com a sua consciência, uma chata cheia de exigências.
   A própria Andorinha Sinhá sentiu que exagerara e, por via das dúvidas, voou para um galho mais alto onde ficou bicando as penas num gesto de extrema faceirice. O Gato Malhado continuava a rir, apesar de se sentir um tanto ofendido. Não porque a Andorinha o houvesse taxado de mau e sim por tê-lo chamado de feio, e ele se achava lindo, uma beleza de gato. Elegante também.
   - Tu me achas feio? De verdade?
   - Feiíssimo... - reafirmou lá de longe a Andorinha.
   - Não acredito. Só uma criatura cega poderia me achar feio.
   - Feio e convencido!
   A conversa não continuou porque os pais da Andorinha Sinhá, o amor pela filha superando o medo, chegaram voando, e a levaram consigo, ralhando com ela, pregando-lhe um sermão daqueles. Mas a Andorinha, enquanto a retiravam, ainda gritou para o Gato:
   - Até logo, seu feio...
   (...)


   Os pais de Sinhá iam ralhando com ela. Mas estavam tão comovidos com o próprio heroísmo - tiveram coragem de afrontar o Gato Malhado para salvar a filha - que não ralharam demasiado. A Andorinha Pai dizia à Andorinha Mãe:
   - Nós amamos nossa filha, nós a salvámos.
   A Andorinha Mãe respondia: 
   - Nós somos bons pais, protegemos nossa filha.
   E se olhavam, admirando-se mutuamente. Proibiram terminantemente a Andorinha de novamente aproximar-se do inimigo feroz. Se os juramentos da Andorinha jovem não têm nenhum valor, bruscas proibições só fazem aguçar-lhe o interesse e a curiosidade. Não que Sinhá fosse uma dessas andorinhas às quais basta que se diga "não faça isso" para que imediatamente o façam. Ao contrário, terna e obediente, amava os pais. Era bem comportada, amável e bondosa. mas gostava que a convencessem das coisas com boas e justas razões e ainda ninguém lhe havia provado ser um pecado ou um crime manter relações cordiais com o Gato Malhado. Assim, quando deitou a gentil cabecinha sobre a pétala rosa que lhe servia de travesseiro, havia decidido continuar a conversa no outro dia:
   - Ele é feio mas é simpático... - murmurou ao adormecer.
   Quanto ao Gato Malhado, também ele pensou na arisca Andorinha Sinhá, naquela primeira noite da primavera, ao repousar a cabeça no travesseiro. Aliás, eis uma coisa que ele não possuía: travesseiro.
   Além de mau e feio, o Gato Malhado era um pobre de Job; repousava a cabeça em cima dos braços. Sendo de pouco luxo, não reclamava. Falta sentia de outras coisas: de afeição, de carinho e de salsichas vienenses.
   Recolheu-se tarde. Antes, andara pelo parque, ao léu. Arranhara a casca de troncos de árvores, miara sem motivo evidente, sentira desejo de voltar a vagabundear nos telhados como praticara na distante adolescência. O cheiro bom da terra penetrara-lhe pelas narinas e seus grandes bigodes moveram-se inquietos. Sentira-se muito moço, até teve vontade de correr com os cães. E o teria feito, com certeza, se os cachorros não se houvessem afastado, cheios de receio, quando ele os procurou. Tal fora o seu estado de lassidão e de indefinido desejo que murmurou para si mesmo:
   - Creio que estou doente.
   Colocou a pata sobre a testa e concluiu:
   - Estou ardendo em febre...
   Quando, ao cair da noite, voltava para sua cama - um velho trapo de veludo - olhou uma flor e nela viu refletidos os rasgados olhos da Andorinha. Febril, foi ao lago beber água e na água também enxergou a Andorinha que sorria. E a reconheceu em cada folha, em cada gota de orvalho, em cada réstia de sol crepuscular, em cada sombra da noite que chegava. Depois a descobriu vestida de prata na lua cheia para a qual miou um miado dolorido. Ia alta a noite quando conseguiu dormir. Sonhou com a Andorinha, era a primeira vez que ele sonhava havia muitos anos.
   Devo concluir que o Gato Malhado, de feios olhos pardos, de escura fama de maldade, havia-se apaixonado? Agora que ele e a Andorinha dormem, que só a Velha Coruja está acordada, permito-me filosofar um pouco. É um direito universalmente reconhecido aos contadores de histórias e devo usá-lo pelo menos para não fugir à regra geral. Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros, ao contrário, além de acreditar afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da primavera ou mesmo no rigor do inverno. Na primavera é mais fácil, mas isso já é outro tema, não cabe aqui.




Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: Uma História de Amor




Jorge Leal Amado de Faria (10/8/1912 - 6/8/2001)
É um dos mais famosos escritores brasileiros de todos os tempos. O autor tem uma obra vasta, livros que inspiraram filmes e novelas, e muitos prémios nacionais e internacionais que o consagraram.
Algumas obras: Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Capitães da Areia, Tereza Batista, Tenda dos Milagres...




quarta-feira, 13 de abril de 2016

O NAVIO DE ESPELHOS

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que para)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E o mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
refletem os objetos)
E quando um deles ala
e o corpo sobe os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mário Cesariny de Vasconcelos, A Cidade Queimada,
Biblioteca Ulisseia

terça-feira, 8 de março de 2016

Camões

O DIA EM QUE EU NASCI MOURA E PEREÇA

O dia em que eu nasci moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe} escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
e a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões

sábado, 5 de março de 2016

O CAVALEIRO NEGRO


   Entretanto Juliano recobrara o alento; a vergonha, o despeito, a sede de vingança estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava, sentindo seu senhor semimorto, tinha corrido espantado até onde a multidão de cristãos e árabes, travados em peleja sanguinolenta, lho consentia. O conde, cravando-lhe os acicates, com a espada erguida na mão, arremessou-o para o lugar onde o duque de Córdova pelejava com Mugueiz. Era um feito covarde: mas que importava a Juliano a desonra? Assinalado com o ferrete indelével de traidor, havia-se habituado a viver para um sentimento único – a vingança. E a vingança era quem o impelia.
   Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o Chrysus soava um correr de cavalo à rédea solta. Alguns soldados que andavam mais perto da margem volveram para lá os olhos. Um cavaleiro de estranho aspeto era o que assim corria. Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e o saio; o próprio ginete murzelo: lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da sela uma grossa maça ferrada de muitas puas, espécie de clava conhecida pelo nome de borda, e da esquerda a arma predileta dos godos, a bipena dos francos, o destruidor franquisque. Subiu rápido a encosta donde Roderico atendia aos sucessos da batalha. Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira para o lugar em que flutuavam os pendões das tiufadias da Bética. Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e, abrindo um abismo, se atura nas águas, assim o cavaleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em redor de Teodomiro e Mugueiz fervia o pelejar.
   Juliano tinha-se aproximado no entanto do esforçado duque de Córdova, que, ferido e obrigado a combater com o destro e feroz renegado, a custo se poderia defender dos golpes do conde, golpes que o ódio e a cólera dirigiam. Alguns cavaleiros da Bética voaram a socorrer Teodemiro; mas os árabes com que andavam travados tinham-nos seguido de perto e, rodeando Mugueiz, haviam tornado inútil o socorro dos cavaleiros cristãos. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros em volta dos dois capitães inimigos, através da qual debalde o conde se Septum buscara muitas vezes abrir caminho para ferir Teodemiro, até que finalmente, galgando por cima de um árabe derribado, pudera vibrar um golpe. O elmo do nobre godo restrugira, e o guerreiro vacilara. A última página da sua vida parecia escrita no livro dos destinos. Os dois adversários do duque de Córdova iam tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.
   Mas o cavaleiro desconhecido havia passado através da hoste goda e chegara à dianteira dos árabes. Com a maça jogada às mãos ambas abolava e rompia as armas mais bem temperadas, e as puas, entrando pelas carnes dos que se lhe punham diante, iam esmigalhar-lhes os ossos. Por onde ele atravessava, nem as fileiras se uniam, nem os godos achavam adversários. Como a charrua, tirada com violência em chão batido de planície, deixa após si grossas glebas revolvidas, assim aquela arma irresistível deixava, ao passar, uma larga cauda de cadáveres entretecida de moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados, perguntavam uns aos outros, quem seria aquele temeroso guerreiro; mas entre eles ninguém havia que pudesse dizê-lo. Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo das batalhas mandado por Deus para salvar Teodemiro e, com ele, os esquadrões da Bética.

Alexandre Herculano, Eurico, O Prebítero


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

POEMA COM h PEQUENO

Cantarei o homem criador crucificado
em suas máquinas. Caçador caçado
por suas armas. Tocador tocado
por suas harpas.
Cantarei o homem vezes homem até ao infinito.
Cantarei o homem. esse mortal-imortal
meu amigo-inimigo. Meu irmão.

Cantarei o homem que transforma tudo
e tão dificilmente se transforma.
Ele que se escreve com h pequeno
em todas as coisas que são grandes.

Cantarei o homem no plural.
Ele que é tão singular
tão impossível de ser outro
senão ele próprio: o homem.

Cantarei o homem vezes homem até à massa.
Cantarei a massa vezes massa até ao homem.
Porque não sei doutra guerra. Não sei doutra paz.
Não sei doutro poema que não seja o homem.

Manuel Alegre, Obra Poética,
Dom Quixote


Albrecht Durer, Adão e Eva, 1504

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MANHÃ NA SERRA

   Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro. Levanta-se o sol pela hora velha, mas já os operários passaram para as fábricas da vila. Vão sempre apressados, homens e mulheres. A gente que fica também se move. Tem-se a impressão que durante o tempo quente, com os trabalhos sucessivos das regas e colheitas, ninguém aqui dorme.
   A manhã vai abrindo vagarosamente. Da cumeada, lá bem ao alto de uns cabeços felpudos, mais próximos, e de outros escalvados, pesados e maciços, mais remotos, rompe o sol empoeirado. O Cabril, escuro, ainda não tem delineamento. Porém, neste outubro estiado nem as manhãs são frias, nem as névoas demoradas, nem o vento sopra, e não chove.
   Até a lua, no crescente, é luminosa! Tão formoso tempo desgosta o povo.
   A chuva mostra-se (anda o céu enevoado) de vez em quando, mas logo foge...
   Tudo vai aquecendo mansamente e o fumo sobe direito.É tão leve a inclinação que casualmente toma que só olhando-o pertinazmente se vem a descobrir o lado do vento.
   Os milhos mais serôdios ainda não foram ceifados e também não bolem. Há uma calma perfeita, e lembrarmo-nos nós de que os vendavais encanados por todas estas vertentes tortuosas chegam a derrubar as mais grossas canas de milho! (...)
   Ouço a chocalhada de mais um rebanho. Desde muito cedo que eles passam. Os pastores levam-nos lentamente, paulada a este chibo, paulada àquela ovelha, paulada em vão, descansada, para que os animais aproveitem bem toda a verdura mais ou menos seca das bordas antes de assentarem no chão que vão rapar e estrumar durante um dia ou mais. (...)
   Uma cantoria arrastada e graciosa, bem soante, vem da esquerda. Têm bonita voz as serranas da Estrela! É mais uma descasca do milho. E à minha direita, para meu desgosto (um desgosto mental, supérfluo), na mata destroçada da rica Artensa luzem os pinheiros finos, tombados e descascados, vendidos à companhia dos telefones, salvo erro, para postes. Na aldeia, de muitos fogos, não há nem se espera tão cedo telégrafo ou telefone! Esta rica Artensa do povo de lá tem o marido na América. Com o dinheiro americano e o serrano vão ambos fazendo um casão. Bastou-lhes terem um filho. Trataram logo dos interesses. Ele do lado d'além do mar e ela do lado aquém, governam-se satisfatoriamente.
   Mas diz o Jaleca, por malandrice, e ainda outros mais, repetindo o que ouvem aos parentes americanos de torna-viagem:
   Ô! Ô! É o'a vergonha dos portugueses. Poipar, sim, mas daquele modo? Ele t'chegou a andar co'os sapatos sem solas! E prò quê? Também les há de soar a hora, com'òs oitros...
   Não tendo mais que apontar, de momento pelo menos, porque tudo isto sendo variado é constante, repetido, levanto a pena e fico-me a olhar para o espesso e melindroso Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.
Irene Lisboa, Crónicas da Serra,
 Editorial Presença
Rio Zêzere, barragem do Cabril



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

DESCALÇA VAI PARA A FONTE

Mote:

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa e não segura.

Voltas:

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões