O POLVO
O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso
nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo dessa
aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham
constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito
polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em
se vestir ou pintar das mesmas cores de todas as cores a que está pegado. As
cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras que em Proteu
são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde;
se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; se está em
alguma pedra, como ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra.
E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando
desacautelado, e o salteador, que está
de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e
fá-lo prisioneiro. (…)
Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes

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