segunda-feira, 29 de agosto de 2016

INVERNO

É noite, inverno desfeito. Entreabres
um pouco as cortinas. Vibra
a selva dos teus cabelos, a alegria
dilata-te imprevista os olhos negros;
porque o que viste - era uma imagem
do fim do mundo - te conforta
o íntimo coração, já quente e pago.

Um homem aventura-se num lago
de gelo, sob uma lâmpada evasiva.

Umberto Saba, Mesa de Amigos

1883 - 1957

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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

RECOMEÇO

Recomeço a partir de muito pouco,
nesta margem onde a areia, húmida e
sombria, erguida do sono,
se esvai por entre os meus dedos perdidos.
Recomeço a partir de uma única palavra,
de um infinito sinal que vi gravado nos
muros da tua cidade em ruínas.
Aí, nessa cal desaparecida,
vi, um dia, um pássaro imóvel, quase vivo,
com os olhos trespassados pelas agulhas do tempo,
inclinar-se e cair sobre as pedras mudas,
e esse pássaro eras tu,
ferida de morte,
afastando as lágrimas em vão.

José Agostinho Baptista, Anjos Caídos


terça-feira, 16 de agosto de 2016

DEPOIS DE TEBAS

Os mortos, como sabes,
não te podem ajudar.
Confundes-te com eles, fazes teu
tudo o que não disseram.
A cabeça da mãe, na fotografia,
abençoa o crime e a desavença.
Tem óculos, sorri, no jardim com gansos
que não passavam afinal de patos.

Entraste, pelo mesmo portão,
nas casas em que se prepara a peste
e não te atreverás sequer a escrever
o insuficiente livro da infância,

o cheiro, como dizer, das tangerinas.

Manuel de Freitas, Beau Séjour


domingo, 14 de agosto de 2016

COLAPSO

Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)

Tudo está
eternamente
em Quito
(Uma Rosa)

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Bocage

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes;
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores;

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora na folha a abelhinha para,
Ora nos ares, sussurrando, gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira
Mais tristeza que a noite me causara.

Bocage, Obra Completa