JUSTAS CAUSAS
abril,22
Na quarta-feira, à entrada da aula, veio ter comigo o contínuo de serviço e queixou-se-me do Fosco. O Fosco fizera barulho, pulara, cantara, dançara ou lá o que foi antes de chegar... Assumi um ar de seriedade digno de um grande ator, e disse ao homenzinho - «Já trato do assunto», e ao Fosco, para que o homem ouvisse «Vamos ajustar contas». Depois fechei a porta; esperei, escutando, que se afastasse o empregado; e quando os seus passos se não ouviam já, anunciei que no próximo dia seria julgado o Fosco. Ele que escolhesse o seu advogado de defesa, um deles que propusesse advogado da acusação.
Fixe bem todo o professor que tem de cumprir o que promete ao aluno. Caso contrário, «há concluído», como, em tradução, diria o Radice. É que eles não esquecem - ou só esquecem o que os não interessa. E nós temos de ser exemplo de tudo - a começar, temos de dar o exemplo de bem cumprir. Mal entrei, vi logo na secretária o Poeta e o Gabriel; o Fosco estava entretido a despejar o cesto dos papéis, para uma improvisação feliz de banco de réu. E o debate começou, seguido com interesse e relativa seriedade da parte do público. O ataque não foi brilhante. Mas o Poeta - com que brilho, com que imaginação, com que correção de vocabulário e riqueza de argumentos não defendeu o seu constituinte!
Eu ia sempre «puxando» por cada um (o réu também falou, porque tinha «alguma coisa a alegar em sua defesa») e assim aquela aula, levada a brincar, teve o mérito de pôr os moços a falar sem o constrangimento com que recontam um trecho acabado de ler.
Prestou-se a coisa, também, a aquisição de vocabulário: juiz, juízo, julgar e outras palavras relacionadas com a audiência foram tratadas antes dela.
E surgiu então uma ideia, aplaudida por todos, e que vem ao encontro da Semana do Animal: passaremos a fazer, de vez em quando, julgamentos de animais de fábulas: O Lobo, de «O Lobo e o Cordeiro», a Cigarra, a Formiga, a Raposa, de «Le Corbeau et le Renard», virão ao tribunal.
Sebastião da Gama, Diário, Edições Ática
Sebastião da Gama (10/4/1924-1952)
Poeta e professor português.
Obras: Serra Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951). Póstumas: Pelo Sonho é Que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967), O Segredo é Amar (1969) e Cartas (1994).
| Serra d'Arrábida, sempre presenta na obra de Sebastião da Gama |
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