JUNTO AO CANAL
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Penso isto percorrendo
sábado de manhã a avenida Nevsky
e não me é estranho o claro cinzento
de setembro, os lugares não
mudam nem sequer
os transeuntes, Gogol passa
no passeio que
começa a encher-se de gente
e detém-se na ponte sobre o largo canal
Moika; a cidade mais bela assim a ela
se referiu há muito o Abelaira
ao regressar à obscura
Lisboa luminosa; olhando as caras claras
olho o mundo
à sua etapa última chegado,
mas não são últimas todas as etapas?
Não é pensável o poema, e o mundo
como que para, nos seus tempos diversos
se movendo, escrevo a andar, vejo
a manhã russa e as cores das fachadas
verdes e amarelas ocre e rosa envolvendo-me,
volto ao canal onde a aragem fria
a água agita e aparentemente a faz
correr, não estou aqui
talvez, lugar e
tempo anulam o meu ser
Gastão Cruz, A Moeda do Tempo,
Assírio & Alvim, 2006
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| São Petersburgo |

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