sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O Enigma

   Um envelope fechado é um enigma que contém outros enigmas no seu interior. Aquele era grande, grosso, de papel manila, com o timbre do laboratório impresso no ângulo inferior esquerdo. E antes de o abrir, enquanto o segurava na mão e procurava ao mesmo tempo uma espátula entre os pincéis e frascos de tinta e de verniz, Júlia estava muito longe de imaginar até que ponto esse gesto ia transformar a sua vida.
   Na realidade, já conhecia o conteúdo do envelope. Ou, como mais tarde veio a descobrir, julgava que conhecia. Talvez por isso não sentiu nada de especial até retirar as cópias fotográficas e colocá-las em cima da mesa, fitando-as vagamente aturdida e sustendo a respiração.  Só nesse momento compreendeu que A Partida de Xadrez ia ser algo mais do que simples rotina profissional. Na sua profissão, eram frequentes as descobertas imprevistas em quadros, móveis ou encadernações de livros antigos.  Seis anos a restaurar obras de arte proporcionavam uma vasta experiência de traços e correções originais, retoques e pinturas sobrepostas, até falsificações. Mas nunca, até àquele dia, uma inscrição oculta sob a pintura de um quadro: três palavras reveladas pela fotografia com raio X.

Arturo Pérez-Reverte, A Tábua de Flandres, Edições Asa, 2009


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sábado, 31 de março de 2018

À FRAGILIDADE DA VIDA HUMANA

Esse baxel, nas praias derrotado,
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido,
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar, em cinzas desatado,
Foi vistoso pavão de Abril florido:
Esse estio, em Vesúvios encendido,
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera,
Estrago, eclipse, cinza, ardor crel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baxel
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos

Escritor e bispo portugês

1673 -1743


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quinta-feira, 8 de março de 2018

VASCO DA GAMA

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
É um íntimo desígnio da vontade.
Os fados a favor
E a desfavor
São argumentos da posteridade.

O próprio génio pode estar ausente
Da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
Persistente,
O ânimo enfrente
A fúria de qualquer Adamastor.

O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
Do vinho que nos há de embriagar!

Miguel Torga

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CARTA DE GUIA DE CASADOS

   Uma das cousas que mais assegurar podem a futura felicidade dos casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda causa contradição; a contradição, discórdia. E eis aqui os trabalhos por donde vem. Perde-se a paz e a vida é inferno.
   Para a satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue, para o proveito dos filhos e da fazenda, para o gosto dos casados e das idades. Não, porém, que seja preciso uma conformidade de dia por dia entre o marido e a mulher, mas que não seja excessiva a ventagem de um a outro. Deve ser esta ventagem, quando a haja, sempre a parte do marido, em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
   Dizia um nosso grande cortesão, havia três castas de casamentos no mundo: casamento de Deus, casamento do Diabo, casamento da Morte; de Deus, o do mancebo com a moça; do Diabo, o da velha com o mancebo; da Morte, o da moça com o velho. Ele certo tinha razão, porque os casados moços podem viver com alegria; as velhas casadas com moços vive em perpétua discórdia; os velhos casados com as moças apresam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas damasias.

D Francisco Manuel de Mello, Carta de Guia  de Casados


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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

SEUS OLHOS

Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett, Folhas Caídas

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sábado, 27 de janeiro de 2018

O FRIO ESPECIAL

O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.

Álvaro de Campos, in Poemas














sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, Antologia Breve

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Fiei-me nos sorrisos da Ventura
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgrube e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!

Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

Bocage

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domingo, 7 de janeiro de 2018

AULA DE MATEMÁTICA

Pra que dividir sem raciocinar
Na vida é sempre bom multiplicar
E por A mais B
Eu quero demonstrar
Que gosto imensamente de você

Por uma fração infinitesimal
Você criou um caso de cálculo integral
E para resolver este problema
Eu tenho um teorema banal

Quando dois meios se encontram desaparece a fração
E se achamos a unidade
Está resolvida a questão

Prá finalizar, vamos recordar
Que menos por menos dá mais amor
Se vão as paralelas
Ao infinito se encontrar

Por que demoram tanto os corações a se integrar?
Se infinitamente, incomensuravelmente,
Eu estou perdidamente apaixonado por você.

António Carlos Jobim e Marino Pinto