segunda-feira, 10 de junho de 2019

CONTAS

Uma noite, quando a noite não acabava,
contei cada estrela no céu dos teus olhos;
e nessa noite em que nenhum astro brilhava
deste-me sóis e planetas aos molhos.

Nessa noite, que nenhum cometa incendiou,
fizemos a mais longa viagem do amor;
no teu corpo, onde o meu encalhou,
fiz caminho de náufrago e navegador.

Tu és a ilha que todos desejaram,
a lagoa negra onde sonhei mergulhar,
e as lentas contas que os dedos contaram

por entre cabelos suspensos do ar -
nessa noite em que não houve madrugada,
desfiando um terço sem deus nem tabuada.

Nuno Júdice, «Rimas e Contas», in Poesia Reunida
Dom Quixote

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