sexta-feira, 30 de outubro de 2015

BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o laço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Ó pescador!

Almeida Garrett, Folhas Caídas





O êxito é aprender a ir de fracasso em fracasso
 sem se desesperar.

Winston Churchill

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

NAS PRAIAS

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois que por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.

Sophia de Mello Breyner, Coral

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


A transitar num verbo transitivo
declino, perifrástica de charme
o advérbio de modo a conjugar-me
pronome possessivo ao teu ouvido.

Plural, superlativa e multiforme
morfológica sim lógica não
concordo consoante mas conforme.
Complemento indireto sempre à mão.

Conjugando um pretérito imperfeito
com um condicional que está sujeito
a outros predicados do destino

consigo a conjugação definitiva
por posição às vezes relativa
por nome pessoal e feminino.

Rosa Lobato de Faria, Memória do Corpo,
Lisboa: Textual, 1992


sábado, 24 de outubro de 2015

AR DE INVERNO

Aves do mar que em ronda lenta
giram no ar, à ventania,
gritam na tarde macilenta
a sua bárbara alegria.

Incha lá fora a vaga escura,
uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
este ar de Inverno, este ar doente?

Alma que vogas a gemer
na tarde anémica, de vento,
como se infiltra no meu ser
o teu esparso sofrimento!

Que viuvez desamparada
chora no ar, no vento frio,
por esta tarde macerada
em que a esp'rança se esvaiu!...

Roberto de Mesquita, Almas Cativas





quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PARTIDA DE VASCO DA GAMA

   Postos os navios em Restelo,  lugar de ancoragem antiga, um dia antes da sua partida foi ter a vigília com os outros capitães à casa de Nossa Senhora da Vocação de Belém, situada neste lugar de Restelo. A qual naquele tempo era uma ermida que o infante dom Henrique mandou fundar, onde estavam alguns freires, do convento de Tomar para administrarem os sacramentos aos mareantes.
   Ao seguinte dia que era sábado, oito de Julho, por ser dedicado a Nossa Senhora e a casa de muita romagem, assim por esta devoção, como por se irem despedir dos que iam n'armada, concorreu grande número de gente a ela.
   E, quando foi ao embarcar de Vasco da Gama, os freires da casa com alguns sacerdotes que da cidade lá eram idos dizer missa, ordenaram uma devota procissão com que o levaram ante si nesta ordem: ela e os seus círios nas mãos e toda a gente da cidade ficava detrás respondendo a uma ladainha que os sacerdotes diante iam cantando, até os porem junto dos batéis em que se haviam de recolher. Onde, feito silêncio, e todos postos em joelhos, o vigairo da casa fez em voz alta uma confissão geral, e no fim dela os absolveu na forma das bulas que o infante dom Henrique tinha havido para aqueles que neste descobrimento e conquista falecessem (como atrás dissemos). No qual auto foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse de muitas que nela se derramam na partida das armadas, que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir, donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas para os que vão, e terra de prazer aos que vêm.
   E quando veio ao desfraldar das velas que os mareantes, segundo seu uso deram aquele alegre princípio de caminho, dizendo: "Boa viagem!", todos estavam prontos na vista deles, com uma piadosa humanidade dobraram estas lágrimas, e começaram de os encomendar a Deus, e lançar juízos segundo o que cada um sentia daquela partida.
   Os navegantes, dado que com o fervor da obra e alvoroço daquela empresa embarcaram contentes, também passado o termo de desferir das velas, vendo ficar em terra seus parentes e amigos, e lembrando-lhe que sua viagem estava posta em esperança, e não em tempo certo nem lugar sabido, assim os acompanhavam em lágrimas como em pensamento das cousas que em tão novos casos se representam na memória dos homens: Assim que uns olhando para a terra e outros para o mar, juntamente todos ocupados em lágrimas e pensamentos daquela incerta viagem, tanto estiveram prontos nisso, até que os navios se alongaram do porto.

João de Barros, Ásia, Década I, livro IV, cap. II

Partida de Vasco da Gama em 1497

terça-feira, 20 de outubro de 2015


Bailemos nós biliões de canalhas
sob os morteiros destas verdes faias!

Bailemos nós biliões de aflitos
sob as granadas destes eucaliptos!

Bailemos nós biliões de formigas
sob os ramos nucleares destas ogivas!

Bailemos nós biliões de carneiros
sob as flores de fogo destes bombardeiros.

Natália Correia, Cantares dos trovadores galego-portugueses,
Editorial Estampa

1923-1993
Intelectual, poetisa e ativista social açoriana (portuguesa).
Foi também deputada da Assembleia da República.

domingo, 18 de outubro de 2015

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem
 
 
Infante D. Henrique

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

FOGO e RITMO

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo das unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto, Sagrada Esperança,
Lisboa: Ed. Sá da Costa, 1974

Médico e poeta angolano.
Foi o primeiro presidente de Angola, até 1979.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

DE QUE ME SERVE FUGIR

Mote

De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?

Voltas

Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou  meu perigo.

E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.

Luís de Camões


Luís de Camões

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

POÉTICO

Chega uma hora em que a poesia
não basta em si,
chega uma hora em que a posia
não basta em ti.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em mim.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Chega uma hora em que a poesia
não basta em nada.
Chega uma hora em que a poesia
não basta.
Não basta porque a poesia
não basta.
Como se desnecessária
chega uma hora em que a poesia
não basta em.
Não basta aquém,
não basta além.
Chega uma hora em que a poesia
não é.
Não é poesia,
se assim fosse, seria.
Chega uma hora em que a poesia
não basta, não chega.
Chega uma hora em que a poesia
se mata em si,
dentro dela,
no próprio avesso,
no cofre de sua palavra
o que não se alcança.
Chega uma hora em que a poesia
não dá.
Chega uma hora em que a poesia
não.

Álvaro Alves de Faria, Antologia de Poesia Contemporânea Brasileira,
Coimbra, Alma Azul

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

LEZÍRIA

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n'água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.

Miguel Torga, Diário I

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A TROMBA DO ELEFANTE WAN-BO



   Há muito, muito tempo - talvez na época em que o Céu se separou da Terra -, o Mundo estava povoado de monstros fabulosos: dragões alados que cuspiam fogo; lagartos gigantescos; serpentes vorazes com várias cabeças...
   Estas incríveis criaturas aterrorizavam os outros animais da criação. Os herbívoros e carnívoros só conseguiam salvar a vida graças às suas manhas e agilidade. Alguns, como a família de Sanu, o macaco, escapavam a esses monstros porque a imensa floresta tropical tinha esconderijos maravilhosos.
   Não era esse o caso de Wan-Bo, o elefante. O infeliz Wan-Bo tinha dificuldade em se esconder atrás do capim gigante ou dos arbustos, quando um desses monstros o avistava. É certo que as suas poderosas presas obrigavam o inimigo a recuar... Mas, nesse tempo, Wan-Bo não tinha tromba! Não, Wan-Bo não tinha nada pendurado do nariz...
   Ora vamos saber como, um belo dia, obteve essa terrível arma que hoje todos lhe invejam.
   Estava-se na estação seca. Faltava a água. A caça rareava. As criaturas monstruosas chegavam a devorar-se umas às outras. Por uma noite quente, junto da lagoa seca, houve uma luta mortal entre uma gigantesca serpente e um dragão. O fragor do combate atingiu o coração da grande floresta. Durante três dias e três noites, com inaudita violência, afrontaram-se os dois colossos. Ao fim do terceiro dia,  o dragão, cujo corpo era uma enorme boca - ou melhor, uma autêntica caverna! - armada de milhares de dentes, cortou o corpo do adversário em vários pedaços, que devorou avidamente.
   Depois disso, dirigiu-se para a sua gruta, a fim de limpar os ferimentos envenenados que recebera durante a batalha.
   Mas, ao afastar-se, tinha-se esquecido de um pedaço da monstruosa serpente, o mais pequeno. Era a extremidade da cauda, com mais de dois metros, cinzenta como um ramo morto de uma árvore e onde a parte cortada tinha a aparência de uma almofada de carne rósea. E esse pedaço de carne torcia-se no meio da erva como se procurasse à sua volta os restos do corpo a que pertencera uns momentos antes. Um espetáculo tão triste como ridículo e que fazia rir Sanu, o macaco, instalado num ramo de imbondeiro.
   Foi então que apareceu Wan-Bo. Pastava, há horas e horas, o capim gigante, cobiçando as tenras ervinhas que verdejavam junto do chão mas que não podia alcançar por ser demasiado alto.
   E, de repente, quando uma das suas patas se preparava para esmagar o pedaço da serpente que se retorcia na erva, este estendeu-se de súbito e o lado cortado foi prender-se no nariz de Wan-Bo!
   O elefante, surpreendido, recuou, pensando ter sido atacado. Depois sacudiu-se e, com o auxílio das enormes orelhas, esfregou aquela "coisa" contra as hastes de bambu para se livrar dela. Em vão! A cauda da serpente prendera-se com muita força e nada a conseguiria afastar do nariz do elefante.
   Mas, com grande espanto de Wan-Bo, começou a falar. É verdade, começou a falar!
   - Oh, Wan-Bo - gemeu -, não te quero mal algum. Acredita em mim. Não sou mais do que uma cauda, um pequeno pedaço de cauda infeliz e perdida. O dragão-cabeça venceu-me e devorou-me! Vê lá o que resta de mim! E como eu gostaria de continuar a viver...
   Wan-Bo respirou, mais descontraído. Esta criatura merecia-lhe alguma consideração.
   - Falas verdade? Combateste o dragão-cabeça? És muito corajosa! Mas agora estás a perturbar-me. Vai-te embora, por favor!
   A cauda agitou-se freneticamente no nariz de Wan-Bo.
   - Ouve-me, ouve-me, grande Wan-Bo - suplicou, torcendo-se desesperada. - Tive agora uma ideia assombrosa! Ainda não estás habituado à minha presença, mas posso ajudar-te de muitas maneiras e...
   - Nem penses nisso! Já te disse que me incomodas... Vamos lá, ou sais a bem ou esmago-te contra o tronco deste imbondeiro.
   - Não, não, por favor! Ouve: serei tua escrava!
   - Escrava? Escrava?... Mas eu não preciso de ti para nada... - disse Wan-Bo, rindo-se. - Não passas de um miserável pedaço de cauda de serpente! A cauda torcia-se e retorcia-se. O seu espírito funcionava com mais lentidão desde que não tinha cabeça, pois não estava acostumada a pensar sozinha. Mas, de repente, soube o que responder e como convencer o grande elefante.
   - Repara! - exclamou. - Repara, Wan-Bo, como posso ajudar-te...
   E estendeu-se, estendeu-se até ao solo. Aí, tateou um pouco às cegas até encontrar o que procurava: um tufo de ervas bem frescas...
   A cauda enroscou-se e foi levar à boca do elefante a erva rasteira com que ele sempre sonhara. Ah, como era maravilhosa!
   - É tenrinha? É fresca? Queres mais? - perguntava a cauda, enquanto o elefante ia saboreando o apetitoso alimento.
   - Hum, hum... Mais um pouco, por favor!
   A cauda voltou a desenrolar-se uma, duas, três vezes... até que Wan-Bo, satisfeito e saciado, começou a sentir esse torpor infinitamente agradável que precede as longas digestões.
   Mas, de repente, sentiu o estômago novamente vazio. Os pequenos olhos de Wan-Bo tinham acabado de poisar numa mangueira... Oh, essas mangueiras cujos frutos doirados e sumarentos se escondiam no meio da folhagem! Há quanto tempo sonhava com eles!
   - E... e... talvez me possas ajudar a colher aqueles belos frutos doirados... - perguntou, um tanto perturbado por ter de confessar a sua insaciável gulodice.
   - Basta que mos indiques, ó meu senhor!
   Wan-Bo trotou até junto da árvore, e a cauda da serpente gigante ergueu-se no ar.
   - Sou cega, meu senhor. Orienta-me!
   - É aquele... Sim, mais à direita! Que bom! E o outro ao lado! - murmurava Wan-Bo, que nunca tinha comido nada tão saboroso em toda a sua vida.
   - E, assim, dirigida em volta do fruto apetecido, a cauda da serpente arrancava-o cuidadosamente para não o esmigalhar, e levava-o à boca de Wan-Bo. Este pensava que nunca mais teria medo de envelhecer. A sua cauda - mas seria na verdade "uma cauda"? - cuidaria dele, alimentá-lo-ia...
   Ao cair do dia, Wan-Bo e a cauda da serpente já se haviam tornado os melhores amigos do mundo. E a sua aliança ainda perdura...
   No entanto, houve um dia em que Wan-Bo esteve quase, quase, a perder... a tromba. Foi no dia em que Aroon, o leão, com uma valentíssima sapatada, cortou a extremidade da cauda! Não foi muito grave. Nem demasiado grande nem demasiado pequena, a tromba tornou-se um instrumento tão útil que todos os animais do mato passaram a invejar Wan-Bo.
   Mas um conselho vos dou: se encontrarem o elefante, não façam alusões à sua tromba. Não se divirtam a dizer-lhe que essa espécie de nariz não passa de uma simples cauda de serpente! Em primeiro lugar, porque Wan-Bo pode não gostar da brincadeira... e, depois, porque talvez a tromba ainda conserve parte do lendário rancor das serpentes...
   Nunca se sabe!



Contos Africanos, Ed. Verbo


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domingo, 4 de outubro de 2015


A FLOR



   Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe um papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
   Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tantas força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
   Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
   Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas.: Uma flor!
   As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
   Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!




Almada Negreiros, Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa




José de Almada Negreiros (1893-1970)
Nasceu em S. Tomé, na roça Saudade, mas veio para Portugal em criança. Fez os seus estudos em Lisboa e Coimbra. Em Paris, aprofundou os seus conhecimentos de pintura. Viveu em Espanha, de 1927 a 1932. Artista talentoso, foi pintor, muralista, poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, deixando-nos uma obra de elevado valor.
Alguns títulos da sua produção literária: A Engomadeira (1917), Manifesto Anti-Dantas e por Extenso (1921), A Invenção do Dia Claro (1921) (romance) e Nome de Guerra (1938).



Pintura de Almada Negreiros


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa, Cancioneiro


quinta-feira, 1 de outubro de 2015


AUTO-RETRATO

   Magro, de olhos azuis, carão moreno,
   Bem servido de pés, meão na altura,
   Triste de facha, o mesmo de figura,
   Nariz alto no meio, e não pequeno;

   Incapaz de assistir num só terreno,
   Mais propenso ao furor do que à ternura
   Bebendo em níveas mãos por taça escura;
   De zelos infernais letal veneno;

   Devoto incensador de mil deidades
   (Digo, de moças mil) num só momento,
   E somente no altar amando os frades,

   Eis Bocage, em quem luz algum talento;
   Saíram dele mesmo estas verdades,
   Num dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage, Sonetos



Manuel Maria Barbosa du BOCAGE (1765-1805)
Nasceu em Setúbal no seio de uma família culta, desde muito cedo revelou interesse pela poesia, tinha o dom da improvisação.
Teve uma vida agitada, boémia, literariamente produtiva e variada.