quinta-feira, 30 de abril de 2015

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

 

   Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
   Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome, sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
   Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos teus carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti  - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
   Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"
   É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.


José Saramago, Deste Mundo e do Outro

A avó Josefa

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A MINHA PRIMEIRA PAIXÃO

   A Lia foi deveras a minha primeira paixão. Era parecida com uma inglesa que eu vira um dia a tomar banho em Leça, quando estava criado no Porto e os senhores veraneavam na praia.
   Falávamos de lições, de filmes (passou nessa altura no Cinema-Parque A Pecadora, com Pina Meniccheelli), fazia-lhe os pontos, emprestava-lhe os meus significados, mas nunca tive coragem de ir mais além. O amor que sentia confessava-lho nas redações marcadas pelo professor Morais, que tinha um fraco pelas paisagens. Dizia na sua voz grave:
   - Para segunda feira trazem todos a descrição de uma paisagem.
   Eu fazia duas chapas diferentes do mesmo natural imaginado, e ia levar a casa da inspiradora, de presente, a que tinha melhor luz. Metia sempre um regato de água clara e relva macia em ambas as margens, para os do piquenique - entre os quais havia um par de jovens apaixonados - poderem sentar-se no chão comodamente; a cinquenta metros, de um lado e de outro, plantava um pedaço de boa mata com duas juritis a gemer; e pregava num céu cor dos seus olhos um sol criador a bafejar aquele idílio. Mas ela gostava, e o senhor Professor Morais também.
    Quando qualquer mestre lhe pronunciava o nome, estremecia no meu lugar. Tinha a certeza de que não iria responder coisa com coisa, e a sua ignorância irresponsável, exibida diante de todos, cortava-me a alma. Enquanto eu assim sofria, ela erguia-se, delgada, flexível, olhos azuis e maliciosos, avançava até ao quadro, e despachava as tolices num tal à-vontade, que parecia que estava a dizer maravilhas. Não levava aquilo a sério. Os professores indignavam-se, barafustavam, mas nem os ouvia. Regressava à carteira, risonha, calma, feliz da vida. As outras condiscípulas sabiam gramática, história, geografia... Ela sabia rir-se e vestir umas blusas muito brancas e muito justas, onde os seios se desenhavam redondos e pequenos. No fundo, era daquele feitio desprendido e alegre que eu gostava. E procurei ser o melhor aluno da classe, para compensar os seus estenderetes. Queria saber por nós os dois. E sentia-me dono do mundo quando, no fim de cada chamada, descia do estrado e cuidava ler-lhe no rosto um aplauso reconhecido pela figura brilhante que fizera.
   Depois, à tardinha, passava-lhe à porta. Se não estava à janela, tudo corria bem.  Se estava, trocava o passo, ficava vermelho, e o chão fugia-me debaixo dos pés.

Miguel Torga, A Criação do Mundo, 1937
AS PALAVRAS NOVAS



   Entre coisas e palavras - principalmente entre palavras - circulamos. A maioria delas não figura nos dicionários de há trinta anos, ou figura com outras aceções. A todo o momento impõe-se tomar conhecimento de novas palavras e combinações de.
   Você quem me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual, pelo seu ouvido, sem a registar. Amanhã, pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz.
   A cassete, o spray, o linóleo, o nylon, o nycron, o dictafone, a informática, o telex existiam em 1940?
   Ponha aí o computador, os mísseis, o biquíni, o módulo lunar, o antibiótico, o enfarte, a acupunctura, o acrílico, o apartheid, o som pop, a arte pop, as estruturas e a infraestrutura.
   Não esqueça também (seria imperdoável) o Terceiro Mundo, a descapitalização, o desenvolvimento, o unissexo, os mass media, a renda per capita.
   De passagem, anote a reunião de cúpula, a conjuntura, o ioga e o iogurte.
   Só? Não. Tem seu lugar ao sol a metalinguagem, as algias, a coca cola, o superego, a futurologia, a UNESCO e a ONU.
   Estão reclamando porque não citei a conotação, o conglomerado, o diagrama, a IBM, o zoom e a guitarra elétrica,
   Mas por sua vez se esqueceram de lembrar o ecumenismo, monema, parâmetro, gerontologia, genocídio, política habitacional.
   Olha aí na fila - quem? Embraiagem, desfasamento, vela de ignição, engarrafamento, poliéster, poluição.
   Mas há que haver espaço para sectorial, tónica, napalm, passarela. A transplantação. A implantação. O audiovisual e os seus flanelógrafos. A macrobiótica, pois não. E o offset.
   Fundos de investimento, e daí? Também os de incentivos fiscais. Know-how. Máquina de barbear elétrica de 90 micro-ranhuras. Baquelite. LP e compacto. Alimentos congelados. Circuito fechado de TV. (...) Entre palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos, finalmente, mas com que significado?



Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa









terça-feira, 28 de abril de 2015

A TEMPESTADE

   O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório.
   O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos.
   Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria.
   Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas.
   Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Saga" in Histórias da Terra e do Mar,
 Figueirinhas

 

BREVE


Bom, diz ele,
dia!, diz ela.


Vamos?, diz ele,
Não!, diz ela.


Que há?, diz ele,
Nada!, diz ela.


Então, diz ele,
Adeus!, diz ela.

Alexandre O'Neill




O PIROPO


   A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, os rapazes de Portugal já não correm atrás das raparigas - andam com elas. A diferença entre "correr atrás" e "andar com" é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonolência. O amor não pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras. (...)
   Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o cool da contemporaneidade "Vamos aí?". Ou simplesmente "´Bora aí?". Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e boçal "Bute?". "Bute" significa qualquer coisa como "Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas". Mas, como os rapazes só dizem "Bute?", são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas "Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?" E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas - foi um "Bute" terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?
   Isto não pode ser, até porque há uma tradição a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer "Ai, Lena... quando ele disse "Bute" subiu-me o coração à boca!" A verdade é que o coração é um órgão bastante preguiçoso e só se dá ao trabalho de subir à boca quando se lhe dão excelentes motivos para isso.
   De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e simplesmente "Bute" - é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.


Miguel Esteves Cardoso, A Causa das Coisas


  

segunda-feira, 27 de abril de 2015

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter mil desejos o esplendor
É não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca, Charneca em Flor



FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

Nasceu em Vila Viçosa, e foi uma das primeiras mulheres a frequentar o curso de Direito em Lisboa. De temperamento inquieto, teve uma vida sentimental intensa e acabou por se suicidar, em Matosinhos, aos 36 anos. Dedicou-se sobretudo ao soneto, destacando-se, na sua obra, O Livro de Mágoas, Soror Saudade e Charneca em Flor.


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O NOME DAS COISAS



   É importante saber o nome das coisas. Ou, pelo menos, saber comunicar o que você quer. Imagine-se entrando numa loja para comprar um... um... como é mesmo o nome?
   "Posso ajudá-lo, cavalheiro?"
   "Pode. Eu quero um daqueles, daqueles..."
   "Pois não?"
   "Um... como é mesmo o nome?"
   "Sim?"
   "Pomba! Um... um... Que cabeça a minha. A palavra me escapou por completo. É uma coisa simples, conhecidíssima."
   "Sim, senhor."
   "O senhor vai dar risada quando souber."
   "Olha, é pontuda, certo?"
   "O quê, cavalheiro?"
   "Isso que eu quero. Tem uma ponta assim, entende? Depois vem assim, assim, faz uma volta, aí vem reto de novo, e na outra ponta tem uma espécie de encaixe, entende? Na ponta tem outra volta, só que esta é mais fechada. E tem um, um... Uma espécie de, como é que se diz? De sulco. Um sulco onde encaixa a outra ponta, a pontuda, de sorte que o, a, o negócio, entende, fica fechado. É isso. Uma coisa pontuda que fecha. Entende?"
   "Infelizmente, cavalheiro..."
   "Ora, você sabe do que eu estou falando."
   "Escuta. Acho que não podia ser mais claro. Pontudo numa ponta, certo?"
   "Se o senhor diz, cavalheiro."
   "Como, se eu digo? Isso já é má vontade. Eu sei que é pontudo numa ponta. Posso não saber o nome da coisa, isso é um detalhe. Mas sei exatamente o que eu quero."
   "Sim, senhor. Pontudo numa ponta."
   "Isso. Eu sabia que você compreenderia. Tem?"
   "Bom, eu preciso saber mais sobre o, a, essa coisa. Tente descrevê-la outra vez. Quem sabe o senhor desenha para nós?"
   "Não. Eu não sei desenhar nem casinha com fumaça saindo da chaminé. Sou uma negação em desenho."
   "Sinto muito."
   "Não precisa sentir. Sou técnico em contabilidade, estou muito bem de vida. Não sou um débil mental. Não sei desenhar, só isso. E hoje, por acaso, me esqueci do nome desse raio. Mas fora isso, tudo bem. O desenho não me faz falta. Lido com números. Tenho algum problema com os números mais complicados, claro. O oito, por exemplo. Tenho que fazer um rascunho antes. Mas não sou um débil menta, como você está pensando."
   "Eu não estou pensando nada, cavalheiro."
   "Chame o gerente."
   "Não será preciso, cavalheiro. Tenho certeza de que chegaremos a um acordo. Essa coisa que o senhor quer, é feita de quê?"
   "É de, sei lá. De metal."
   "Muito bem. De metal. Ela se move?"
   "Bem... É mais ou menos assim. Presta atenção nas minhas mãos. É assim, assim, dobra aqui e encaixa na ponta assim."
   "Tem mais de uma peça? Já vem montado?"
   "É inteiriço. Tenho quase a certeza que é inteiriço."
   "Francamente..."
   "Mas é simples! Uma coisa simples. Olha: assim, assim, uma volta aqui, vem vindo, vem vindo, outra volta e clique, encaixa."
   "Ah, tem clique. É elétrico?"
   "Não! Clique, que eu digo, é o barulho de encaixar."
   "Já sei!"
   "Ótimo!"
   "O senhor quer uma antena externa de televisão."
   "Não! Escuta aqui. Vamos tentar de novo..."
   "Tentemos por outro lado. Para que serve?"
   "Serve assim para prender. Entende? Uma coisa pontuda que prende. Você enfia a ponta pontuda por aqui, encaixa a ponta no sulco e prende as duas partes de uma coisa."
   "Certo. Esse instrumento que o senhor procura funciona mais ou menos como um gigantesco alfinete de segurança e..."
   "Mas é isso! É isso! Um alfinete se segurança!"
   "Mas do jeito que o senhor descrevia parecia uma coisa enorme, cavalheiro!"
   "É que eu sou meio expansivo. Me dê aí um... um... Como é mesmo o nome?"




Luís Fernando Veríssimo, Amor Brasileiro


LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO (26/9/1936)
Escritor brasileiro, autor de crónicas, textos humorísticos e sátiras de costumes, presença habitual em jornais brasileiros.





domingo, 26 de abril de 2015

O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES



   Aqui há uns quarenta anos fiz uma longa viagem a pé, pelas alturas absolutamente desconhecidas dos turistas, nessa velhíssima região dos Alpes que entra pela Provença. A região é delimitada a sueste e a sul pelo curso médio do rio Durance, entre Sistereau e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Dôme, desde a nascente até Die; a oeste, pelas planícies do  Comtat Venaissin e pelos contrafortes do Mont-Ventoux. Compreende toda a parte Norte do distrito dos Baixos Alpes, o Sul do Drôme e um pequeno enclave do Vaucluse.
   Eram, na altura em que comecei a longa caminhada por aqueles desertos, extensas charnecas nuas e monótonas, a uns 1200 ou 1300 metros de altitude. Só medrava a alfazema selvagem.
   Atravessava a região no sentido do comprimento e, ao fim de três dias de caminho, estava na desolação mais completa. Acampei ao lado do esqueleto de uma aldeia abandonada. A água acabara-se-me na véspera e precisava de encontrar mais. Aquelas casas todas juntas, embora em ruínas, como um antigo ninho de vespas, fizeram-me pensar que deveria ter havido ali, em tempos, uma fonte ou um poço. Havia de facto uma fonte, mas seca. As cinco ou seis casas, sem telhado, roídas do vento e da chuva, a capelinha com o campanário derrocado, estavam bem alinhadas como as casas e as capelas das aldeias vivas, mas a vida desaparecera por inteiro.
   Era um belo dia de junho, com muito sol, mas nessas terras desabrigadas e altas no céu, o vento soprava com uma brutalidade insuportável.. Os bramidos contra as carcaças das casas eram os de uma fera interrompida à refeição.
   Tive de levantar o acampamento. Após cinco horas de marcha, ainda não tinha encontrado água e nada me dava esperança de a encontrar. Sempre a mesma secura, as mesmas ervas lanhosas. Pareceu-me vislumbrar ao longe uma pequena silhueta negra, de pé. Tomei-a pelo tronco de uma árvore solitária. Completamente ao acaso, dirigi-me para lá. Era um pastor. Umas trinta ovelhas deitadas na terra que queimava descansavam junto dele. Deu-me de beber da sua cabaça e daí a pouco levou-me ao redil, numa ondulação do planalto. Tirava a água, excelente, de um furo natural, muito profundo, sobre o qual instalara um sarilho rudimentar.
   O homem falava pouco. É assim com os solitários, mas sentíamo-lo seguro de si e confiante nessa segurança. Era insólito, nesse lugar despojado de tudo. Não vivia numa cabana, mas numa casa mesmo, de pedra, onde se via muito bem como o seu trabalho pessoal tinha remendado a ruína que encontrara à chegada. O telhado era sólido e estava bem vedado. O vento que lhe batia fazia nas telhas o ruído do mar nas praias.
(...)
   O pastor que não fumava foi buscar um saquinho e despejou na mesa um monte de bolotas. Pôs-se a examiná-las uma a uma com muita atenção, separando as boas das más. Eu fumava o meu cachimbo. Propus-lhe ajuda. Disse-me que aquilo era com ele. E era: vendo o cuidado que ele punha no que fazia, não insisti. Foi toda a nossa conversa. Quando teve do lado das boas um monte de bolotas suficiente, contou-as em saquinhos de dez. E ao fazê-lo, ainda eliminava os frutos pequenos e os que estavam ligeiramente gretados, pois examinava-os realmente de muito perto. Quando conseguiu cem bolotas perfeitas, parou e fomos deitar-nos.
(...)
   Reparei que, como se fosse um cajado, levava um varão de ferro da grossura do polegar e com aí um metro e meio de comprimento. Fiz de conta que ia a passear todo descansado e segui um caminho paralelo ao seu. O pasto das ovelhas ficava no fundo de uma comba. Deixou o pequeno rebanho à guarda do cão e subiu para onde eu estava. Receei que viesse censurar-me a indiscrição, mas nem pensar, era o caminho dele e convidava-me a acompanhá-lo se não tivesse mais nada que fazer. Ia a uns duzentos metros dali, a subir. Chegado aonde queria, pôs-se a espetar o varão de ferro na terra. fazia um buraco, onde punha uma bolota, depois tapava o buraco. Plantava carvalhos. Perguntei-lhe se a terra era dele. Respondeu-me que não. Sabia a quem pertencia? Não sabia. Supunha que a terra fosse comunal, ou talvez propriedade de gente a quem não interessava? Ele não tinha interesse nenhum em conhecer os proprietários. Assim plantou cem bolotas com extremo cuidado.




Jean Giono, O homem que plantava árvores

JEAN GIONO (1895-1970)
Nasceu em Manosque, na Provença. Começou cedo a trabalhar, devido à falta de saúde do pai. Em 1915 foi mobilizado e enviado para a frente de batalha, em Verdun. A experiência da guerra marcou-o e transformou-o num pacifista convicto.
Algumas obras: Colline (1929), Naissance de l'Odyssée (1930), L'Eau Vive (1943), Noé (1947, Les Granda Chemins (1951, Le Déserteur (1966).
O homem que plantava árvores é um conto delicioso que mostra como o homem pode mudar o mundo em que vive.



sábado, 25 de abril de 2015

LIBERDADE


"Je suis né pour te connaître
pour te nommer Liberté."
Paul Éluard


Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.


Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito
água e fogo lenha vento
Primavera Pátria exílio.


Teu nome onde exilado habito e canto
mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.


Sobre esta página escrevo
o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue.
Amor e morte. Navio.


Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo
este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.


Sobre esta página escrevo
o teu nome: liberdade.



Manuel Alegre, 30 Anos de Poesia, 2ª ed,
Dom Quixote, 1997


MANUEL ALEGRE (1936)



Estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, participou ativamente nas lutas académicas, foi preso pela polícia política (PIDE) por se revoltar contra a guerra colonial, esteve exilado em Argel durante dez anos. É um dos poetas mais cantados pelos músicos portugueses.
Algumas obras: Senhora das Tempestades (1998), Praça da Canção (1965), Canto das Armas (1967).
Ganhou o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1998) e o Prémio Pessoa em 1999.

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PORQUE


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner, Obra Poética,
Editorial Caminho




René Magritte, A Queda

Oh! Liberdade!

     Se eu pudesse
     pelas frias manhãs
     acordar tiritando
     fustigado pela ventania
     que me abre a cortina do céu
     e ver, do cimo dos meus montes,
     o quadro roxo
     de um perturbado nascer do sol
     a leste de Timor

     Se eu pudesse
     pelos tórridos sóis
     cavalgar embevecido
     de encontro a mim mesmo
     nas serenas planícies do capim
     e sentir o cheiro de animais
     bebendo das nascentes
     que murmurariam no ar
     lendas de Timor

     Se eu pudesse
     pelas tardes de calma
     sentir o cansaço
     da natureza sensual
     espreguiçando-se no seu suor
     e ouvir contar as canseiras
     sob os risos
     das crianças nuas e descalças
     de todo o Timor

     Se eu pudesse
     ao entardecer das ondas
     caminhar pela areia
     entregue a mim mesmo
     no enlevo molhado da brisa
     e tocar a imensidão do mar
     num sopro da alma
     que permita meditar o futuro
     da ilha de Timor

     Se eu pudesse
     ao cantar dos grilos
     falar para a lua
     pelas janelas da noite
     e contar-lhes romances do povo
     a união inviolável dos corpos
     para criar filhos
     e ensinar-lhes a crescer e a amar
     a Pátria Timor!

Cipinang, 8 de outubro de 1995

Xanana Gusmão, Mar Meu, Poemas e Pinturas,
 Granito Editores e Livreiros


JOSÉ ALEXANDRE KAY RALA XANANA GUSMÃO (20/6/1946)

Político timorense, um dos principais ativistas que lutou pela independência de Timor, durante anos foi chefe da resistência timorense durante a ocupação indonésia.
Foi o primeiro presidente de Timor, de 20/5/2002 a 20/5/2007.

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Timor

Caro Leitor

Hoje comemora-se, em Portugal, o dia da LIBERDADE!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

NÃO SABIA QUE ERA PRECISO



   Ao contrário do que afirmam os ingénuos (todos o somos uma vez por outra), não basta dizer a verdade. De pouco ela servirá ao trato das pessoas  se não for crível, e talvez até devesse ser essa a sua primeira qualidade. A verdade é apenas meio caminho, a outra metade chama-se credibilidade. Por isso há mentiras que passam por verdades, e verdades que são tidas por mentiras.
   Esta introdução, pelo seu tom de sermão da quaresma, prometeria uma grave e aguda definição de verdades relativamente absolutas e de mentiras absolutamente relativas. Não é tal. É apenas um modo de me sangrar em saúde, de esquivar acusações, pois, desde já o anuncio, a verdade que hoje trago não é crível. Ora vejamos se isto é história para acreditar.
   O caso passa-se num sanatório. Abro um parênteses: o escritor português que escolhesse para tema de um romance a vida de sanatório, talvez não viesse a escrever A Montanha Mágica ou o Pavilhão dos Cancerosos, mas deixaria um documento que nos afastaria da interminável ruminação de dois ou três assuntos erótico-sentimentalo-burgueses. Adiante, porém, que esta crónica não é lugar de torneios ou justas literárias. Aqui só se fala de simplezas quotidianas, pequenos acontecimentos, leves fantasias - e hoje, para variar, de verdades que parecem mentiras. (Verdade, por exemplo, é o doente que entrava para o chuveiro, punha a água a correr, e não se lavava. Durante meses e meses não se lavou. E outras verdades igualmente sujas, rasteiras, monótonas, degradantes.)
   Mas vamos à história. Lá no sanatório, dizia-me aquele amigo, havia um doente, homem de uns cinquenta anos, que tinha grande dificuldade em andar. A doença pulmonar de que padecia nada tinha que ver com o sofrimento que lhe arrepanhava a cara toda, nem com os suspiros de dor, nem com os trejeitos do corpo. Um dia até apareceu com duas bengalas toscas, a que se amparava, como um inválido. Mas sempre em ais, em gemidos, a queixar-se dos pés, que aquilo era um martírio, que já não podia aguentar.
   O meu amigo deu-lhe o óbvio conselho: mostrasse os pés ao médico, talvez fosse reumatismo. O outro abanava a cabeça, quase a chorar, cheio de dó de si mesmo, como se pedisse colo. Então o meu amigo, que lá tinha as suas caladas amarguras e com elas vivia, impacientou-se e foi áspero. A atitude deu resultado. Daí a dois dias, o doente dos pés chamou-o e anunciou-lhe que ia mostrá-los ao médico. Mas que antes disso gostaria que o seu bom conselheiro os visse.
   E mostrou. As unhas, amarelas, encurvavam-se para baixo, contornavam a cabeça dos dedos e prolongavam-se para dentro, como biqueiras ou dedais córneos. O espetáculo metia nojo, revolvia o estômago. E quando perguntaram a este homem adulto por que não cortava ele as unhas, que o mal era só esse, respondeu: "Não sabia que era preciso."
   As unhas foram cortadas. Cortadas a alicate. Entre elas e cascos de animais a diferença não era grande. No fim de contas (pois não é verdade?), é preciso muito trabalho para manter as diferenças todas, para alargá-las aos poucos, a ver se a gente atinge enfim a humanidade.
   Mas de repente acontece uma coisa destas, e vemo-nos diante de um nosso semelhante que não sabe que é preciso defendermo-nos todos os dias da degradação. E neste momento não é em unhas que estou a pensar.




José Saramago, Bagagem do Viajante
Editorial Caminho





JOSÉ de SOUSA SARAMAGO (16/11/1922-18/6/2010)


Escritor português, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista e romancista.
Deixou uma obra vasta traduzida em muitas línguas. Algumas obras: Terra do Pecado (1947), Manual de Pintura e Caligrafia (1977), Levantado do Chão (1980), Memorial do Convento (1982), A Jangada de Pedra (1986), Ensaio sobre a Cegueira (1995), Ensaio sobre a Lucidez (2004), As Pequenas Memórias (2006), A Viagem do Elefante (2008), Os Poemas Possíveis (1966), Que Farei com Este Livro (1980).
Algumas das suas obras foram adaptadas para o cinema.
Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1998.


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quinta-feira, 23 de abril de 2015

CANÇÃO


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei, quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


Cecília Meireles, in Viagem




CECÍLIA MEIRELES (1901-1964)
Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Seguiu a carreira do Magistério.
Em 1934, fundou a primeira biblioteca infantil no Brasil e, nesse mesmo ano, visitou Portugal.
Ensinou na Universidade no Brasil e nos Estados Unidos da América, no Texas.
É considerada o maior nome da poesia feminina brasileira.
Alguns títulos da sua produção literária: Espectros (Sonetos, 1919), Viagem (1939), Mar Absoluto (1945), O Aeronauta (1952), Espelho Cego (1955), Solombra (1963.


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William Turner, O Navio Negreiro


A MENOS INÓCUA DAS PALAVRAS



   Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência.
   Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-se, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
   - Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
   - Homem! - clamava o Silvestre, de mão pacífica no ar. Calma aí se faz favor. Falei por falar.
   - E a dar-lhe! Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
   - Faço o que posso - desabafou o outro.
   - E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo  por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é!
   Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra "inócuo", estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
   - Inoque será você.
   Também o Ramos não via o fundo ao significado de "inócuo". Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiram ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia.
   - Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um inoque.
   - Que é isso de inoque?
   - Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
   Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
   - Seu bêbedo ordinário. Seu inoque reles.
   Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, inoque significou, como é de ver, vadio e bêbedo.
   Como, porém, as desgraças do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, "inócuo" foi inchando de mais significações.



Vergílio Ferreira, Contos,
Bertrand (com supressões)


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Vergílio Ferreira


Caro Leitor

Hoje é o Dia Mundial do Livro e eu desejo-lhe

BOAS LEITURAS!!!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

PARA ATRAVESSAR CONTIGO 
O DESERTO DO MUNDO

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto,
 Lisboa, Caminho, 2003


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004)
   Poetisa, ficcionista, tradutora, esteve ligada a várias publicações literárias e participou em movimentos cívicos de oposição à ditadura salazarista. Foi galardoada com muitos e variados prémios literários, incluindo o Prémio Camões (1999).
   Algumas obras: No Tempo Dividido, O Nome das Coisas, Ilhas.

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Responde a um amigo, 
que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão*

Casinha desprezível, mal forrada,
Furna lá dentro, mais que inferno escura;
Fresta pequena, grade bem segura;
Porta só para entrar, logo fechada;

Cama que é potro, mesa destroncada;
Pulga que, por picar, faz matadura;
Cão só para agourar; rato que fura;
Candeia nem cos dedos atiçada;

Grilhão que vos assusta eternamente,
Negro boçal e mais boçal ratinho,
Que mais vos leva que vos traz da praça;

Sem amor, sem amigo, sem parente
Quem mais se dói de vós, diz: "Coutadinho".
Tal vida levo, Santo prol me faça.

D. Francisco Manuel de Melo


* Torre Velha, onde D. Francisco Manuel de Melo esteve preso de 1644 a 1653

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO (23/11/1608 - 24/8/1666)
Escritor, político e militar português.

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O AMOR  



   O amor é uma coisa que há em Coimbra quando os estudantes tocam guitarra e passeiam com umas coisas que lá há e que são chamadas tricanas mas depois os estudantes acabam os exames e vêm para Lisboa e não pensam mais no amor e casam eu sei estas coisas porque oiço o rádio da vizinha que está sempre a tocar muito alto mas não conheço ninguém que tivesse tocado guitarra em Coimbra e por isso não sei muito bem o que é o amor e a que sabe mas sei outras coisas porque sou de olhão como diz a minha professora que é a D. Eugénia e sei que lá fora no estrangeiro não há isso que se chama amor porque a Vovó está sempre a dizer que em França não sabem fazer nada senão indecências e é por isso penso eu que o nosso  País é tão diferente dos outros como diz um primo que antes se chamava José e que depois foi para França trabalhar numa obra e agora é Joseph (...) que diz que Portugal só para vacances (...) mas o primo que agora é Joseph já tem carro pago e diz que lá come bifes que lá se chamam biftecks e não quer voltar e o meu Pai diz que se não fosse o amor que tem à nossa terra também fazia as malas e ia para França ou para a Alemanha e é por isso que eu acho que o amor também é uma coisa que faz com que os pais não tenham carro e que a gente só coma bifes uma vez por ano e é um pau mas o amor também se põe nas cartas porque a Vovó tem um pacote de cartas atadas com uma fita desbotada que era azul e diz que são cartas de amor do Vovô e por isso eu penso que são cartas que ele escreveu às tais coisas que se chamam tricanas e que eu não sei talvez sejam pessoas e talvez não sejam mas a Vovó não me deixa vê-las o que é uma pena porque eu aprendia muito (...)




Luís de Sttau Monteiro, Redações da Guidinha,
 Areal Editores





LUÍS DE STTAU MONTEIRO (3/4/1926 - 23/7/1993)
Natural de Lisboa, residiu durante a sua juventude na Inglaterra. Formou-se em Direito, mas foi breve a sua passagem pela advocacia. jornalista e colaborador de televisão, escreveu algumas peças de teatro, como Felizmente há Luar!, Todos os Anos pela Primavera, O Barão, Auto da Barca do Motor Fora de Borda, A Guerra Santa e As Mãos de Abraão Zacute;  a novela Um Homem não Chora e o romance Angústia para o Jantar (1961). Colaborou em jornais e tinha uma coluna que se intitulava Redações da Guidinha.


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terça-feira, 21 de abril de 2015

PENÉLOPE

Mais do que sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido,
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética


O Beijo, Gustav Klimt (1907)


CONTRABANDISTAS



   Quando os homens partiram da vila, em grupos separados, disfarçando o seu propósito por atalhos, ainda a noite se escondia na espessura das nuvens. Chegariam, dia claro, perto do rio Erges e aí deviam aguardar novamente a cumplicidade das trevas. Arriscavam-se vinte e seis cargas de estanho, distribuídas por trinta homens de alugo; mesmo assim, cabia a todos um peso que vergava bem os costados; apesar de as mãos se arroxearem de frio, as camisas colavam-se ao suor dos músculos. Iam distanciados uns dos outros, numa fila sinuosa, por vezes interrompida nas ravinas e nas gargantas dos ribeiros. O nevoeiro cortejava a coroa das serras paralelas à raia, esbatendo-se sobre a planície enregada de alqueives, para encordoar de novo junto à vila.
   As cargas de estanho seriam negociadas na mina espanhola de Pelares del Puerto, e os homens, no regresso, teriam de alombar com fardos de fazenda. Se as coisas se arrumassem sem fugas e sem tiros, o esforço dobrado de um par de noites valia um mês de enxada nas herdades.
   Os pés iam ficando encortiçados, as horas aproximavam a alvorada, o vento, às vezes, rasgava estradas no céu escuro; a marcha abrandava de entusiasmo. O Pencas ia no grupo da frente e foi percebendo o companheiro da retaguarda a encurtar rapidamente a distância entre ambos: ainda quis aceitar o desafio desse passo vigoroso, mas parou, exausto, a resfolegar. O outro, com o suor morno e salgado a escorrer-lhe para a boca, disse:
   - Arreaste. Pesam-te as banhas...
   - Vomecê vai com um nervo...
   - Tens o corpo lambão, é o que é.
   O contrabandista estendeu os braços sobre os joelhos, com a carga poisada no chão. O seu ouvido apurado escutou os passos dos companheiros.
   - Vamos, Pencas, senão perdemo-nos dos camaradas.
   - Tenho uma sede danada.
   - Isto não é brincadeira pra conversas de taberna. Avia-te aí à minha frente.
   Pencas respondeu qualquer coisa que a posição do queixo, descaído, não deixou que fosse nítida. Ergueu-se, pesadão, e continuou a marcha com as pernas adormentadas de fadiga.
   Uma levíssima claridade foi abrindo o horizonte. O Pencas, com umas calças de cotim claro ou deslavado dos anos, sobressaía entre os troncos imóveis e bojudos dos carvalhos. O Camarão deu por isso; caminhavam agora lado a lado e não se distinguia qualquer rumor do companheiro da frente. Essa brancura do tecido das calças feria-lhe os olhos.
   - Pareces um espantalho, garoto. Talvez a farpela te saia cara.
   Pencas não ouviu a frase inteira, abafado como ia pelo suor e pela carga, e levou tempo a entender o significado das palavras; mas, subitamente, teve a intuição de que o avisavam de perigos imprevistos, e o desamparo da serra correu-lhe, gelado, pelos nervos.
   - Que disse vomecê?
   - Que pareces um espantalho desmaiado.. Anda, mexe-te. Qualquer espingarda enxerga ao longe as tuas calças.
   Pencas, os olhos saídos das pálpebras balofas, interrompeu a marcha: o medo varava-o e isso não devia pasmar ninguém. Iam todos sujeitos a uma bala no corpo. Mas quem tinha calo no ofício esquecia essas coisas. Metera-se no negócio arrastado pelas lérias do Camarão; ainda sentia os ossos desmanchados dos percalços do dia anterior e não podia ter havido ideia mais safada do que atirar-se a um par de léguas sem um prévio repouso que lhe retemperasse as forças. pior do que o medo, era esse cansaço irresistível: um ópio pesado e suave que vinha por cima de todos os perigos. Só a esperança de ganhar dinheiro graúdo o convencera a esfalfar-se por estes caminhos; mas se a jornada não tivesse um fim, dentro de meia hora deixaria o corpo estender-se à vontade, viesse quem viesse.





Fernando Namora, A Noite e a Madrugada



FERNANDO  GONÇALVES NAMORA (1919-1989)
Nasceu em Condeixa (zona de Coimbra). Formado em Medicina, exerceu clínica na sua terra natal e também na Beira Baixa, no Alentejo e em Lisboa, onde trabalhou no Instituto de Oncologia. Tirou partido da sua experiência profissional para escrever obras como Retalhos da Vida de um Médico e Domingo à Tarde (1961). Escreveu poemas e nos seus romances manteve sempre uma tendência neo-realista.
Algumas obras: Relevos, Mar de Sargaços, As Sete Partidas do Mundo, Minas de S. Francisco, O Trigo e o Joio, Os Clandestinos...


Contrabandistas da Raia


segunda-feira, 20 de abril de 2015

A LINGUAGEM DO AMOR

  29 - Outubro (quinta). E aí está. Acabei de escrever a "Carta a Sandra". Mas pude verificar alguns embaraços com que não contava inteiramente. Assim, pois, escrever um volume com tais cartas é uma proeza extremamente difícil. Antes de mais pude confirmar o «ridículo» delas, porque é extremamente apertado o seu campo de manobra. O amor como decerto todo o sentir é muito curto de vocabulário. De modo que se esgota rapidamente e um simples bilhete já é de mais. Mas o ridículo tem que ver também com o intruso que as ler. Porque os interessados não sentem ridículo nenhum, fechados no vocabulário como num cobertor. Mas a grande dificuldade vem de que uma emoção é para se sentir e não para se dizer . Experimente-se ouvir uma música emocionante e falar depois dela.  Não vai. Sublime, deliciosa, original, maravilhosa e por aí. Os técnicos lá desanicham razões especializadas para dizer bem ou mal. Mas tudo isso fica atrás ou de fora, como os gestos do amor são laterais ao amar-se. Que é que pode dizer-se por ex. da imagem da amada? Só coisas chilras e piegas. Doce, suave, etc. Mas é isso que tem de se dizer, se se quer dizer alguma coisa. Como estou possuído do imaginário de Sandra, julguei que era só espremer isso em palavras. Espremem-se coisas detestáveis. Nem sequer é fácil ou talvez possível meter na conversa uma ideia original, um modo original de ver e dizer o banal que se vê. Porque toca logo a quebrado. Mas como raio se há de escrever uma carta de amor senão usando a linguagem do amor? Acabou-se, escrevi a «Carta a Sandra».

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV (nova série), 1992

VERGÍLIO FERREIRA
(1916-1996)

Nasceu em Melo, na Serra da Estrela, Portugal.
Escreveu 22 obras de ficção, vários ensaios e um diário Conta-Corrente. Um dos seus livros mais conhecidos é Aparição.
Este texto refere-se à última obra que o autor escreveu, Cartas a Sandra, e que não chegou a ver publicada.

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CANÇÃO DA NOITE GRANDE

Os quimbos* quietos
pousados
no silêncio.
A fronte escura
quieta
das árvores
no silêncio.
E o latido perdido
n'algum quintal perdido.
Da Evengélica os cânticos
se derramando
na voz do vento:
povo.

João Maria Vilanova (Angola)

* aldeamentos


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TESOURADAS LIBERTADORAS



   Devia eu andar nos meus seis anos quando uma tarde um vizinho, que era oficial de diligências e mestre de bandolim, disse sentenciosamente a minha mãe, pousando-me a mão nos caracóis:
   "Este menino, minha senhora, devia ter nascido rapariga. Mal empregado, um cabelo tão lindo numa cabeça de rapaz!"
   Era no patamar da escada, e foi assim que eu aprendi, se alguma vez havia de aprender, a odiar. Aqueles caracóis dum castanho-doirado deram-me pesadelos, dali em diante, e serviram-me de pretexto a muita brabeira. (Quanto ao bandolim, ainda hoje me causa uma desagradável sensação de aperto na boca do estômago.) Até que um dia não houve mais remédio senão a minha mãe levar-me pela mão a um mestre-escama do Largo da Graça.
   Foi para mim um dia de orgulhos e alegrias: a aurora, em suma, da virilidade. Depressa o vestidinho verde, de "machos", ia ter a mesma sorte: pois naquela época, que nos parecia de uma romântica paz (é sempre paz para quem não está em guerra), os garotos da minha idade andavam de saias, como os gaiteiros da Escócia.  O barbeiro, de olhos verdes estagnados na cara pálida, balofa, picada das bexigas, era todo frisado como um tenor. Disse-me palavras boas para me animar. Crianças daquela idade em loja de barbeiro são como elefante em loja de louças: mas eu caprichava, mordi a boca e fiz exceção. A minha compostura e coragem arrancaram brados de louvor ao fígaro e aos frequentadores ociosos, reunidos em círculo a admirar-me. Nunca se tinha visto um menino tão bonito, tão bonzinho, com tanto juízo, numa cadeira de barbeiro! As tesouras do mestre cantavam-me aos ouvidos como rouxinóis e, com a secreta voluptuosidade de que só as crianças têm o segredo, eu vi cair um após outro os odiosos caracóis, sob as tesouradas libertadoras. Era um tempo de fáceis demolições. Minha mãe, coitada, e sorrindo, derramou duas lágrimas sentidas. Curvou-se e apanhou do soalho enxovalhado um anel do meu cabelo, que havia de conservar para o resto dos dias, numa medalhinha de ouro: "Eras tão loirinho!", dizia-me ela para me consolar da trunfa negra, escorrida, dura como arame, que mais tarde me vestiu o escalpe.




José Rodrigues Miguéis Léah e Outras Histórias,
 Ed. Estampa


JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS (1901-1980)



Licenciado em Direito, exerceu advocacia em Lisboa, onde nasceu. Estudou Pedagogia na Bélgica e, mais tarde, fixou residência nos Estados Unidos da América, onde se dedicou ao magistério a nível universitário. Na sua obra reconstitui o ambiente lisboeta da sua adolescência ou desenvolve temas relacionados com o exílio e a emigração das classes modestas.
Algumas obras: contos e novelas - Páscoa Feliz, Onde a Noite se Acaba, Léah (1958) e Gente de Terceira Classe; romances - Uma Aventura Inquietante, A Escola do Paraíso, Nikalai! Nikalai! e O Milagre Segundo Salomé.



domingo, 19 de abril de 2015

PRAIA DO ENCONTRO



Esta imaginação de sal e duna,
inquieta e movediça como areia,
ergue, isolada, a praia, mais a espuma
que sereia nenhuma
saboreia...


Quisesses tomar tu este veleiro,
que em secreto estaleiro construí,
sem velas, sem cordame, sem madeira,
- mas branco!, e todo inteiro
para ti...


Brilha uma luz de morte sobre o porto
saído mesmo agora da memória...
Ali estarei, à tua espera, morto,
ou vivo em minha morte
transitória...~


Combinado. Que eu juro não faltar!
Contrário de Tristão, renascerei,
se pressentir, aérea, sobre o Mar,
a sombra singular
do barco que te dei.


David Mourão-Ferreira



Fernando Pessoa

VIAJAR

 


Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
de viver, de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa, Cancioneiro



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sábado, 18 de abril de 2015

O RAMALHETE



A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigada à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.
Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado, com teias de aranha pelas grades dos postigos térreos, e cobrindo-se de tons de ruína. Em 1858 monsenhor Buccarini, núncio de Sua Santidade, visitara-o com ideia de instalar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do edifício e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão agradara-lhe também, com a sua disposição apalaçada, os tetos apainelados, as paredes cobertas de frescos onde já desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos cupidinhos. Mas Monsenhor, com os seus hábitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os arvoredos e as águas de um jardim de luxo e o Ramalhete possuía apenas, ao fundo de um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entulhado, e uma estátua de mármore (onde Monsenhor reconheceu logo Vénus Citereia) enegrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens silvestres. Além disso, a renda que pediu o velho Vilaça, procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe perguntou sorrindo se ainda julgava a Igreja nos tempos de Leão X. Vilaça respondeu – que também a nobreza não estava nos tempos do senhor D. João V. E o Ramalhete continuou desabitado.
Este inútil pardieiro (como lhe chamava o Vilaça Júnior, agora por morte de seu pai administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, para lá se arrecadarem as mobílias e as louças provenientes do palacete de família em Benfica, morada quase histórica, que, depois de andar anos em praça, fora então comprada por um comendador brasileiro. Nessa ocasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a Tojeira: e algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e sabiam que desde a Regeneração eles viviam retirados na sua Quinta de Santa Olávia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Vilaça se essa gente estava atrapalhada.
- Ainda têm um pedaço de pão – disse Vilaça sorrindo – e a manteiga para lhe barrar por cima.
Os Maias eram uma antiga família da Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas colaterais, sem parentelas – e agora reduzida a dois varões, o senhor da casa, Afonso da Maia, um velho já, quase um antepassado, mais idoso que o século, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso se retirara definitivamente para Santa Olávia, o rendimento da casa excedia já cinquenta mil cruzados: mas desde então tinham-se acumulado as economias de vinte anos de aldeia; viera também a herança de um último parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia em Nápoles, só, ocupando-se de numismática: - e o procurador podia certamente sorrir com segurança quando falava dos Maias e da sua fatia de pão.
A venda da Tojeira fora realmente aconselhada por Vilaça: mas nunca ele aprovara que Afonso se desfizesse de Benfica – só pela razão de aqueles muros terem visto tantos desgostos domésticos. Isso, como dizia Vilaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias, com o Ramalhete inabitável, não possuíam agora uma casa em Lisboa; e se Afonso naquela idade amava o sossego de Santa Olávia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as férias em Paris e Londres, não quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E com efeito, meses antes de ele deixar Coimbra, Afonso assombrou Vilaça anunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O procurador compôs logo um relatório a enumerar os inconvenientes do casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despesas; depois, a falta de um jardim, devia ser muito sensível a quem saía dos arvoredos de Santa Olávia; e por fim aludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que (acrescentava ele numa fase meditada) até me envergonho de mencionar tais frioleiras neste século de Voltaire, Guizot e outros filósofos liberais…»
Afonso riu muito da frase, e respondeu que aquelas razões eram excelentes – mas ele desejava habitar sob tetos tradicionalmente seus; se eram necessárias obras, que se fizessem e largamente; e enquanto a lendas e agouros, bastaria abrir de par em par as janelas e deixar entrar o sol.

Eça de Queirós, Os Maias,
 Ed. Livros do Brasil


O Ramalhete