A POMBA
Apercebeu-se de que a sua contínua referência aos estatutos do prédio era um tanto ridícula. E também não lhe interessava minimamente a forma como a pomba havia entrado. Não queria de forma alguma continuar a falar em detalhe sobre a pomba; este horrível problema só a ele dizia respeito. Pretendia apenas exteriorizar a sua indignação pelos olhares perscrutadores de Madame Rocard, mais nada, e isso concluíra-se com as primeiras frases. Agora a irritação tinha-se desvanecido. Agora, ignorava como prosseguir.
- Tem que se enxotar a pomba e fechar a janela - redarguiu Madame Rocard, que se expressava como se isto fosse a coisa mais simples deste mundo e como se tudo pudesse voltar a entrar na ordem mediante essa atitude.
Jonathan mantinha-se calado. Perdera-se no fundo castanho dos olhos da porteira e corria o risco de ali se afundar como num pântano mole e castanho; viu-se obrigado a fechar os olhos pelo espaço de um segundo, a fim de se recompor, após o que tossicou e recuperou a voz.
- Mas é que... - começou e tossicou de novo - ... é que já há grandes poios por todo o lado. Grandes e verdes. E penas também. A pomba sujou o corredor todo. É esse o problema principal.
Patrick Süskind, A Pomba,
Círculo de Leitores

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