quinta-feira, 1 de outubro de 2015


AUTO-RETRATO

   Magro, de olhos azuis, carão moreno,
   Bem servido de pés, meão na altura,
   Triste de facha, o mesmo de figura,
   Nariz alto no meio, e não pequeno;

   Incapaz de assistir num só terreno,
   Mais propenso ao furor do que à ternura
   Bebendo em níveas mãos por taça escura;
   De zelos infernais letal veneno;

   Devoto incensador de mil deidades
   (Digo, de moças mil) num só momento,
   E somente no altar amando os frades,

   Eis Bocage, em quem luz algum talento;
   Saíram dele mesmo estas verdades,
   Num dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage, Sonetos



Manuel Maria Barbosa du BOCAGE (1765-1805)
Nasceu em Setúbal no seio de uma família culta, desde muito cedo revelou interesse pela poesia, tinha o dom da improvisação.
Teve uma vida agitada, boémia, literariamente produtiva e variada.







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