quarta-feira, 22 de novembro de 2017

LENDA DA ILHA DA MADEIRA



   Imaginai, ao ler, que a escutais de algum velho marinheiro português, como aqueles que há cinco ou seis séculos, pelas noites de Inverno, ao pé do lume, as contavam aos netos.
   Lá fora o vento lembrava a voz do Mar.
   E eles ficavam-se a contar assim:
   "Havendo carregado a sua barca de mantimentos e de aparelhos necessários, o Machico partiu. Mais não seriam andados que quatro ou cinco dias, quando, uma bela manhã, ele e os seus homens viram no horizonte nuvens ou névoas que pousavam sobre o mar, sinal certo para os navegantes dalguma ilha ou terra próxima.
   Ao passo que se aproximava vinham aos seus ouvidos estrondos furiosos, como se penhas ou cataratas invisíveis caíssem sobre o mar ou as ondas se atirassem com ímpeto de encontro a alguma escarpa alcantilada. Mas a névoa à sua frente tornara-se tão densa que era impossível lobrigar sequer a ponta duma rocha. E tamanho temor entrou com eles, que à uma gritaram para o capitão:
   - Senhor, façamos vela para Portugal ou nos vamos perder todos!
   Mas o Machico bradou-lhes com palavras valorosas:
   - Avante! Não temais! São as ondas a bater na costa. Estamos quase à vista de algumas das ilhas encantadas!
   De súbito a névoa começou a descerrar-se como se invisíveis mãos apartassem uma cortina para os lados. E viu-se um espetáculo tão belo que os marinheiros ajoelharam de pasmo sobre as tábuas da barca. À sua frente alevantavam-se rochas alterosas a prumo sobre as ondas; selvas de árvores frondosíssimas vinham de escarpa a baixo até à água; e para além cerros de macia curva desdobravam-se a perder de vista. Era uma das ilhas encantadas que se erguia para o céu, como um altar de serras e arvoredo entornando ondas de cantos, de cores e de perfumes sobre o mar!
   O Machico mais os seus mareantes cuidaram logo de saltar em terra. Estavam numa ilha onde o ar era morno e suavíssimo. Tão cerradas se estendiam as florestas sobre a ilha, que só a muito custo conseguiam romper por dentro delas. Das árvores pendiam flores de infinitas qualidades. E dentro em pouco aqueles homens saciavam a fome na polpa saborosa de frutos nunca vistos.
   Mas o que mais assombro lhes causou foi ver que quantos animais habitavam a ilha não mostravam o menor receio daqueles novos habitantes. As focas, nunca por eles vistas, e às quais puseram nome de lobos marinhos, com que por muito tempo se chamaram, deixavam-se ficar, se eles se aproximavam, como se nada tivessem que temer. E as aves, essas, cheias de confiança, deixavam-se colher e vinham poisar-lhes sobre as mãos ou cantar-lhes sobre os ombros.
   E porque a terra era toda coberta de florestas, como ele nunca vira, chamou-lhe a ilha da Madeira."


Jaime Cortesão, O Romance das Ilhas Encantadas


Jaime Cortesão (29/4/1884 - 14/8/1960)
Médico, político, escritor e historiador português.
Formou-se em Medicina mas exerceu muito pouco tempo.
Preferiu lecionar História e Literatura.


Ilha da Madeira