O Enigma
Um envelope fechado é um enigma que contém outros enigmas no seu interior. Aquele era grande, grosso, de papel manila, com o timbre do laboratório impresso no ângulo inferior esquerdo. E antes de o abrir, enquanto o segurava na mão e procurava ao mesmo tempo uma espátula entre os pincéis e frascos de tinta e de verniz, Júlia estava muito longe de imaginar até que ponto esse gesto ia transformar a sua vida.
Na realidade, já conhecia o conteúdo do envelope. Ou, como mais tarde veio a descobrir, julgava que conhecia. Talvez por isso não sentiu nada de especial até retirar as cópias fotográficas e colocá-las em cima da mesa, fitando-as vagamente aturdida e sustendo a respiração. Só nesse momento compreendeu que A Partida de Xadrez ia ser algo mais do que simples rotina profissional. Na sua profissão, eram frequentes as descobertas imprevistas em quadros, móveis ou encadernações de livros antigos. Seis anos a restaurar obras de arte proporcionavam uma vasta experiência de traços e correções originais, retoques e pinturas sobrepostas, até falsificações. Mas nunca, até àquele dia, uma inscrição oculta sob a pintura de um quadro: três palavras reveladas pela fotografia com raio X.
Arturo Pérez-Reverte, A Tábua de Flandres, Edições Asa, 2009
