NAMORAR RENTE À JANELA
O rapaz que trazia um banquinho para namorar, à tarde, rente à janela da casa na parte larga da Rua da Boavista, era um desses apaixonados que se encontram de cem em cem anos e que são pessoas a quem a sociedade fica a dever muito no campo das ciências humanas. Tinha namoros em quatro ou cinco ruas da cidade e, o que era mais extraordinário, é que eram todas suas noivas. A todas contemplava com um sentimento terno e inabalável. A psicanálise ainda não se divulgara como método de cultivar doenças que, provavelmente, não eram outra coisa senão a paixão em estado indestrutível que é a crença na felicidade. Não se ama para conseguir qualquer espécie de soberania, mas para ter felicidade, essa felicidade ociosa do Paraíso em que nada nos faltava e nada era objeto de desejo.
Se, na parte larga da Rua da Boavista, onde se levanta o edifício do Hospital Militar, os passeios são amplos e permitiam o namoro na cadeirinha, o mesmo não acontecia noutros bairros do Porto. Então era o namoro de janela, feito por sinais e olhares, na meia folha duma cortina de croché. A jovem saía só para comprar miudezas e para ir à modista, e não trabalhava fora de casa. Havia na Rua da Torrinha uma rapariga duma beleza incrível, dessas que o Porto produzia dentro das suas paredes de reboco escalavrado, e que se sustentava de chá e de sonhos fantásticos que incluíam um ator de cinema. Algo de inacessível, que é o que os sonhos têm de mais empolgante. Também essa menina, Florinda, constava na agenda do nosso namorador e ele seguia-a na rua, fazia com ela, mas não a par, a Volta dos Tristes que era o caminho entre Santa Catarina e Sá da Bandeira. Santo António, depois crismada de 31 de Janeiro, era onde começava o comércio de luxo; as sapatarias e as primeiras boutiques de alto preço estavam lá, assim como uma ourivesaria famosa. Uma das ambições das mulheres mais bonitas da cidade, sendo novas, era servir ao balcão dessas casas frequentadas pelas pessoas mais importantes pelo dinheiro e pela elegância. [...]
Agustina Bessa-Luís, "Casamento e Fuga", in Porto Ficção,
Edições Asa

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