sábado, 31 de dezembro de 2016

A IDADE DO ANO

De verdes ramos e de frescas flores
vestiu a Terra na meninice infante
o seio virgem, e o vivaz semblante
adornou de grinaldas mil de cores.
Jovem depois, em plácidos amores
gozando, ao céu, seu amador constante,
lá das entranhas,como terna amante,
em vez de suspirar, lançou olores.
Frutos maduros logo o ventre aberto
deu abundantes, ao puro vento ufana,
tosca, mas a mostrar a face, e ruda.
Hoje, velho, de rugas recoberto,
seu rosto vemos, e de neves cana:
tudo a idade decompõe e muda.

Juan de Jáuregui

1583-1641

Escritor e pintor espanhol

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A MONTANHA

Covil de lobos escarpado e escuro.
O vento geme correndo os vales
Os lobos uivam pelos seus abismos.

O outono vem. O veado brama
Berro feroz chamando a fêmea.
E o grou solta um grito
Desolado e só.

Anónimo

Século IX

Cultura celta

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

RETRATO DO AUTOR POR CAMILO PESSANHA

A cinza arrefeceu sobre o brasido
das coisas não logradas ou perdidas:
olhos turvos de lágrimas contidas,
eu vi a luz em um país perdido.

Carlos Oliveira

1921-1981

Escritor português

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade,
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva toda flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

Teixeira de Pascoaes

1877 -1952

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

UMA ROSA

Abrem-se ainda tardes como lagos
pálidos sobre os tetos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada das árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d'olhos no coração que acorda
do seu sonho de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive. E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.

Diego Valeri

1887-1976

Poeta italiano

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Eu cantarei,
Quando amanhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento.

Álvaro de Campos

Heterónimo de Fernando Pessoa

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