DE LISBOA À BATALHA...
sem lá chegarmos e vice versa...
Uma viagem em automóvel nas nossas estradas
Éramos três: eu, meu irmão e o Luiz, não contando com o chauffeur, um especialista de olhar estrábico, mas muito hábil, que tinha acompanhado o carro, um soberbo Serpolet.
Partimos, pois, com confiança, entregando-nos de corpo e alma, à sua enviesada vista. A máquina partiu como um raio, fazendo-se ouvir, logo à saída, o som protetor e avisador da corneta. As galinhas fugiam espavoridas; os cães corriam ao caminho, a ladrar; as mulheres chegavam às janelas, cheias de curiosidade, os trabalhadores, nos campos, deixavam de trabalhar para repararem na velocidade do Serpolet.
Partimos de Benfica às duas e meia indo pela Azinhaga da Fonte, direitos ao Lumiar, e de lá, pela estrada da Póvoa, em direção a Torres. Tínhamos curiosidade em fazer esta longa viagem, por entre o povo, esta anónima criatura tão decantada pelos poetas, essa soberana entidade a quem também chamam rei; esse encanto de bondade e poesia tão romantizado nas novelas.
Assim atravessámos aldeias e vilas, montes e casais, esbarrando aqui, parando acolá, para não ficarmos com a máquina completamente escangalhada logo no começo da viagem.
À saída do Lumiar, descendo a calçada de Carriche as sobrerrodas eram de tal ordem que nos davam uma ideia aproximada do que deveria ser uma viagem através dos Alpes, fora das respetivas estradas!...
O chauffeur deu mais um pouco de velocidade à máquina, e ela, fazendo um movimento como o de um cavalo a pleno galope, deu tal solavanco que, fazendo-me ir de encontro ao meu companheiro da frente, parti o nariz deitando mais de meio litro de sangue...
Não perdi a coragem e segui.
Ao chegarmos a Lousa, esse pitoresco vale, sem dúvida um dos mais bonitos que se podem desfrutar no nosso país, levávamos um pneumático furado. Arranjado, prosseguimos.
Antes de chegarmos a Torres, foi-nos arremessada uma valente pedrada; a estrada, porém, começava, louvado Deus, a ser um pouco melhor, e portanto o chauffeur, transido de medo, por ignorar os perigos de viajar nas estradas portuguesas, deu toda a força à máquina: - a 80 quilómetros por hora, conseguimos chegar às Caldas da Rainha.
Pelo caminho ouvíamos contender connosco mas, como a velocidade era enorme, nada percebíamos. Não primava por amabilidade, ao que supúnhamos, e mais tarde plenamente nos convencemos, o que nos diziam.
A corneta tocava como que pedindo para se afastarem, e só o medo de ficarem debaixo do carro fazia com que os transeuntes nos deixassem passar, desviando-se do meio do caminho. As mulheres desciam dos burros e agarravam-nos; outras, transidas de terror, punham as mãos em ação de rezar, e pediam misericórdia.
Assim atravessámos as Caldas e seguimos a estrada de Alcobaça. À saída deu-se mais força ao Serpolet ao deparar-se-nos um bocado de estrada melhor; passado, porém, a Tornada é que foram elas!... As sobrerrodas eram de tal ordem que voando através dos precipícios que a estrada oferecia, parti um braço tendo sido cuspido fora do carro.
Forçoso era ir a passo, tais eram os abismos que a estrada até Alcobaça oferecia.
Era a um domingo, e de mais a mais dia de mercado em diversas localidades, por isso imagine-se o trânsito da via pública... e o vinho que por ela passeava. As mulheres contendiam, os carroceiros diziam-nos obscenidades e até o cocheiro duma diligência se nos dirigiu desta forma: "Deus permita que essa m... se parta toda!..."
À entrada de Alcobaça, um cavaleiro cavalgando uma mula, à imitação de Nossa Senhora quando fugia para o Egito, arreatado por outro, fugia espavorido da estrada por uma fazenda fora, fazendo a muar toda a casta de cabriola impelida, creio, pelas esporas que lhe cravavam na barriga. Pude distinguir no cavaleiro um alentado sacerdote e no que fazia de S. José o seu digno sacristão... Apesar do meu nariz esborrachado, e do meu braço partido, ri a bom rir. Logo mais adiante, porém, tive de deitar a viseira abaixo: - uma pedrada de um popular me abria a cabeça, e a seguir diversas obscenidades nos eram dirigidas pelos transeuntes...
Pedi ao chauffeur para dar mais velocidade ao Serpolet; a estrada, porém, estava de tal ordem que ficámos dentro de um barranco - caindo meu irmão, que me tinha feito cair em dar tal passeio sem primeiro me ter informado do estado da viação pátria...
Não se atemorizou, porém. mr. Émile, tal era o nome do maquinista; e, tendo confiança na máquina que guiava, nos animou, fazendo reentrar meu irmão. Em seguida deu à alavanca para produzir mais vapor, e fez o carro voar por cima dos enormes obstáculos. Apanhámos um bocado de estrada melhor e aproveitámos a velocidade. - Logo mais adiante encontrámos um "colega"... outro automóvel completamente escangalhado, e os seus possuidores, com caras muito tristes, olhavam-nos com ar de dó, como querendo dizer: coitados, também caíram... com tais estradas e tal gente...
Em plena via, com mais de 50 indígenas em cima, mal se podendo mexer, aguardavam uma carroça que conduzisse os restos da máquina que momentos antes se chamava automóvel...
Saudámo-los e seguimos, - sendo-nos atirado um valente cacete para a frente do carro, cremos com a ideia de o fazer travar...
O carro passou-lhe por cima e seguiu, mas nas proximidades da Batalha uma enorme roda obrigou-nos a um solavanco da altura de um 5º andar, saltando o Luiz fora, como se fosse uma pella, e com tanto impulso que parecia ter saído de uma caixa com molas!
Na queda valeu-lhe ter ficado em cima de um enorme pinheiro manso, aproveitando a ocasião para fazer a sua colheita de pinhas... por gostar imenso de pinhões...
Com a agilidade própria da sua idade, desceu imediatamente, e nessa ocasião se viu que o carro tinha quebrado uma mola. Mãos à obra, e zás: - em poucos minutos com arames, joelheiras nos pneumáticos, etc., etc., estava tudo a postos, mas eu é que desistia da viagem... mil vezes mais perigosa do que a campanha dos boers. - Uma aventura mais arriscada do que uma ascensão ao pico do Great Gable...
Voltámos para trás, com o meu nariz esborrachado, a cabeça partida, e o braço em cavacos! Seguimos o caminho das Caldas, e encomendávamos a alma a Deus, com pena de ser domingo para, em Alcobaça, fazermos as últimas disposições testamentárias. Tal era a reminiscência, ainda fresquíssima, do horrível caminho que íamos trilhar... Coragem! animava o Luiz, não desgostando do salto mortal que o tinha feito ir às pinhas... e seguimos.
À saída de Alcobaça, mr. Émile querendo desviar-se duma sobrerroda imensa, que mais parecia as guardas duma ponte, tombou o carro resultando um guarda lama quebrar-se, bem como um dos respetivos faróis. Eu apenas parti um dedo; mas desse acidente nada sofri porque as mazelas eram tantas que já não me faziam sensação.
Meu irmão alvitrou: e se fôssemos pela estrada do Cercal? Talvez essa esteja melhor, e verás que, se apanhamos um bocado de macadam regular, tiraremos o ventre da miséria, e nesse caso ainda gozarás... Gozar?! Eu, com o nariz feito num bolo, um braço quebrado, a cabeça rachada e um dedo partido, não falando no resto do corpo que ia ralado como uma sarda moída... Mas recobrando ânimo, ou por outra condescendendo simplesmente, respondo: pois sim!...
Seguimos a estrada da Azambuja, pelo Cercal, que para mim tão boas recordações de infância me trouxe à memória, e, como por encanto, parece que todos os meus males desapareciam. Meu irmão tinha razão. A estrada estava melhor, exceto à saída das Caldas, onde a composição do macadam era de basalto, essa tremenda asneira que só nós fazemos, quando por todos é sabido que só o calcário, que o possuímos em abundância, dá a boa composição, e portanto o ideal desse género de viação moderna.
Chegados ao Cercal entrámos num verdadeiro Éden de viação. Recordações saudosas me ocorriam à mente distinguindo, no percurso, os primeiros sítios que tinha conhecido.
Essa bela estrada tinha sido construída por influência de meu pai; ia passar pela terra que me tinha sido berço; pela casa onde minha santa mãe e eu tínhamos nascido; ia ver as primeiras árvores onde tinha subido em criança; os rapazes e raparigas que comigo tinham brincado, o cemitério onde repousavam os meus. Cheguei mesmo a esquecer-me de que já tinha 50, reportando-me à minha mais tenra idade...
Assim percorremos a longa estrada do Cercal à Azambuja, passando por Aveiras de Cima, e mirando tudo e descobrindo-me com a rapidez de relâmpago por que, neste percurso, o Serpolet apesar das suas avarias, causadas por uns caminhos infamíssimos, é que pôde dar tudo!
Gastámos neste trajeto menos de uma hora!
E, ó anjo da guarda que sobre as nossas cabeças pairava, ao atravessarmos tão saudosas campinas por tão adorável estrada, só em Azambuja, onde se estava preparando uma feira, nos foi jogada uma valente pedrada!
O que faz a tradição... Seguimos estrada de Vila Nova, amena povoação que há pouco mais de 60 anos ainda possuía um nome bem pitoresco e que a pieguice moderna que se encarrega de ensinar a pronunciar ministro, infanteria e Philippe, achou obsceno, e portanto substituiu, como as Câmaras Municipais fazem às suas ruas, e seguimos com direção ao Carregado, sempre estrada fora e a direito. Tal fortuna, porém, não durou muito, porque passada esta povoação é que foram elas!
Calcule-se, para se fazer uma pequena ideia do estado em que esta estrada se acha, que atravessa, afinal, uma das mais ricas zonas do país, onde há lavradores e industriais riquíssimos e de influência tal que, de per si só, podem decidir duma eleição, como Castello Melhor, Palha Blanco, Moraes, Dr. Assis, e outros, cujos nomes não nos ocorrem; que as valetas em lugar de correrem aos lados da via, correm atravessadas, espaçadas apenas meio metro umas das outras, e que no intervalo de duas em duas há ainda umas covas de diversos feitios, semelhantes a sepulturas, algumas; e que um carro a vapor, a gasolina ou a petróleo ordinário, guiado por um louco, se atreve a percorrê-la!
Pense bem nisto; imagine-se os solavancos, os saltos, os voos, os tombos, os movimentos da pobre máquina caminhando por tal via, e far-se-á uma ideia do que é esta estrada!...
Nem uma só mola escapou de ser quebrada; de vez em quando via-se ir uma cousa pelos ares!... Era um de nós que era cuspido para fora do carro, o qual parava para novamente entrarmos; outras vezes à maneira de uma bola de borracha atirada ao ar, a carruagem nos ia aparar mais adiante, não dando ocasião a que caíssemos por terra! Tal era a perícia de mr. Émile, e a velocidade do Serpolet!
Já não podendo, pedi nos Olivais uma maca, e assim vim até Lisboa, conduzido por dois galegos, com o meu rico nariz esborrachado, a pinha aberta, um braço quebrado, um dedo partido, e todas as costelas num feixe!... Já não podia mais!... Os meus companheiros conseguiram chegar a Lisboa, graças à valente máquina Serpolet; mas o carro teve de ir para a oficina, para lhe porem novas molas e outros pneumáticos, bem como outras lanternas e guarda-lamas, por tudo se ter partido durante a viagem; e eu de recolher ao hospital donde escrevo as minhas impressões da inolvidável jornada do meu país, só por milagre escapei... mas esperançado ainda de repetir o passeio por que, realmente, se não fosse o perigo dos caminhos, e as inconveniências do soberano povo meu irmão em Cristo seria das coisas mais agradáveis que até hoje tenho gozado.
Felizmente que o chefe de Estado é exímio amador desse género de sport, e é nele que baseio todas as minhas esperanças por me lembrar que um dia poderá percorrer a estrada real de Vila Franca a Lisboa, e amante, como realmente é do seu povo, recomendará aos seus ministros a iluminação de tão lamentável abismo, que outra cousa se não pode chamar, a tão desastrada via pública!
Texto publicado em Passatempo, Revista Quinzenal Ilustrada, Edição dos Grandes Armazéns Grandella & Cª, nº 69, 10 de novembro de 1903
| Léon Serpollet 1858-1907 |