VIAJAR
Repito sempre que aprendi a viajar com a minha mãe, graças a uma simples frase dela, dita no momento exato: "Miguel, viajar é olhar."
Nunca me esqueci. Da frase. Do seu significado. Da obrigatoriedade de olhar. Suponho que é assim que uma mãe deve educar um filho e ensiná-lo a viajar.
Eu viajei muito pouco com ela. Imagino que, pelo facto de ser jornalista e na altura viajar constantemente, ela tenha achado que eu podia voar sozinho. Mas, em cada viagem minha, exigia sempre que eu lhe contasse tudo à chegada e nunca dispensava - quando, antes de partir, me ia despedir dela - um sinal da cruz, que me fazia na testa. Depois, quando eu voltava, ia jantar à casa da Graça e ela não queria ver fotografias, queria apenas que lhe contasse o que tinha visto. Nunca soube que fotografasse em viagem, limitava-se a olhar, para depois guardar e poder contar: guardar para ela, contar para os outros. O mesmo exigia de mim e eu aprendi assim que um viajante é o que guarda nos olhos o que viu e transmite por palavras o que os ouros não viram.
Miguel Sousa Tavares, Não se Encontra o que se Procura,
Clube do Autor, 2014 (excertos)

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