ALBERTO e SOFIA
A violência que me apanhou não foi súbita. Houve um silêncio de atordoamento. Até que na intimidade dos meus ossos, dos meus nervos, uma raiva de dentes me endoideceu. Sofia estava na minha frente, frágil e intensa como uma fibra de nervo; e eu senti-a toda colada ao meu apelo, aniquilada, num esmagamento de mãos torcidas, de mastigação... Ergui-me trémulo, apoderei-me dela, cerrei-a violentamente no meu calor, tentei reduzi-la toda a esse ápice incandescente, onde a vida infinita se me centrava. Mas ela, com uma energia que era eficaz por me pôr diante de mim, por vir dela - um ser frágil -, repeliu-me com raios no olhar. Senti-me miserável como quem é apanhado nu: o que era do meu mistério, do meu segredo, ficara ali exposto, sem que Sofia me pagasse a minha revelação com a revelação de si própria. E reuni os meus papéis, preparando-me para sair. Ela então veio sobre mim, já humilde, curvada, pagando alguma coisa da minha humilhação com um pouco da sua fraqueza.
- Nada aqui tenho a fazer - disse eu.
- Fique, fique.
- Não se divertiu bastante?
Sofia então tomou-me bruscamente a cabeça nas mãos e deu-me um beijo rápido na boca. Mas eu sentia-me vexado. Tinha, aliás, a certeza de que, se tentasse de novo tomá-la, de novo havia de me repelir. Sentei-me, por fim, em silêncio, acendi um cigarro. Uma onda forte de chuva batia agora no pátio, irradiando a presença de tudo para uma desolação imemorial. Sofia acendeu também um cigarro; e a sala, abafada de fumo, começava a segregar um cheiro a vício noturno.
- Que mais deseja dizer-me - perguntei.
Vergílio Ferreira, Aparição,
Bertrand Editora
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