sexta-feira, 8 de maio de 2015

"NO TEMPO DA FROR*"



   O baile, enfim, ali armado a rigor, e os senhores da cidade sem virem! Ouviu-se rodar um trem. Manuel Bana furou por entre os convidados, como se estivesse numa venda e fosse apartar uma briga. Mas entrou meio murcho, seguido de Damião Serpa e do tenente Espínola à paisana. João Garcia mostrara muita pena, mas estava de serviço (...).
   A Rosa Bana fora buscar Margarida à cadeira do pé do altar, que era o lugar de respeito. Margarida abria os braços escusando-se, como quem não tem consigo a prenda que procuram; alegava um começo de rouquidão que apanhara na tarde do bezerro, quente das papas de milho.
   - Não se faça rogada, Bidinha!
   Aquele argumento venceu-a; encostou a cadeira, tomou o lugar da namorada do Chico Bana em frente dele. Damião Serpa substituíra um rapaz das Funduras por baixo do braço da viola, e deitou a cantiga a propósito, que agradou logo muito:




     Boa noite digo a todos,
     Que eu tive ensino de mãe:
     Viva a dona desta casa
     E estas meninas também.



   Então Margarida, aproveitando a pausa que o Feijão fizera no baile para apertar as cravelhas da viola, agarrou Manuel Bana, que se fora plantar desconsolado e de mão no batente do forro; trouxe-o para o terreiro entre risos, quase arrastado, e encaixou-o no lugar do sobrinho, no meio das palmas e dos vivas dos convidados divertidos. O Feijão mandou "rasgar":




     Eu trago terra de longe
     Para fazer um jardim,
     Para plantar este cravo
     Que está longe de mim.



   A voz de Margarida tinha um timbre claro naquela ironia do "jardim", do "cravo" que parecia crescer do bigode de Manuel Bana e florir-lhe os olhos velhos, rodeados de preguinhas velhacas. Todo ele ria, fazia "que não" com a cabeça, parecia procurar caminho para se esgueirar dali:
   - Olha a alembrança da menina! Fazer pouco de um home... Um velho, cos dentes escabaçados! - E alargava a mão na cara encovada, no seu gesto manhoso.
   Mas o seu olhar fino e doce interrogava a cabeça de Margarida, meio pendida no ombro, a expressão longínqua e iluminada da testa e do cabelo um pouco desmanchado, que parecia seguir o rasto da cavalgada que se perde no pó e deixa os campos conforme a noite desenha as árvores e as lavas, por cima dos buracos dos grilos.




Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal,
 Bertrand







* Perífrase muito usada nas cantigas de amigo da lírica trovadoresca (Idade Média) para designar a primavera e o incitamento ao amor que esta estação supostamente provoca.

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