sexta-feira, 29 de maio de 2015

PERPLEXIDADE

   A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que os outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. "Não percebo", disse.
   Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno ecrã era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o ecrã onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande, a rugazinha e aquilo de não perceber. "Não percebo", repetiu.
   "O que é que não percebes?", disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez.
   "Isto, por exemplo."
   "Isto o quê?"
   "Sei lá. A vida.", disse a criança com seriedade.
   O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de 8 anos, tão subitamente.
   Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros.
   "Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira."
   "Não percebo."
   "Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e... Dizem-nos para não matar, para não bater. Até não beber álcool, porque faz mal. E depois a televisão... Nos filmes, nos anúncios... Como é a vida, afinal?"
   A mãe largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil.
   "Ora vejamos,", disse ele olhando para o teto em busca de inspiração. "A vida..."
   Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara como vida normal e que a filha, aos 8 anos, recusava.
   "A vida...", repetiu.
   As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

Maria Judite de Carvalho, in O Jornal (02.10.1981)

Sem comentários:

Enviar um comentário