Dr. rrrrr!
Naquele Reino da Comarca dos Doutores, o dê-erre, Dr, R-D, Herr D, Senhor D or Senhor Dom, distinguia-se à légua dos restantes mexilhões pelo porte de todo contentinho com a sua pessoa, pelos tons escuros com que revestia o corpo e pelo cantar inconfundível, que era exdrúxulo e gargarejado.
Filho e neto de camponeses que enriqueceram e que em ricos foram e em ricos seriam sempre camponeses, este exemplar preferia o habitat das secretarias e dos purgatórios do carimbo onde tudo obedece à ordem natural dos impostos. Deslocava-se com solenidade difusa à custa do canudo de bacharel que manobrava como um apêndice perfurador para abrir caminhos nos subterrâneos dos decretos e que ao mesmo tempo lhe servia de membrana extensora do aparelho bucal. Ávido e depredador, nisso ninguém o batia. Contudo, dotado de apreciável sentido coletivo, observam os especialistas - e não admira: na luta contra a maioria dos mexilhões vulgaris Sp, o dê-erre fazia barreira ao lado dos restantes irmãos da espécie, espadeirando com o canudo do diploma e entoando decretos até à confusão.
José Cardoso Pires, 1988. A República dos Corvos,
Dom Quixote
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