segunda-feira, 25 de maio de 2015

AGUALBERTO SALVO-ERRO
 


   Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar a sua amada. Era uma moça muito nova que ele encontrara em outras terras. Trazia-a sempre no barco, em companhia das pescas. Fim do dia, antes de trazer o peixe à praia, meu pai encaminhava o barco para além do horizonte para ir deixar a moça. Quem seria tal rapariga e de onde era? Mistério que ficou e há de ficar com Agualberto.
   Nessa tarde, meu pai pescava próximo da nossa praia. O tempo estava encabrinhado. Eu apurava as vistas, tentando espreitar a figura dessa que acompanhava meu pai. Minha mãe virava as costas ao oceano.
   - Já viu o pai, lá?


Mia Couto, Mar me quer,
 Ed. Caminho (adaptado)



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