terça-feira, 19 de maio de 2015

PEDRO DA MAIA VAI CASAR



Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um vestido cor-de-rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os joelhos de Pedro, sentado ao seu lado: as fitas do seu chapéu, apertadas num grande laço que lhe enchia o peito, eram também cor-de-rosa: e a sua face, grave e pura como um mármore grego, aparecia realmente adorável, iluminada pelos olhos de um azul sombrio, entre aqueles tons rosados. No assento defronte, quase todo tomado por cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéu panamá, calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda-sol entre os joelhos. Iam calados, não viram o mirante; e, no caminho verde e fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chávena de café junto aos lábios, de olho esgazeado, murmurando:
- Caramba! É bonita!
Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo – como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas.
O Outono passou, chegou o Inverno, frigidíssimo. Uma manhã, Pedro entrou na livraria onde o pai estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a bênção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se bruscamente para ele:
- Meu pai – disse, esforçando-se por ser claro e decidido – venho pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.
Afonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e numa voz grave e lenta:
- Não me tinhas falado disso… Creio que é a filha de um assassino, de um negreiro, a quem chamam também a «negreira» …
- Meu pai!...
Afonso ergueu-se diante dele, rígido e inexorável como a encarnação mesma da honra doméstica.
- Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer, quase em soluços:
- Pois pode estar certo, meu pai, que hei-de casar!
Saiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para que o pai ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao Hotel Europa.
Dois dias depois Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nos olhos, contando que o menino casara nessa madrugada – e segundo lhe dissera o Sérgio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Itália.
Afonso da Maia sentara-se nesse instante à mesa do almoço, posta ao pé do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se num vaso do Japão, à chama forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o número de «Grinalda», jornal de versos que ele costumava receber… Afonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu guardanapo.
- Já almoçou, Vilaça?
O procurador, assombrado daquela serenidade, balbuciou:
- Já almocei, meu senhor…
Então Afonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
- Pode tirar dali esse talher, Teixeira. Daqui por diante há só um talher à mesa… Sente-se, Vilaça, sente-se.

Eça de Queirós, Os Maias,
 Ed. Livros do Brasil


Guy Constantin, Trois Femmes dans une Calèche

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