A PAIXÃO DO TIO JOÃO
Vida feliz a do Tio João Abade daí por diante. Embora afeito a trabalhar, como tinha posto o fecho no coruto das suas ambições, já o labor da criatura era mais lento e as noites mais bem dormidas. Homem esperto, mas iletrado, resolveu daquela idade começar a ler livros e aprender ainda alguma coisa. Homem prático até então, foram os poetas, no tarde, os seus autores favoritos. Leu e releu o Camões, devorou-lhe os sonetos. Foi-se também ao Bocage e derreteu-o como açúcar. A João de Deus fez outro tanto. Poetas, dizia, são os poetas do amor.. Os outros gastaram tinta mal gasta. Camões, Bocage e João de Deus sim, são os meus homens. Só eles sentiram e cantaram o amor como é devido. O resto...
Esta mania lírica serôdia deu que falar no povoado. Os filhos do ancião sentiram-se muito de semelhante relouquice, principalmente as professoras, que deram em beatas. Pediram ao pai que trocasse os livros de versos por livros de devoção. Resposta dele: cada coisa tem o seu lugar, minhas burras. A poesia também é religião...
Com isto as calava, mas, o melhor ainda não se contou. Depois de ler os versos, o velho apaixonou-se pelo nascer do sol e pelos errores da lua sobre os montes. Erguia-se de noite para surpreender os efeitos do luar nas águas e nas árvores. Fez-se tão poeta, que acabou por se enamorar também de uma menina, à falta de outra, uma borboleta das da sua aldeia. Era uma alta, já trintona e muito ruiva. Mal deu tento da paixão do velho, logo cuidou de o benzer com a fralda. Mostrou-se também apaixonada por ele, fez-lhe mimos que nunca a defunta mulher, Deus a tivesse lá, fora capaz de lhe fazer. A ruiva era uma santa...
As filhas professoras quiseram morrer quando viram o velho neste apuro. Os filhos também intervieram com o seu conselho brando, benévolo, próprio de homens escorreitos. Correu-os o velho, dizendo a todos: ide bugiar... Sei o que faço. Não preciso de tutores. Governai-vos, que eu também me governo.
Cada vez mais louco, o velho continuou na mesma vida. Ensinou a ruiva a ler sem erros, mas a ruiva não se apaixonou de mais pelos poetas. Preferiu a prosa. Como viuvasse em muito boa idade um lavrador do sítio, homem de teres e sem filhos, mandou convidar a ruiva para lhe governar a casa. A ruiva aceitou logo. Nem adeus disse ao Tio João Abade. O pobre ficou como cobra que perdeu a peçonha. Esmaeceram-lhe as cores do rosto, ficou de todo assombrado. As filhas, é claro, deram graças a Deus do sucedido. Fizeram festas ao velho para o consolar, mas ele repeliu-as desabrido. Chegou a dar um pontapé no rabo de uma delas. Coiras! Deixai-me!
Entristeceu de mais. Em dez dias, envelheceu dez anos. Deixou de comer. Pôs-se na espinha. Só bebia água, muita água fria. Apanhou um catarral. Depois caiu de cama com muita falta de ar, febre a quarenta e muito roufenho. Caído de cama para não mais se erguer, ouviu ou sonhou que a ruiva passava na rua para a fonte. Ergueu-se e deu uma corrida até ao janelo. Bateu com a cabeça no vidro, ficou muito atordoado e perdeu os sentidos. Morreu...
O velho estava no celário. O filho médico explicava aos amigos o mecanismo da morte de seu pai. Uma broncopneumonia, delírio, a fuga, o traumatismo, a síncope, a morte. Mas, o irmão padre, homem de rasgo, atalhou-o logo:
- Cala-te aí, Julião. O nosso pai morreu de amor.

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