sexta-feira, 15 de maio de 2015

O PRIMEIRO DIA


   Quando finalmente se decidiu a sair da janela, já dele não havia nem o rasto. O barulho da porta a fechar-se e o som dos seus passos pela escada abaixo estavam ainda dentro dos seus ouvidos. Quando ela era pequena, gostava às vezes de bater ao de leve com a ponta do garfo no copo, e ouvir aquele som fininho que parecia não acabar nunca. Então a mãe ralhava, porque o copo era de cristal e podia partir-se com aquelas patetices. Patetice era agora ela recordar-se dessas coisas, tão a despropósito, onde já lá vão os copos de cristal, meu Deus!, só porque o silêncio misturado com o barulho da porta a fechar-se parecia também não acabar nunca, fininho, fininho, a enterrar-se no coração. Olhou para o relógio. Como preencher o vazio daquela manhã diferente, subitamente imensa? Pegou no telefone, a vontade de contar a toda a gente, de telefonar para toda a parte.
   A amiga não se admirou sequer da hora matinal, parecia esperar até o telefonema. Perguntou apenas:
   - Então?
   - Lá foi - disse ela. - Lá foi. Sem uma palavra, sem se voltar na escada, sem um aceno.
   (...) Se ao menos ela tivesse um emprego, um lugar onde estar a horas certas logo pela manhã, tudo seria diferente, as horas teriam decerto menos minutos, os minutos menos segundos. Assim, era um inferno: os olhos pregados naquela porta, naquela janela.


Alice Vieira, Bica Escaldada,
 Casa das Letras



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